DESPREZO AO ESSENCIAL

Cristovam Buarque
Mais uma vez o Brasil enfrenta um sério problema, entre jovens e até mesmo adolescentes, de maneira simplista: o alto índice de gravidez precoce e de doenças sexualmente transmissíveis. Para resolver isso, o governo escolheu colocar distribuidores mecânicos de camisinhas nas escolas.
Essa é uma maneira simplista de tentar resolver o assunto. Ambos os problemas decorrem de fatos muito mais complexos: nacionais e globais. Nas últimas décadas, houve uma quebra de preconceitos sexuais e conseqüente redução da idade de iniciação da sexualidade.
O Brasil radicalizou ainda mais. A conseqüência natural são os dois problemas que precisam ser enfrentados imediatamente, mas de uma maneira correta: sem simplificação e sem ilusionismo. A solução não está na facilidade mecânica de máquinas que distribuem camisinhas.
A solução está na educação sexual de crianças e adolescentes, e na educação de seus pais. A primeira condição é que as crianças brasileiras fiquem na escola até os 18 anos. Se as crianças abandonam a escola antes dos 14 anos, como acontece no Brasil, não tem como dar educação sexual.
Se elas não entram na escola, como milhões de crianças em todo o Brasil, também não terão educação sexual. É preciso que eles permaneçam na escola. Só com um programa sério de bolsa-escola, poupança-escola e escolas de qualidade será possível manter a escolaridade até o final do ensino médio.
Hoje muitas crianças estão matriculadas, mas não freqüentam, vão apenas pela merenda. Agora, também irão para receber a camisinha. A segunda condição é ter cursos específicos de educação sexual nas escolas públicas e privadas.
Com esses cursos, as crianças saberão usar a própria sexualidade, terão recursos para comprar suas próprias camisinhas ou poderão obtê-las no SUS, ou com os amigos, os tios e os pais.
Sem a consciência plena de sua sexualidade, seus prazeres e riscos, de pouco ou nada vão adiantar as novas maquininhas de camisinha. Pode até provocar um efeito contrário, de incentivo ao sexo, em vez de incentivar o sexo seguro.
A distribuição mecânica não dá essa dimensão educacional e ainda provoca uma redução da idade de iniciação sexual, ou pior: algumas crianças podem usar as camisinhas para fazer balões.
Ao lado da educação escolar, o governo e a sociedade precisam entender que, no Brasil, há um clima de incentivo ao erotismo precoce, na vida cultural, especialmente na televisão.
Com essa situação, a distribuição da camisinha é um “jeitinho” para não tocar nas causas fundamentais do problema. O que se observa é a velha lógica do arranjo imediatista, superficial e mesmo irresponsável.
Transferindo para as próprias crianças e adolescentes a solução dos problemas que nós, a sociedade brasileira, criamos. Educação relegada, crianças fora da escola, erotismo induzido desde a primeira infância.
Crianças e jovens que se cuidem subindo em banquinhos, que aprendam sozinhos a manusear as maquininhas e que se lembrem de usar o preservativo. Como se o problema fosse deles e não de todos nós, do Brasil, do governo.
Triste é que essas não são as únicas maquininhas oferecidas para resolver os grandes problemas nacionais. “Um dia para distribuir camisinha e no outro para acelerar o crescimento”, enquanto as verdadeiras causas não são enfrentadas: tudo com um profundo desprezo ao essencial.
Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília, Senador pelo PDT / DF
