A “CORTE CELESTIAL”: A REPRESENTAÇÃO DO BELO

Eliene Bina
O Museu Abelardo Rodrigues, guardião de acervo de arte sacra cristã de inestimável valor artístico, histórico e cultural, comemora seus 25 anos na Bahia. A coleção foi reunida pelo pernambucano que empresta seu nome à instituição, em justa homenagem dos baianos. São peças de importância imensurável, abrigadas no Solar Ferrão, construção setecentista, imponente, erguida no Pelourinho, coração da cidade do Salvador das 365 igrejas, Patrimônio Histórico da Humanidade, ícone maior da diversidade étnica, religiosa e cultural da Bahia.
Vinda de Pernambuco, a coleção de Abelardo Rodrigues, ao chegar a Salvador permaneceu por seis anos no Museu de Arte Sacra da Universidade Federal da Bahia, até a inauguração do Museu Abelardo Rodrigues, em 5 de novembro de 1981, em decorrência do Decreto No. 27.724. A obra da vida do colecionador pernambucano passou a dispor de um espaço para abrigá-la em definitivo.
A escolha do Pelourinho para instalação do Museu revelou-se premonitória, tal a integração da coleção com o seu entorno. Os estilos colonial e barroco daquele conjunto arquitetônico convivem em harmonia com a sua gente, seus artistas populares e com a marcante presença africana no nosso passado, presente e futuro. Ali, tanto quanto na “Corte Celestial” – definição de Abelardo Rodrigues para sua coleção – está a essência do que se convencionou chamar baianidade e, em última análise, brasilidade.
As peças espelham o nosso multiculturalismo e miscigenação, tendo o belo como parâmetro, representando a expressão maior da religiosidade do povo brasileiro e, em particular, do nordestino. Cuidadosamente reunida, foi formada, assim, o que se tornaria a maior coleção particular de arte sacra do Brasil, um notável patrimônio.
O Museu, composto por uma coleção de 808 peças de arte sacra brasileira, compreende imaginária, crucifixos, oratórios, maquinetas, pinturas e fragmentos de talha. Dentre as obras destacam-se devoções populares, invocações raras e santos de roca, que registram o trabalho erudito e popular de artesãos brasileiros. Datadas dos séculos XVII ao XX, representativas de várias épocas, escolas e materiais, tais como: barro, madeira, marfim, pedra-sabão, alabastro e calcita.
Essa coleção possibilita a análise da arte sacra, com suas peculiaridades, não só do precioso e do raro, mas de igual modo com o histórico e o comparativo entre o erudito e o popular, e as várias tendências regionais, principalmente do Nordeste. A coleção evidencia a preservação do patrimônio, o fortalecimento da identidade regional, constituindo-se, dessa maneira, em fonte de estudos e pesquisas sobre estilos artísticos – especialmente o barroco – estética religiosa, iconográfica, da religiosidade popular e artes plásticas.
Reunindo um painel da imaginária brasileira, a “Corte Celestial” destaca-se pela diversidade estilística e de invocações apresentadas. Ao lado das imagens com características eruditas, a grande quantidade de santos populares registra a imensa variedade de influências regionais, com seus modelos típicos carregados da emoção e ingenuidade do santeiro.
Nesses 25 anos, o Museu catalogou, fotografou e documentou o acervo, pesquisando os temas presentes na coleção. Montou ainda exposições, desenvolveu ações educativas e culturais, elaborou projetos para captação de recursos, promoveu a sua divulgação e dinamizou seus espaços. No período, a coleção recebeu os cuidados técnicos exigidos de higienização, imunização e restauração.
Atividade da maior relevância foi contribuir com o processo educativo na Bahia, oferecendo às escolas de 1º e 2º graus e às universidades, uma programação diversificada, compreendendo visitas monitoradas nas exposições de longa duração e temporárias, palestras, oficinas, cursos, seminários, exibições de vídeos e teatro de marionetes. Didatizando o entendimento do acervo, patrocinou apresentações de diversas expressões culturais, tais como música, dança, teatro, canto lírico, coral e poesia. Enfim, foram inúmeras manifestações populares e eruditas, que proporcionaram o aprendizado conjugado com o entretenimento, conseguindo, assim, a interação e identificação com a comunidade.
Muito foi realizado no período compreendido pelas bodas de prata agora comemoradas. Projetos de grande interação com a comunidade foram o Oratório a Santo Antonio; Trilogia aos Santos Juninos; Projeto Julho em Salvador; Museus A Gosto de Todos, dentre outros. Cabe destacar algumas exposições ocorridas fora da Bahia, como: Herança Barroca, realizada em setembro de 1997, no Palácio Itamaraty, em Brasília; Entre Céu e Terra. Brasil Barroco, seis meses até março de 2000, no Museu de Belas Artes da Vila de Paris, em Petit Palais; Brasil 500 anos. Artes Visuais, de abril a setembro de 2000, no Parque Ibirapuera – São Paulo; Brasil, Herança Barroca, de setembro de 2005 a março de 2006, no Museu Dapper, também em Paris.
Merece registro especial a abnegação de seu corpo funcional durante todos esses anos. Consciente da importância do acervo, a equipe se impôs à missão de conservá-lo e compartilhá-lo. Rendo-lhe homenagem, destacando a responsabilidade, competência e dedicação da diretora da instituição, museóloga Maria das Graças Campos Lobo, há uma década zelando pelo Museu e cada uma de suas peças.
Em 2006, o marco comemorativo do Museu Abelardo Rodrigues é a exposição A “Corte Celestial: 25 anos de arte e devoção”, que mostra, também, peças inéditas, e conta com módulos temáticos e inovador projeto de iluminação cênica, que permitem realçar detalhes da valiosa coleção. Receberam enfoques especiais os padroeiros de Salvador e do Estado da Bahia, São Francisco Xavier e Nossa Senhora da Conceição, respectivamente; Sala da Memória, espaço que homenageia o colecionador; Jardim das Miniaturas; Devoções Populares, módulo que traduz o sincretismo religioso, conjugando o sagrado e o profano, representados nas principais festas populares baianas.
A obra de Abelardo Rodrigues não se dispersou. Integrou-se ao Pelourinho, a Salvador, à Bahia e aos baianos. É motivo de justo orgulho para todos os brasileiros. Agora, ainda mais. Visite-a.
Eliene Bina é pedagoga e museóloga, diretora do Museu Eugênio Teixeira Leal, vice-presidente do Conselho Federal de Museologia e membro do Comitê Gestor do Sistema Brasileiro de Museus, DEMU/IPHAN/MINC.
