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Artigo

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DESAFIOS DO VELHO CHICO

 
Daniel Pinto

Apesar de todos os problemas – ao longo de seus quase três mil quilômetros de extensão entre Minas, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas –, o rio São Francisco ainda exibe exuberância. Ele brota da terra na Serra da Canastra, em Minas Gerais, a 1.250 metros de altitude. Depois desce serpenteando as serras mineiras. 16 quilômetros após a nascente, avista-se a Casca D’anta, a primeira e mais espetacular queda d’água do São Francisco. Esse primeiro trecho permanece preservado. Quase intocado.
O filete de água que nasce na Canastra começa a ganhar corpo e em Pirapora, ainda nas Minas Gerais, o rio demonstra sua força e suntuosidade. São, pelo menos, 50 metros de largura, com violentas correntezas, o que impossibilita a navegação, mas promove um belo show.
Os problemas começam a surgir à medida que o rio se aproxima da “civilização”. Lançamento de esgoto domiciliar e industrial: não existe estação de tratamento de esgoto em funcionamento em todo o rio; Assoreamento: o que aumenta o deslizamento de areia, que diminui a profundidade do rio e, por conseguinte, afeta a biodiversidade e reduz o trecho navegável; Retirada ilegal de água: ao longo do Velho Chico, centenas de bombas hidráulicas retiram água para irrigação e despejam óleo diesel. Um crime ambiental cometido na maior desfaçatez. Outro grande problema é o lixo. É comum ver embalagens e garrafas de plástico boiando no leito do rio, além de outros resíduos.
Esses são apenas alguns, mas, talvez, os principais desafios que o Governo Federal, através do Ministério da Integração Nacional, terá que enfrentar antes de retirar qualquer milímetro cúbico de água do São Francisco. O projeto prevê a revitalização do rio antes da integração das bacias que vai levar água, a partir de Pernambuco, para todo o nordeste setentrional.
Outro grande desafio para o Governo é esclarecer – através de campanhas massivas em rádio e TV – os pormenores do projeto de transposição à população ribeirinha. De uma forma geral, independente do Estado ou cidade, as pessoas que vivem à margem do rio temem que o São Francisco seja desviado do seu curso natural, que – depois de iniciada as obras – eles não possam gozar das benesses do rio (pesca, pequenas irrigações e até fornecimento de água). Os ribeirinhos estão cismados quanto à boa fé de parte dos prefeitos que vão administrar as verbas despejadas pelo Ministério da Integração e também desconfiam que a transposição favoreça apenas políticos, grandes agricultores e empresários.
A cada dia que passa, enquanto medidas enérgicas não são tomadas, o rio chega mais fraco a sua foz, em Piacabuçu, nas Alagoas. O São Francisco deveria invadir o mar com vigor e despejar suas águas no oceano. Mas, infelizmente, não é isso que acontece. O São Francisco perdeu a “virilidade”. Hoje, o processo natural se dá de forma inversa. O mar é que penetra no rio. A “língua salgada” do São Francisco se estende por mais de 40 quilômetros. Nessa área, é possível encontrar espécimes marinhas à beira do rio.
O nome “transposição” por si só já causa pânico entre os ribeirinhos. Isso, aliado à completa desinformação, transforma o projeto num pecado mortal, numa esconjura, num “crime” contra a identidade nordestina. Mesmo assim, existe um sentimento de solidariedade latente entre os que vêem o rio como parte de suas almas. A idéia de levar água para quem precisa é louvada por todos.
A revitalização e integração das bacias hidrográficas do Velho Chico é um projeto ambicioso e que se for cumprido à risca, além de recuperar o rio, vai beneficiar uma região que – na maior parte do ano – parece mais um deserto, de tão árida.
O que causa desconforto é o enorme montante de dinheiro em mãos de alguns prefeitos com índoles duvidosas. Não podemos esquecer das eleições municipais de 2008 e do proveito político que o dinheiro pode gerar. Também que, talvez pela certeza da impunidade, alguns prefeitos se consideram acima do bem e do mal. Assim, cabe às Câmaras de Vereadores, aos Ministérios Públicos e à sociedade civil fiscalizar e cobrar. Como disse o ministro Geddel, durante a “Travessia para o Futuro”: “O pessimismo é um estado de espírito. Contra ele uso meu eterno otimismo e a inabalável convicção de que tudo vai dar certo”. Deus te ouça, Geddel. Deus te ouça!

Daniel Pinto é um jornalista “prata da casa”. Já trabalhou em Esporte, Cultura e Entretenimento, mas está crescendo junto com o “Bahia Notícias” e enveredou pelo caminho da Política.
daniel.pinto@oi.com.br

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