Lula no Caminho de Santiago
Filli Plaza, uma artista plástica de meia idade, quer confirmar o que ouvira sobre a queda da popularidade de Lula. Na última vez em que estivera no Brasil, onde conhece Minas Gerais, Ilha de Itaparica e o Carnaval de Salvador, vira cenas e ouvira comentários que descredenciariam quaisquer insinuações de que o ex-presidente pudesse estar em baixa. Isso foi anos atrás.
Tento explicar que Lula, agora, faz aparições extemporâneas, ora criticando a mídia, ora convocando a militância do partido contra o que chamam por aí de reaças (foi muito difícil traduzir isso para algo mais forte do que simplesmente conservador, em espanhol,). O diálogo se passa em um albergue simples e acolhedor do pueblo de Fonfria, não mais do que 100 habitantes, a 120 km a pé de Santiago de Compostela. A conversa já ia impulsionada por vinho, conhaque, chá e uma barra de chocolate amargo.
Falo em denúncias de corrupção como uma das possíveis razões para a maré vazante de Lula perante a opinião pública. Filli, divorciada, mãe de duas filhas adultas, designer de jóias em Barcelona, se exaspera para dizer que corrupção é na Espanha. Desde outrubro de 2014, foram intensificadas operações e prisões de importantes membros do PP (o partido governista), acusados de recebimento de propina e favorecimentos. No caso espanhol, embolsar 10 mil euros já é digno de execração pública.
Penso em dizer a Filli que não, que corrupção-arte, corrupção-moleque, corrupção-ginga, com cifras milionárias, que corrupção maiúscula se faz no Brasil. Envergonhado, a única coisa que emito é um muxoxo de concordância e um brinde aos ladrões do dinheiro público. Um brinde aos que foram presos, é claro.
Na Espanha, política é um dos esportes nacionais, como futebol, tênis e apostas lotéricas. No mesmo domingo em que Barcelona e Real Madrid se enfrentavam com ampla cobertura de jornais e televisão, antes e depois do que eles chamam de maior clássico do mundo, mais de quatro horas de programação foram dedicadas a debates e análises do resultado das eleições na comunidade autônoma de Andaluzia. Fala-se no fim do bipartidarismo protagonizado por PP e PSOE, com a força de Ciudadanos e Podemos.
Por causa dessa paixão que o tema Lula veio parar na conversa com um brasileiro no Caminho de Santiago, essa trilha adotada por aposentados europeus que gostam de caminhar, jovens arrasados por fins de relacionamento, casais que curtem aventuras a dois, profissionais liberais em crise existencial. Enfim, pessoas em busca de conforto para a alma, ou de respostas, ou de proteção espiritual, ou de tudo junto.
Filli passa a comentar sobre a mediocridade dos políticos (isso parece um sinal tão universal quanto um triângulo amarelo com caveira para simbolizar veneno), mas pode ter notado que o brasileiro não estava mais na conversa que tinha também um ex-fuzileiro naval norte-americano, um jovem bon vivant francês, duas universitárias espanholas. O brasileiro já pensava que três compatriotas eram igualmente conhecidos naquela rota de mais de 750km entre França e a capital da Galícia: Paulo Coelho, Pelé e Lula. Apenas o político – por qualquer motivo que seja - não figurava mais como unanimidade entre os peregrinos.
Uma máxima diz que o Caminho de Santiago não dá as respostas que você quer, mas as que você precisa. Pode ser que essa frase não se aplique ao encerramento desse artigo. Pode ser.
Tento explicar que Lula, agora, faz aparições extemporâneas, ora criticando a mídia, ora convocando a militância do partido contra o que chamam por aí de reaças (foi muito difícil traduzir isso para algo mais forte do que simplesmente conservador, em espanhol,). O diálogo se passa em um albergue simples e acolhedor do pueblo de Fonfria, não mais do que 100 habitantes, a 120 km a pé de Santiago de Compostela. A conversa já ia impulsionada por vinho, conhaque, chá e uma barra de chocolate amargo.
Falo em denúncias de corrupção como uma das possíveis razões para a maré vazante de Lula perante a opinião pública. Filli, divorciada, mãe de duas filhas adultas, designer de jóias em Barcelona, se exaspera para dizer que corrupção é na Espanha. Desde outrubro de 2014, foram intensificadas operações e prisões de importantes membros do PP (o partido governista), acusados de recebimento de propina e favorecimentos. No caso espanhol, embolsar 10 mil euros já é digno de execração pública.
Penso em dizer a Filli que não, que corrupção-arte, corrupção-moleque, corrupção-ginga, com cifras milionárias, que corrupção maiúscula se faz no Brasil. Envergonhado, a única coisa que emito é um muxoxo de concordância e um brinde aos ladrões do dinheiro público. Um brinde aos que foram presos, é claro.
Na Espanha, política é um dos esportes nacionais, como futebol, tênis e apostas lotéricas. No mesmo domingo em que Barcelona e Real Madrid se enfrentavam com ampla cobertura de jornais e televisão, antes e depois do que eles chamam de maior clássico do mundo, mais de quatro horas de programação foram dedicadas a debates e análises do resultado das eleições na comunidade autônoma de Andaluzia. Fala-se no fim do bipartidarismo protagonizado por PP e PSOE, com a força de Ciudadanos e Podemos.
Por causa dessa paixão que o tema Lula veio parar na conversa com um brasileiro no Caminho de Santiago, essa trilha adotada por aposentados europeus que gostam de caminhar, jovens arrasados por fins de relacionamento, casais que curtem aventuras a dois, profissionais liberais em crise existencial. Enfim, pessoas em busca de conforto para a alma, ou de respostas, ou de proteção espiritual, ou de tudo junto.
Filli passa a comentar sobre a mediocridade dos políticos (isso parece um sinal tão universal quanto um triângulo amarelo com caveira para simbolizar veneno), mas pode ter notado que o brasileiro não estava mais na conversa que tinha também um ex-fuzileiro naval norte-americano, um jovem bon vivant francês, duas universitárias espanholas. O brasileiro já pensava que três compatriotas eram igualmente conhecidos naquela rota de mais de 750km entre França e a capital da Galícia: Paulo Coelho, Pelé e Lula. Apenas o político – por qualquer motivo que seja - não figurava mais como unanimidade entre os peregrinos.
Uma máxima diz que o Caminho de Santiago não dá as respostas que você quer, mas as que você precisa. Pode ser que essa frase não se aplique ao encerramento desse artigo. Pode ser.
* Pablo Reis é jornalista
www.twitter.com/opabloreis
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