TRANSPLANTES NO BRASIL: POR QUE NÃO AVANÇAMOS MAIS?

Dr. Raymundo Paraná
As últimas três décadas foram marcadas pela consolidação dos transplantes de órgão e tecidos como método terapêutico eficaz para melhorar, qualitativamente e quantitativamente, a vida de muitos pacientes.
O transplante de rim apresentou notável crescimento em diversos países, incluindo o Brasil. Todavia, no nosso país, manteve-se mais concentrado em algumas unidades da Federação. Como sempre, nosso desenvolvimento heterogêneo cria profundos abismos entre as regiões. Muitos Estados não conseguiram implementar vigorosos programas de transplante, a despeito da excelente qualificação dos seus profissionais. No transplante de fígado não foi deferente.
Infelizmente, no que se refere ao transplante de órgãos, a Bahia apresenta um triste quadro. Nos últimos anos os progressos foram tímidos e muitas tentativas de correção estrutural da nossa central de transplante frustraram aos médicos e pacientes.
Para se ter uma idéia do nosso atraso, um único hospital público de São Paulo transplanta mais rins do que todo o Estado da Bahia. No que se refere aos transplantes de fígado, estamos perdendo para estados de menor importância econômica na federação, como Ceará e Pernambuco.
Por outro lado, a Bahia possui tradição na qualidade profissional, acadêmica e científica nas áreas de Hepatologia, Nefrologia, Cardiologia e outras. É hoje um dos mais importantes pólos geradores de conhecimento nestas especialidades, fato reconhecido nacionalmente e internacionalmente.
Fica claro que este atraso não se deve a uma questão de qualificação profissional. No nosso Estado, temos equipes de transplantadores de rim, fígado, medula óssea e córnea de excelente capacitação. Não há dúvida de que esses profissionais trabalhariam em qualquer equipe de transplante do mundo. Destarte a excelência dos recursos humanos disponíveis, as nossas unidades de transplantes continuam atrofiadas. Sequer conseguimos evoluir no aumento das doações. Quais são então os reais motivos do nosso atraso nessa área?
Nos últimos anos tenho visto várias discussões a respeito deste tema. Pessoalmente, me posicionei numa reunião ministerial quando provocado por algumas indagações sobre o sofrível desempenho de muitos estados Brasileiros na quantidade de transplantes de fígado.
Inicialmente, se imaginava que o problema do transplante seria resolvido com aumento da remuneração dos profissionais. Ledo engano! Posteriormente, se imaginou que o problema estaria relacionado à pouca formação de profissionais no país. Também não foi esta a questão.
De fato, ainda temos poucos profissionais em formação no país, todavia o quantitativo de bons profissionais no País, se bem distribuído, seria suficiente para atender a nossa demanda. No que se refere particularmente aos transplantes de fígado, a concentração de profissionais em algumas cidades mostra um Brasil sem política de implantação de equipes de transplantes. O resultado é o baixo número de procedimentos realizados por cada uma das equipes.
Além do prejuízo da experiência acumulada, importantíssima no exercício da medicina, existe ainda a dificuldade do estabelecimento de fronteiras entre as equipes, a competitividade destrutiva e, finalmente, a tendência à mediocridade.
Deste modo, fica claro que a resolução do problema no Brasil requer outras ações, principalmente aquelas que visem melhorar o serviço público de saúde e a captação de órgãos. Num país com estradas sofríveis e com altos índices de violência, como o número de doações cadavéricas pode ser irrisório?
Este fato se deve a múltiplos fatores, incluindo aspectos culturais, religiosos, sociais, educacionais, mas, sobretudo, o que predomina é a desconfiança das famílias no serviço público de saúde.
Os estados com maior taxa de doação são aqueles que oferecem os melhores serviços públicos de saúde e que possuem hospitais Universitários capacitados para realização de transplantes. Todos esses aspectos oferecem aos familiares do potencial doador a segurança necessária para que aceite o diagnóstico de morte cerebral, assim como desperta a solidariedade e a cidadania daquele que perdeu o seu ente querido, mas entendeu o acolhimento do Estado ao seu drama. Para este familiar torna-se compreensível manter uma outra vida a partir de uma vida já finalizada.
O número ideal de doadores de fígado por cada milhão de habitantes deve variar entre 18 e 22, enquanto na Bahia temos menos de duas doações. No Brasil, os estados com melhor desempenho alcançam 12 doações por milhão de habitantes e são esses os estados que melhor tratam os pacientes do SUS.
Assim sendo, ao lado da remuneração do médico, da redistribuição das equipes, da qualificação profissional, devemos entender que o problema básico da nossa falta de doação é o precário estado do nosso serviço público de saúde, mormente no que se refere aos hospitais de trauma no nosso Estado. Também o descompasso entre o setor público e privado quanto aos recursos tecnológicos, bem ilustrado pelo fato do nosso tradicional hospital escola da Universidade Federal da Bahia se encontrar fora do seleto clube de hospitais públicos transplantadores.
Enquanto isto não for resolvido não vamos esperar grandes incrementos no transplante de órgão na Bahia, pois, como já disse anteriormente, quem não recebe não doa. Está aí um grande desafio para os próximos gestores de saúde do nosso país.
Dr. Raymundo Paraná é professor adjunto de Gastro-Hepatologia-UFBA e coordenador do Curso de Pós-Graduação em Medicina-UFBA
