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Artigo

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A CIÊNCIA E A TECNOLOGIA NO DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO


Dr. Raymundo Paraná

O crescimento científico e tecnológico do Brasil nos últimos anos é notório aos olhos de pesquisadores dos grandes centros produtores de conhecimento do Brasil e do exterior. Destarte a nossa ainda pequena participação nas publicações científicas internacionais e no registro de patentes, consolidamos fortes grupos de pesquisa do país. Na área de saúde esse aspecto se torna ainda mais evidente pois, tradicionalmente, esta área é uma das mais produtivas.
Vários fatores podem explicar o crescimento quantitativo e qualitativo da ciência e da tecnologia brasileiras, todavia nenhum deles é tão contundente quanto as políticas implementadas pelas nossas agências de fomento, além da criação das fundações de amparo à pesquisa nos estados.
As políticas de fomento adotadas pelos nossos grandes órgãos nacionais (Finep e CNPq) foram afirmativas, principalmente nos últimos quatro anos. No caso particular do CNPq, observamos uma gestão rica em idéias e com descentralização dos recursos. Este último aspecto é de fundamental importância para um país tão heterogêneo quanto o Brasil.
No Brasil, concentrou-se saber, poder e riqueza no Sul/Sudeste para, perversamente, dominar as regiões mais carentes como o Norte/Nordeste e o Centro-Oeste. O resultado desta desastrosa política não poderia ser outro. Criamos grandes abismos entre as regiões, cuja principal conseqüência foi travar o desenvolvimento científico, tecnológico e econômico do Brasil como nação emergente.
A criação das fundações de amparo à pesquisa possibilitou às agências de fomento a descentralização de recursos através de parcerias. Assim, os grupos regionais produtivos receberam recursos, possibilitando a implementação de políticas de apoio às prioridades de cada estado.
Infelizmente, boa parte dos estados brasileiros ainda não percebeu a importância das suas fundações de amparo à pesquisa. Algumas oferecem apoio a projetos de pouco impacto ou fomentam viagens de pesquisadores para participação em eventos científicos. Desperdiçam, portanto, a oportunidade de implementar o desenvolvimento científico e tecnológico seguro e eficiente. Felizmente, esta não foi a realidade da Bahia nos últimos anos e certamente não será nos próximos. As políticas de desenvolvimento científico e tecnológico do estado, assim como a criação da Fapesb causaram um impacto tão positivo que o reconhecimento tornou-se suprapartidário.
Passada a fase inicial de consolidação, aliás, iniciada desde os tempos do CADCT, a Fapesb e a Secretaria de Ciência e Tecnologia possuem projetos muito mais ambiciosos como a implantação de parques tecnológicos na Bahia, utilizando os recursos humanos qualificados que temos em nosso estado e atraindo recursos humanos de outros locais para complementar áreas de reconhecida carência no estado.
Neste contexto, os acertos superaram os equívocos. Um dos aspectos que necessita ser revisto, pelo menos na área de saúde, é a priorização das pesquisas voltadas às nossas endemias. Aquelas doenças que afligem o nosso povo no dia a dia e que desafiam os nossos gestores de saúde ao longo de muitas décadas. Habitualmente, são essas doenças neglicenciadas pelos grandes centros produtores de conhecimento no mundo ou, quando não negligenciadas, tornam-se dependentes de tecnologia estrangeira de alto custo.
O Brasil, particularmente a Bahia, já deu um exemplo espetacular para o mundo durante o período áureo da nossa escola tropicalista no conhecimento de endemias como a Esquistossomose, Doença de Chagas, Leishimaniose e tantas outras. Naquela época, sem recursos e sem a logística de hoje, pesquisadores como Zilton Andrade, Aluísio Prata, Eliane Azevedo, Rodolfo Teixeira e tantos outros tornaram o Brasil conhecido mundialmente na área das doenças tropicais. Com poucos recursos, porém com inteligência e criatividade, esses pesquisadores deram um exemplo para muitas gerações.
Certamente que, tanto a Secretaria de Ciência e Tecnologia, quando a Fapesb, imaginam algo semelhante, contudo num cenário muito mais positivo. Nestas áreas, não temos competidores, enquanto que em outras áreas cuja exigência de tecnologia apurada é mais intensa, corremos o risco de aventuras, envolvendo grandes somas de recursos, mas sem garantia de retorno rápido à sociedade.
O apelo da tecnologia de ponta e dos modismos científicos em todo mundo, principalmente em nosso país, pode criar armadilhas para gestores e mesmo pesquisadores renomados. Não raro, hipóteses de racional frágil acabam ganhando a mídia como propostas revolucionárias e falsamente plantam a idéia de que estão desenvolvendo uma tecnologia de ponta, única no mundo, quando na verdade estão aventurando algo cuja possibilidade de sucesso inspira fortes reservas.
Certamente que os nossos novos gestores estaduais e federais terão o cuidado de reavaliar todos esses aspectos, além de ouvir criteriosamente a comunidade científica do nosso estado e do nosso país, antes de adotar políticas de desenvolvimento científico e tecnológico.

Raymundo Paraná é professor Livre-Docente de Hepatologia Clínica da Universidade Federal da Bahia e pesquisador do CNPq

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