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Artigo

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A banalização dos protestos... ou o protesto do protesto

Por Adilson Fonsêca

Eu sempre achei que há outras vias (sem trocadilhos) nos protestos que acontecem nos mais diversos bairros de Salvador, que não sejam o de fechar ruas impedindo a livre circulação da população. Com o risco de ser qualificado como antidemocrático ou de direita (não sei o porquê do conceito direita e esquerda – uma não vive sem a outra) entendo que dois  dos princípios do direito civil consiste na livre expressão e manifestação, e no direito de ir e vir.
 
Em pouco menos de um mês duas pessoas morreram por falta de assistência médica, porque passaram mal e não puderam ser socorridas, porque as vias de acesso estavam bloqueadas por manifestantes. Os motivos das manifestações são os mais diversos; do buraco não tapado pela prefeitura, à falta de pagamentos dos salários de uma empresa do setor privado, da morte de uma pessoa em circunstâncias não devidamente esclarecidas, às novas regras de trânsito que atingem os caminhoneiros (o mais novo tipo protesto em Salvador).
 
O fato é que qualquer que seja o motivo da reivindicação se fecha ruas e impede-se a livre circulação das pessoas. Não importa o teor da reivindicação, e muito menos o interesse maior da coletividade. Prevalece o egoísmo de um grupo em relação ao conjunto dos grupos que compõem a vida de uma cidade de três milhões de habitantes.
 
Há pouco tempo moradores de Candeias resolveram fechar a BR-324, nos dois sentidos, porque não aceitaram que as famosas “roubadinhas”, que são os desvios clandestinos, sem qualquer segurança no trânsito, fossem fechadas pela empresa que administra a rodovia. Mesmo sabendo que “roubadinhas” são proibidas no Código Brasileiro de Trânsito e podem causar graves acidentes. Uma pessoa morreu em decorrência disso, porque precisava de atendimento médico e ficou presa no congestionamento de mais de 20 quilômetros.
 
Tempo depois ocorreu outro protesto no bairro do Uruguai, por causa de buracos nas ruas. Os manifestantes fecharam todos os acessos para o Subúrbio Ferroviário e Cidade Baixa. Outra pessoa morreu porque precisava de atendimento médico e a ambulância que poderia socorrê-la ficou sem poder chegar ao local. Em ambos os casos não houve protestos por parte dos familiares das vítimas, que poderiam, seguindo a onda, fechar ruas e avenidas pedindo justiça.
 
Há justificativas para os protestos. As reivindicações são justas. Mas há um conjunto de circunstâncias - e a cidade que tem vida própria nas mais diversas formas deve ser levada em conta – que não têm sido pensado pelos manifestantes. É preciso que se busquem outras vias (sic) para os protestos, que não sejam a interdição de vias (sic) de acesso da população, inclusive de novos manifestantes.
 
A continuar assim, vai haver uma nova modalidade de protesto com o mesmo modus operandi : a interdição de ruas por manifestantes que protestam contra os que fazem protestos. 
 
“Queremos solução! Queremos solução!”.
 
* Adilson Fonsêca é jornalista.

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