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Marca Bahia Notícias
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Artigo

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O discreto charme da burguesia

Por Vitor Fernandes

...aquele grito que vem das ruas e, junto com ele, alguns novos conceitos midiáticos.
 
Aqui mesmo neste espaço eu já deixei claro que sou a favor da gritaria, dos protestos pacíficos e dos “agressivos” – nem tanto destes últimos, também rotulados de vandalismo. Eu mesmo já gritei diversas vezes para tentar modificar algo. E quem nunca fez isso? Mas admito que me surpreendi ao observar essa geração multimídia ir para as ruas detonar os desmandos administrativos e tantos outros que se eu for enumerar aqui vai tomar todo o meu espaço. E, detalhe, essa geração transmitiu tudo ao vivo pela internet e sem cortes. Um charme a mais, não reclama de comercial e não perde um instante.
 
Mas transmitiram tudo mesmo: depoimentos, ocupações, reuniões dos coordenadores, negociações, agressões de policiais (abuso de poder) e de manifestantes que revidavam com pedras, paus e mais recente com coquetel molotov. Até armas letais utilizaram. Foram registrados casos em Salvador, Fortaleza e Rio de Janeiro. Do outro lado, até as crianças foram levadas por seus pais para protestar em praça pública, pintando o sete. E pintaram o sete também as populações de todos os estados brasileiros. Registro aqui a intensidade dos conflitos envolvendo os manifestantes nos atos no Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Bahia, que continuam até os dias de hoje. Foram praças de guerra, morteiro e um flerte com a batalha civil.
 
O grupo Mídia Ninja, por exemplo, quer focar aquilo que a grande imprensa não foca. Os protestos que tomaram as cidades brasileiras há dois meses aumentaram a audiência do grupo, que chegou a ter picos diários de 150 mil acessos. Na visita do papa Francisco ao Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro, durante a Jornada Mundial da Juventude, manifestantes entraram em choque com as forças de segurança. Enquanto a grande mídia mantinha a programação normal, os repórteres ninjas mostravam o confronto em tempo real. E foi assim também durante a Copa das Confederações, durante os jogos os manifestantes que se aproximavam dos estádios eram repelidos com balas de borracha, gás lacrimogêneo e bomba de efeito moral. Dizem que dava pra sentir os olhos arderem dentro dos estádios. Muita gente reclamou! Imagine pra quem tava no protesto!
 
Esses caras trouxeram o debate ao vivo, dando uma nova forma ao jornalismo. “Mídia Ninja passou a simbolizar uma forma individual de colher e transmitir informações, notícia em estado bruto, sem passar pela cosmética da edição. Para alguns, Mídia Ninja é também um jornalismo ativista, militante, capaz de romper o conformismo dos meios tradicionais”, afirmou o jornalista Alberto Dines em texto publicado no Observatório da Imprensa. Ele acredita que o coletivo de mídia “pode revitalizar um processo jornalístico que na última década só se preocupou com a sua própria sobrevivência”.
 
Para quem não conhece os integrantes do coletivo Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação, o tal Mídia Ninja, procura pra entender o que estou falando. E para o texto não focar só nos protestos, para ajudar a sintonizar, tem notícias do Mercosul, da América Latina. Teve prefeito da Chapada Diamantina viajando para os países latinos. Teve país aprovando projeto que legaliza o cultivo, distribuição e a venda de maconha. Teve Câmara de Vereadores sendo ocupada, teve até, e neste assunto vou me ater, uma pesquisa encomendada ao Ibope Inteligência por um grupo feminista, chamado “Católicas pelo Direito de Decidir”, sobre o que pensam os brasileiros a respeito de aborto, união entre pessoas do mesmo sexo, uso da pílula do dia seguinte, proibição do sacerdócio para as mulheres, celibato sacerdotal e punição para religiosos envolvidos com pedofilia ou corrupção.
 
Segundo matéria publicada no site do grupo, os brasileiros, principalmente os mais jovens, “dariam apoio se a Igreja Católica decidisse promover mudanças nos rumos da moral sexual que defende, conforme mostra a pesquisa. Se resolvesse permitir o uso da pílula do dia seguinte, a Igreja receberia o apoio total ou parcial de 82% dos católicos jovens e de 75% dos católicos com mais idade. Se decidisse aceitar a união entre pessoas do mesmo sexo seria apoiada por 56% dos jovens católicos e por 43% dos fiéis da mesma religião com mais de 31 anos”.
 
A pesquisa revela, ainda, que as pessoas entrevistadas nas regiões Sudeste e Sul se mostram mais propensas a apoiar mudanças na Igreja do que os respondentes das outras regiões do país. Entretanto, no que se refere à prisão de uma mulher que recorreu ao aborto, verifica-se completa homogeneidade no índice de discordância manifestado por jovens do Norte e Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste (60%), percentual que chega a 77% no Sul do país.
 
Fora isso, muita coisa no mundo vem mudando, outros debates considerados tabus da sociedade começam a aparecer com mais frequência, como a descriminalização das drogas, genocídio de negros, internação compulsória, estado laico, e tantos outros temas, como as reformas política, agrária e tributária. São todos assuntos que precisamos dominar para debater e, além de tudo é preciso participar, ficar atento para não ser manipulado por informações distorcidas, editadas e tendenciosas, voltadas sempre para o interesse de quem sustenta toda a farsa: a grandiosa burguesia, com o seu discreto charme!
 
* Vitor Fernandes é jornalista e assessor de comunicação.

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