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Artigo

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OS FINS DE DELFIM


Valter Pomar

É dura a vida dos petistas. Passamos o ano de 2005 levando pancada de tudo quanto é lado. Sobrevivemos, em grande medida graças à determinação dos filiados que compareceram ao PED. Depois, suportamos por vários meses a grande imprensa garantir que Lula não seria reeleito. Chegamos ao dia 15 de agosto liderando as pesquisas. Mas não tivemos folga para comemorar, pois, segundo as pitonisas de sempre, Lula vai ser reeleito. Já o PT, este teria acabado.
O nosso enterro é descrito de formas variadas e muitas vezes combinadas entre si. Para fins didáticos, podemos identificar seis "discursos fúnebres".
O primeiro afirma que o PT perdeu totalmente sua identidade política, ideológica e programática. Segundo “O Estado de S. Paulo”, os “programas do PSDB e PT têm pouca diferença”. Para a “Folha”, “PT paga e dá comida” para ter militantes nas ruas. Jânio de Freitas diz que o PT está “dissolvido”. Ferreira Gullar diz que “a falta de escrúpulos sempre foi uma característica do PT e de Lula” (será que o poeta acha escrupulosa a aliança de Roberto Freire com Bornhausen e Alckmin?).
O segundo trata da relação entre o PT e Lula. Para Clóvis Rossi, Lula criou, usou e, agora, “esconde o PT”. Para o jornal “Correio Popular”, de Campinas, a “eleição pode dissociar Lula e PT”. A revista “Veja” sapecou: “morre o petismo, nasce o lulismo”. O neocorvo FHC afirma que o “PT sai vivo desta eleição, mas machucado. O Lula é menos petista do que se pensa. (...) Não sei qual será o futuro do PT. O futuro do Lula? Depende. Se ele ganhar a eleição, tem quatro anos aí que sabe Deus o que vai acontecer. Depois, o PT não tem muito futuro. O PT é o Lula. E o Lula não é o PT”.
O terceiro especula sobre a próxima eleição presidencial. Para Fernando Rodrigues, “em 2010 assistiremos a uma luta sangrenta no PT pelo espólio de Lula”. Para Eliane Cantanhêde, “o PT, em frangalhos (...) não tem um só nome em condições de disputar a sucessão de Lula em 2010”.
O quarto diz respeito à presença do PT no segundo mandato de Lula. Para a maioria dos analistas, o PT vai perder espaço. Segundo Marcos Nobre, “o PT deixou de ser o partido do governo para se tornar aliado”.
O quinto faz vaticínios sobre nosso desempenho eleitoral em 2006. Segundo Fernando de Barros e Silva, “o PT, se tanto, deve conquistar três Estados bem periféricos: Acre, Sergipe e Piauí. E a bancada do Partido, além de encolher, deve ser mais lulista do que petista”.
O sexto critica o papel que jogamos durante o primeiro mandato de Lula. Segundo Delfim Neto, ex-ministro da ditadura militar, “o PT só atrapalhou”. Para Delfim, “os maiores opositores ao Lula estão no PT”.
Cada um destes "discursos fúnebres" mereceria uma análise e uma resposta específica. Em alguns casos, embora chegue a conclusões estapafúrdias, devemos reconhecer que a crítica toma como ponto de partida fenômenos reais.
Por exemplo: é fato que nestes 26 anos o PT mudou e nem sempre para melhor. Mas, por maiores que tenham sido estas mudanças, nosso partido continua sendo a principal expressão político-institucional das classes trabalhadoras.
É fato, também, que há diferenças e conflitos entre o “lulismo” e o petismo. Se depender da direita brasileira, estes conflitos devem evoluir para uma ruptura. Mas, até o momento, pelo menos, os dois fenômenos têm se alimentado mutuamente. Registre-se, aliás, que os mesmos jornais que “denunciaram” que a campanha Lula estaria escondendo o PT, hoje registram sem muita autocrítica que Lula também está chamando voto nos candidatos do partido.
Dizer que Lula será reeleito pela “maioria dos brasileiros” e não pelo PT, é uma tirada digna do Conselheiro Acácio. Assim foi em 2002 e assim será em 2006, pelo simples fato de que 50% a 60% do eleitorado brasileiro não manifesta preferência por nenhum partido. Por outro lado, cerca de 30 milhões de brasileiros manifestam simpatia pelo PT e constituem parcela nada desprezível, não apenas do eleitorado, mas principalmente da militância política e social que sustenta a candidatura Lula.
As especulações sobre 2010, feitas agora, têm a mesma qualidade das especulações feitas, em 2005, sobre as eleições deste ano. Naquela ocasião, é bom lembrar, parte dos “analistas políticos” previa que Serra seria o próximo presidente da República.
O mesmo pode ser dito da análise sobre a participação do PT no segundo governo Lula. Ninguém tem dúvida de que esta participação será diferente da atual. Mas, esta diferença não se resume a discussão sobre cargos. A principal diferença, sobre a qual a grande imprensa não faz comentários, é que o PT aprendeu, no primeiro mandato, o valor da sua autonomia frente ao governo. Aprendeu, também, que hegemonia implica em autoridade moral, orientação estratégica e direção política, não apenas nem principalmente presença neste ou naquele posto ministerial.
Quanto ao resultado das eleições para governador, senadores e deputados, as pitonisas da mídia chutam muito e cometem pelo menos três equívocos. Primeiro, os equívocos. Embora seja compreensível o clima meio down que domina os analistas simpáticos ao tucanato, a eleição ainda não terminou e o PT pode eleger mais governadores e senadores do que indicam as pesquisas de agosto. Ademais, o resultado das eleições não se mede apenas por quem é eleito: deve levar em consideração, também, a votação global dos partidos, as disputas de segundo turno etc. Finalmente, é preciso lembrar que em 2002 o PT elegeu apenas três governadores; se, em 2006, obtivermos a mesma performance, o copo estará meio vazio ou meio cheio, a depender do desempenho geral do partido e, claro, da boa vontade do analista.
O chute diz respeito à eleição para deputados. Segundo Fernando de Barros e Silva, da “Folha”, “a bancada do Partido, além de encolher, deve ser mais lulista do que petista”.
A hipótese de que vamos encolher é exatamente isto: uma hipótese, baseada na intuição ou na vontade do colunista. A direção nacional do PT, pelo contrário, trabalha com outra “intuição”: a de que vamos manter ou até mesmo aumentar a nossa bancada federal. Prudentemente, Fernando de Barros e Silva deixa uma porta aberta para isto acontecer: “é nos grotões do Nordeste que o PT ainda tem chance de reduzir suas perdas”. Depois reclamam quando a gente fala que tem gente vomitando preconceito.
Analisando com calma o conjunto das previsões & profecias feitas sobre o PT, constatamos que elas misturam um pouquinho de realidade, muito desejo e uma enorme esperteza política.
Setores da direita já admitem que Lula será reeleito. Mas eles querem impedir que o segundo mandato seja superior ao primeiro, assim como querem impedir que a esquerda vença as eleições de 2010. Noutras palavras: para a direita, trata-se de impedir que o segundo mandato de Lula consolide uma hegemonia democrática e popular de longa duração. Para isto, a direita sabe que precisa enfraquecer o PT. Daí o esforço para desmoralizar ideologicamente o partido, produzir um resultado eleitoralmente magro em outubro, provocar a ruptura entre o “lulismo” e o petismo, para que o PT tenha a menor influência possível sobre o governo que tomará posse dia 1º de janeiro de 2007 e a menor chance possível de fazer o sucessor de Lula.
A imprensa, óbvio, joga um papel importante nesta operação. Alguns desavisados de esquerda (tanto moderados quanto alguns “ultra”) são chamados para colaborar. Mas o destaque fica para “aliados conservadores” como Delfim Neto, que “interpreta pela direita”, mas em linguagem não-tucana, o que vem se passando no Brasil.
Segundo entrevista concedida por Delfim à “Folha de S. Paulo”, no dia 26 de agosto deste ano, “a eleição de Lula [em 2002] é produto do fato de que a sociedade rejeitou a política do Fernando Henrique”, que produziu “crescimento medíocre, carga tributária insuportável, endividamento mais que insuportável e vulnerabilidade externa terrível”.
Tudo isto é verdade, mas não é toda a verdade. Lula foi eleito também porque, desde 1989, ele se construiu como a principal expressão eleitoral do chamado campo democrático e popular. Se não fosse este “detalhe”, outro candidato de oposição poderia ter sido eleito em 2002.
Mas o negócio de Delfim é subestimar o papel da esquerda em geral e do PT em particular. Para ele, “o que elegeu o Lula foi a Carta ao Povo Brasileiro”.
Há muita gente boa, no PT inclusive, que acredita sinceramente nisto. Claro que ninguém consegue sustentar a sério que o eleitorado que votou em Lula, em 2002, fez isso porque leu ou concordou com a tal “Carta”. O raciocínio é mais sofisticado: segundo ele, as conquistas do governo Lula resultariam da política econômica “responsável”, exposta na “Carta aos brasileiros”. Logo, seria em boa medida graças às diretrizes da Carta, que Lula poderá ser reeleito.
Mas há também muita gente boa que argumenta o contrário: que as conquistas do governo Lula, inclusive no terreno da política econômica, foram obtidas “apesar” dos equívocos, dos exageros e da ortodoxia da política monetária e fiscal, implementada à sombra da tal Carta. Aliás, mesmo antes de Palocci ser demitido do governo, a ortodoxia monetarista já apresentava viés de baixa, como se viu no rechaço sofrido pela proposta de “déficit zero”. A orientação para o segundo mandato é centrada no desenvolvimento com políticas sociais, não no ajuste.
Qualquer que tenha sido a influência (positiva ou negativa) da política econômica, mais exatamente da política monetária e fiscal, é preciso perceber quais os fins de Delfim ao tratar deste assunto. Como tudo indica que Lula vai vencer as eleições, é preciso “interpretar” desde já sua vitória como produto da Carta aos Brasileiros. Lembremos que Delfim está mais para crítico do que para defensor da ortodoxia seguida pelo Banco Central na gestão Meirelles. Até por isso, sua defesa da “Carta” e da autonomia do Banco Central ganha maior credibilidade.
É sintomático que Delfim seja mais violento contra o PT, exatamente quando a “Folha” afirma que “o PT é contra o debate sobre autonomia do BC agora”. Delfim responde assim: “E o que é o PT? O PT é um partido em murcha. O Lula demorou para entender que foi ele que elegeu o PT, e não o PT que o elegeu. O PT só o atrapalhou. Se for reeleito, será pela maioria dos brasileiros. Vai fazer outra vez um governo de coalizão. Não podemos imaginar que o Lula fez o programa do PT. Fez o programa da Carta aos Brasileiros. Os maiores opositores ao Lula estão no PT, que se consideram traídos. Achavam que a Carta era para enganar trouxa. O Lula teve sorte, uma iluminação, quando poupou as finanças do PT. O Palocci não tem nada de PT”.
A violência verbal é compreensível. Para alguns, a autonomia do Banco Central é um “valor” quase universal, quando não é sonante para determinados candidatos. Mais importante do que ela, para Delfim, só o sigilo fiscal, cuja violação é um ato que ele considera “imperdoável”, por motivos que também imagino.
De toda forma, a “análise” de Delfim não sobrevive ao confronto dos fatos. Só acredita sinceramente que “os maiores opositores ao Lula estão no PT” ou que o PT “só atrapalhou”, quem esqueceu ou não viveu o Brasil dos últimos anos, especialmente 2005. E quem não vê o que está acontecendo agora.
Da mesma forma, é óbvio que o segundo governo Lula será de coalizão, como foi o primeiro. A questão é: coalizão de quem com quem, sob que programa e hegemonizada por quem?
Delfim quer que seja por suas idéias. Na entrevista à “Folha”, ele defende que o debate sobre “déficit nominal zero” seja retomado no segundo mandato, bem como a reforma da previdência, a reforma trabalhista e até mesmo a desvinculação orçamentária.
No momento, as idéias de Delfim estão em baixa, tanto no PT quanto na campanha Lula. Mas não devemos facilitar. Afinal, estamos enfrentando um autor de milagres, entre eles fazer muita gente esquecer o desastre que ajudou a promover no Brasil, na época da ditadura. Aliás, falando em "milagre", o ex-ministro Delfim Netto é hoje filiado ao PMDB (pobre doutor Ulysses!!!).
Delfim diz que “boa parte do PMDB apóia Lula” e “vai ajudar a formular um programa para o país”. O gozado é que, segundo ele, este apoio (programático, é claro) vai crescer depois que estiver “definida a eleição”. Em 2002 tivemos um caso parecido: um deputado federal eleito pelo PSDB de Goiás, que virou presidente do Banco Central em nosso governo.
Para esta gente, não há dúvida alguma, o Partido dos Trabalhadores constitui uma pedra no sapato. Seus fins exigem o nosso fim. Mas entre o desejo da direita e a realidade dos fatos, existe uma boa parte do povo brasileiro.

Valter Pomar é secretário de relações internacionais do PT

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