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Artigo

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A seca como rotina dolorosa

Por Adilson Fonseca

Não me causa espanto, apenas tristeza, a seca na Bahia. Independente do número de municípios que oficialmente (e extra oficialmente) estão em situação de emergência, preocupa-me mais a situação estruturante para a convivência do homem com o fenômeno que é perfeitamente compatível com as próprias características do Semi-Árido. O clamor de prefeitos e população, guardando as devidas proporções de períodos, é o mesmo relatado em Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos (1892-1953). E já presenciado em 1877, pelo imperador D. Pedro II em sua visita à Bahia. A seca naquela época durou dois anos (de 1877 – 1879).
 
Em 1984, numa visita à microrregião de Irecê, visitei o município de Jussara e cheguei a me assustar, quando observei que o principal reservatório natural de abastecimento de água da cidade simplesmente estava seco. O prefeito da época, Omar Tarrão, quase que implorava a nós, da reportagem da Tribuna da Bahia, que noticiássemos para o mundo o drama da população. A seca era considerada uma das piores. E nos dias subseqüentes, ao longo da estrada entre Irecê até Xique Xique (BA-052 - Estrada do Feijão), o cenário era quase o mesmo: terra ressequida, mulheres com latas na cabeça, gado morto à beira das estradas vicinais.
 
Posteriormente em dezenas de outras reportagens, o cenário teimou em se repetir, com matizes às vezes mais fortes, em anos e localidades diferentes. Em um desses cenários, na Região do Sisal, famílias de agricultores desesperados perfuravam a tubulação da Adutora do Sisal, que levava água para que as populações dos municípios da região entre Queimadas até Serrinha, para abastecer suas casas e dar água aos animais.
 
Em paralelo ao desespero de milhares de famílias, com o êxodo rural crescente em cidades como Monte Santo, Canudos e Uauá, pipocavam denúncias de desvios de cestas básicas e contratações irregulares de caminhões-pipas. A “indústria da seca” funcionava a todo vapor e gestores públicos aproveitavam-se da situação, antes, durante e pós-períodos eleitorais.
 
Vinte e oito anos depois da primeira reportagem, e depois de ao longo dos anos ter percorrido todo o interior do estado e presenciado as mais desoladoras situações por conta das inúmeras secas, o cenário volta, atingindo até o presente (24), mais de 200 municípios que vivem situação de emergência, envolvendo mais de 2,5 milhões de habitantes. É algo, como dizem os técnicos, inusitado nos últimos 30 anos e que tende a se agravar, a confirmar as previsões meteorológicas que indicam não haver possibilidade de chuvas nos próximos meses capazes de repor os mananciais de água que abastecem a população.
 
Ironicamente, diferente de situações anteriores, o Rio São Francisco não está com baixo volume de água. Ao longo desses 28 anos, já presenciei o São Francisco praticamente seco em alguns trechos na Bahia e no Norte de Minas Gerais. E o Lago da Barragem de Sobradinho (34 bilhões de metros cúbicos de água acumulado) chegar a  11,64% do seu volume útil, em 2003.  Hoje Sobradinho está com 80% do volume de água armazenada. Volume este suficiente para, não chovendo até outubro, quando começa o período chuvoso, chegar com algo em torno de 40% no período chuvoso, como ocorreu no final do ano passado.
 
Mas, e se advir outro período sem chuvas? O que se deveria ter feito lá atrás não dá para recuperar com obras emergenciais. Aí só rezando a Deus.,
 
* Adilson Fonseca é jornalista

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