A ÍNDIA QUE EU VI

Edvalda Bomfim
Há muitos anos venho concentrando minha atenção em lugares que me sirvam de referência ao direito de sonhar com uma viagem, sobretudo interior e inter-religiosa. Fui a Machu Pichu, transitei pelo Caminho de São Tiago de Compostela, estive no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, nas Basílicas de São Francisco de Assis e de Santo Antonio, na Itália, visitei as relíquias arqueológicas do Peloponeso, outrora morada dos deuses e deusas da mitologia grega, entre outros. Mas, o meu grande sonho era, na verdade, ir à Índia – milenar, sagrada.
Após anos de preparação eu fui, vi e voltei, e mais do que nunca estou convencida de que na vida é preciso tomar decisões, ter fé e persistência, que no momento certo aparecem os meios de realização.
Qualquer pessoa que chega à Índia pela primeira vez desembarca no aeroporto internacional de Bombaim (aqui eu e meu filho fizemos uma parada de dois dias para descansar da longa viagem). Pegamos um táxi e nos dirigimos à cidade, em torno de 30 quilômetros até o hotel. O caminho é feio, margeado pela pobreza e pelo caos do trânsito, bicicletas, lambretas, carros, requixá (um carrinho pequeno que parece de brinquedo), carregadores com enormes fardos na cabeça, vacas, macacos e etc. A cada segundo parece que tudo vai se interromper, contudo, há uma espécie de fluidez invisível, os fardos mais pesados passam sem impedimentos, os veículos esbarram-se sem colidir, os carrinhos de mão vão aproveitando as brechas sem machucar ninguém, as vacas seguem o mesmo fluxo, sem serem incomodadas. Enfim o dharma da multidão, assustando e encantando ao mesmo tempo.
Nosso primeiro contato não foi diferente da maioria das pessoas que tiveram a coragem de desafiar a distância, as barreiras lingüísticas, os padrões de racionalidade do mundo ocidental e ir até lá. Dizem que muitas chegaram a Bombaim e fizeram o caminho de volta imediatamente e nunca mais quiseram sequer ouvir falar da Índia. Não foi o nosso caso, felizmente. Embora literalmente impactados, sabíamos que valeria a pena superar o pânico inicial e se deixar levar, sem nenhum roteiro previamente estabelecido, para esta viagem física no tempo. A Índia é sem nenhuma dúvida um país sem outra referência, além dele mesmo.
O grande e poderoso império de outrora está lá, quase imperturbável, integrado ao dia-a-dia. Parece que nenhuma época elimina a anterior. As crenças, os hábitos, as tradições, os odores, a história, os deuses. Enfim, tudo passa a impressão de que sempre foi, é e será assim.
O tráfego por todas as estradas por onde andamos é totalmente desordenado, contudo, não me lembro de ter visto um só acidente. Os motoristas impressionam pela calma, pelo sorriso e pelas ultrapassagens constantes sinalizadas pelas mãos e pelas buzinas. O que nos conduziu nos disse que quando viajamos pelas estradas da Índia precisamos de “good horn, good brakes and good luck” (boa buzina, bons freios e boa sorte). É impressionante como eles fazem uso da buzina!
Os deuses indianos são incalculáveis, falam-se em 333.333, porém, no hinduismo, Brahma, Vishnu e Shiva, são supremos e ao lado deles estão as energias femininas: Lakshmi, Sarasvati, Parvati e Kali; em seguida uma infinidade de divindades, algumas com extrema popularidade, como é o caso de Ganesha. Encontra-se sua imagem tantos nos templos como nos mercados, nas lojas, nos carros e dizem que em todas as casas. Fica perceptível que os indianos, longe de situar a divindade numa transcendência intangível, acolhem a todo momento e em qualquer lugar. Eles fazem da sua vida a própria religião.
Existe muita riqueza arquitetônica e artística na Índia – os palácios dos antigos marajás, os templos, os fortes e as tumbas antigas são verdadeiras maravilhas da arquitetura e da arte oriental. A Índia também orgulha-se de possuir a tumba mais célebre do mundo, o Taj Mahal. Um imperador mongol mandou sepultar ali os restos mortais da esposa de origem persa, que morreu aos 39 anos quando deu à luz ao seu décimo quarto filho. È um monumento realmente indefinível, porque ultrapassa a beleza. Sua harmonia é real e impactante, talvez porque represente uma dos encontros mais célebres do amor, da morte e da arte.
A efígie de Gandhi está em toda parte, pintada ou esculpida. Calçado com sandálias, magro, vestido pobremente e com seus óculos e seu bastão ele está lá, imóvel, transmitindo a sua mensagem de tradição, indianidade, pobreza e, sobretudo, não-violência. Afinal Gandhi é o homem que conquistou a maior democracia do mundo, sem jamais empunhar uma arma. O seu túmulo fica no centro de um belíssimo parque em Delhi, capital da Índia, parada obrigatória dos roteiros turísticos. Para visitar, é preciso enfrentar uma interminável fila de indianos e turistas e, seguir o mesmo ritual dos locais santos – ou seja, ao se chegar faz-se uma ou três voltas no sentido horário e em seguida as reverências. Um indiano nos disse emocionado “this is the India’s father ” (este é o Pai da Índia), reafirmando a sua adoração por este grande ídolo.
Das cidades sagradas da Índia, Varanasi é a mais santa. É uma cidade antiga, lendária, devotada a Shiva e cheia de templos, palácios e mosteiros antigos, margeando o Ganges, para aonde se dirigem milhares de peregrinos, pois, segunda a crença, morrer, ser cremado e ter as cinzas jogadas no rio é se livrar do sansara (roda da vida – nascer e renascer). Para quem visita Varanasi é obrigatório ir para o Ganges, antes do sol nascer, para assistir o ritual de purificação que acontece ali todos os dias. É um momento de extrema beleza e devoção e pode-se notar, em milhares de hindus que ali se encontram, uma coisa que se assemelha a um sentimento de solidão. No imenso rio humano que corre na Índia, em todos os lugares e em todas as direções, esta é talvez a única ocasião em que eles ficam reconduzidos a um processo de profunda comunhão com eles próprios.
Na água deste rio sagrado que percorremos de barco, compramos umas folhas, sobre as quais brilhava uma pequena vela de manteiga que soltamos ao acaso nas águas, as quais deslizaram na direção da correnteza, levando a imagem de nós mesmos, a nossa alegria de estar ali, finalizando a nossa visita a este fascinante país, pois, a Índia seja por atração, por contemplação, pela mais forte das curiosidades ou pelas surpresas a cada piscar de olhos, nos convida a rever a nossa própria história e os nossos valores. Ao terminar este relato percebo que só tenho um desejo – o de voltar o mais cedo possível.
Namastê
Edvalda Bomfim é graduada em História com especialização em Administração de Eventos Públicos e Privados, Cerimonial e Protocolo e pós graduanda em Educação a Distância.
