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Artigo

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PROFISSÃO PERIGO


Ernesto Marques

Não lembro se foi no final de 1991 ou no começo de 1992, quando, voltando de um plantão no Hospital Santo Antônio, onde cobria os últimos momentos de Irmã Dulce pela TV Bahia.
Passávamos pela Avenida da França, no Comércio, por volta do meio-dia, ao final de uma jornada que começara às cinco da “matina”, e vimos carros da polícia entrando, em alta velocidade e com sirenes ligadas, na Avenida Estados Unidos.
Estávamos famintos e um tanto cansados da monotonia dos boletins médicos. Aquelas sirenes soaram como música para os nossos ouvidos. Como toda boa equipe de reportagem, sofríamos daquela atração especial por pautas quentes, de fazer a adrenalina jorrar. Contornamos o Mercado Modelo, paramos ao lado das viaturas e chegamos ao oitavo andar de um daqueles prédios antigos do Comércio, onde funcionava
um posto de pagamento do Loyds Brasileiro. Lá dentro, três assaltantes, marinheiros de primeira viagem, fizeram 26 reféns.
Durante algumas horas, ficamos entre eles e os policiais, todos com os dedos nos gatilhos.
Situações como essas, de certa forma, fazem parte da vida de um repórter – e, verdade seja dita, a gente gosta. Mas, o seqüestro de dois profissionais da TV Globo de São Paulo acende uma luz de alerta para os profissionais de imprensa: não estamos mais na linha de tiro, somos, ao mesmo tempo, munição e escudo humano.
Assaltantes e seqüestradores costumam apelar para os profissionais de imprensa quando lhes convém – e nisso se aproximam de outros, digamos assim, “segmentos”.
Os assaltantes do Loyds, por exemplo, depois de exigirem minha identificação – passei o crachá por baixo da porta de aço -, fizeram uma proposta mais do que recusável: queriam me trocar pelos reféns. Certamente estavam inspirados no exemplo do repórter Francisco José, da Globo Recife, que embarcara numa espécie de “road-movie” jornalístico, numa situação semelhante. Comigo não, violão. Nem tanto por medo, mas por saber exatamente o meu lugar naquela cena, e qual era a minha missão ali.
Repórter, estava ali apenas para reportar os acontecimentos. Admiti, no limite, caso concordassem em se entregar, acompanhá-los no carro da polícia até sua entrada no xadrez, como forma de assegurar sua integridade física. Naquela situação, ainda pude refletir e escolher como agir. Os colegas que passaram horas nas mãos dos bandidos do PCC não tiveram escolha.
Vida dura, essa de profissional de imprensa. Além do conhecido estresse de uma atividade que está sempre lutando contra o relógio, dos riscos naturais de quem trabalha nas ruas, dos perigos inerentes às matérias de denúncias, agora jornalistas e radialistas têm um motivo a mais para refletir sobre a qualidade do seu trabalho.
Se ainda não chegamos ao caos social, caminhamos a passos largos nessa direção, e a crise do sistema prisional, de que se nutre o PCC, é apenas a cabeça de um tumor, com muito pus a jorrar, para o desespero de uns e escárnio de outros.
E nós, jornalistas, o que temos a ver com isso? Tanto quanto qualquer cidadão ou cidadã brasileira e mais um bocado. Estreamos como peças úteis ao crime organizado, mas já somos veteranos nas mãos dos barões da imprensa brasileira, concentrada em pouquíssimas mãos.
As relações promíscuas entre imprensa e poder são antigas, e sempre contaram com maior ou menor grau de adesão ou resistência por parte dos profissionais. A luta diária contra a censura, enfrentada pela geração que estava nas redações no tempo da ditadura, ficou para trás. A evolução da imprensa brasileira, desde a reabertura democrática, parece ter como exigência “de mercado”, virar as costas a conceitos como espírito público, consciência cidadã e responsabilidade profissional, pela informação colhida diretamente na fonte e transformada em notícia.
Sem os milicos a nos acossarem, a liberdade de imprensa, legalmente instituída, convive com o pleno vigor da auto-censura. As leis do mercado, aplicadas ao jornalismo, impõem novos valores e paradigmas. O professor Bernardo Kucinsky, em seu livro “Síndrome da antena parabólica” levanta a hipótese de que o verdadeiro objetivo da censura dos anos de chumbo era extirpar a capacidade crítica dos jornalistas brasileiros, para neles inocular o vírus insidioso da auto-censura. Quase conseguiram.
Nós, profissionais de imprensa, somos um pouco mais responsáveis pelo quadro de injustiça social do que a maioria dos brasileiros. A manipulação grotesca do noticiário nacional e as verdadeiras malvadezas praticadas pelos oligarcas provincianos, como na Bahia ou no Maranhão, em seus jornais e emissoras de rádio e TV, estão a impor novos padrões de conduta a jornalistas e radialistas.
Sejamos honestos: isso só acontece graças à adesão consciente e até feliz de alguns e à omissão da maioria. Festejamos, acriticamente, a globalização. Absorvemos o individualismo da nova moral, imposta em tempos de absoluta supremacia do capital, e incorporamos ao nosso vocabulário até os jargões que fazem parte de um discurso que,
em verdade, não nos pertence e, em última análise, não nos inclui. Desses, o mais abjeto e um dos mais repetidos é “o mercado ficou nervoso”.
Afrouxados individualmente, temos sido incapazes de um mínimo de boa organização coletiva. Nossos sindicatos foram incapazes de barrar o aviltamento da profissão. Nossas federações vivem em eterno fratricídio e não conseguimos sequer explicar para a sociedade brasileira que desejávamos um conselho profissional, entre outras
coisas, para que o jornalismo servisse mais à sociedade do que aos barões da imprensa e seus sócios na política e no mundo dos altos negócios.
Não sejamos ingênuos: a imprensa que derrubou Collor é a mesma que o elegeu. A imprensa que hoje denuncia sanguessugas e mensaleiros é a mesma que conhece, há muito tempo, o balcão de negociatas em que transformaram o parlamento.
Os jornalistas e radialistas brasileiros estão em dívida com o Brasil. Se não somos os donos das empresas de comunicação, somos donos das nossas consciências. Ou não?
Que o seqüestro de dois colegas, na semana passada, nos ajude a refletir sobre o nosso papel na construção do País.

Ernesto Marques é jornalista e diretor da Associação Bahiana de Imprensa

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