SALVADOR POLÊMICA
Reub Celestino
Há três semanas, neste espaço, referi-me aos maus resultados da economia de Salvador, especialmente nos últimos anos, quando houve substancial redução do PIB, já, historicamente, baixo. Por outro lado, o natural crescimento da população elevou o grau de empobrecimento, fazendo de Salvador uma grande cidade miserável.
Esse empobrecimento vem de muito mais tempo, já que a própria economia brasileira, há mais de trinta anos, vem apresentando crescimento econômico vegetativo.
Numa comparação com os últimos 40 ou 50 anos, Salvador é hoje uma cidade pior para se morar. O padrão distribuído de renda é menor, o que oferece menor bem-estar pessoal e coletivo e a cidade tem um conjunto imobiliário e de infra-estrutura urbana certamente de valor relativo inferior ao passado. Ela funciona com mais ineficiência, tem piores relações sociais, menos solidariedade, fracas relações de vizinhança e, até, um padrão comportamental em que, nos costumes, cresceram o deboche, a vulgaridade e o desrespeito.
A cidade “antiga” tinha bairros consolidados, residenciais ou comerciais, só eventualmente misturados para as necessidades básicas de consumo. Tinha bairros pobres e ricos, mas não existiam os “miseráveis”, um foco denominado “alagados”. Favelas eram próprias do Rio de Janeiro e aqui os morros eram livres e naturais.
Atualmente, somos favelizados, cidade apinhada de casinhas de cor de barro, desorganizada e, em termos geográficos, quase que totalmente ocupada. Nas áreas nobres, o crescimento de Salvador não se expandiu, adequadamente, na sua natural direção norte/nordeste, ficando retida e tendo que se verticalizar (será que foi assim, nessa ordem?). É possível que tenha sido porque implantou-se ali, no vetor principal de expansão, há 30 anos, um excelente centro administrativo, com função específica de governo e organização funcional, mas que pode ter prejudicado os caminhos da cidade. Retiradas do centro, onde efetivamente estavam desagregadas, a saída das funções de governo condenaram ao abandono e ao empobrecimento a área histórica em que ficavam, porque lá deixaram de circular o poder, pessoas e renda mais alta. O vetor de crescimento, por outro lado, foi barrado porque as pessoas e os arquitetos não admitiam misturar função administrativa de governo e função residencial.
Retida, sem querer ocupar o seu destino natural, retardou a ocupação da região de Patamares à Paralela e suas influências, criando uma mancha de desvalor, só com início de alteração muitos anos depois. O loteamento Patamares, por exemplo, lançado à época e que seria nobre de ocupação, num belíssimo lugar, ficou rejeitado.
Além disso, à mesma época, foi implantada uma estação rodoviária e um significativo (para a vida urbana da época) shopping center que, juntos, constituíram um nódulo para a logística de funcionamento urbano que hoje, como alguém já disse, se assemelha a uma ampulheta (convergência e divergência). Esse nódulo redirecionou o próprio fluxo de vida da cidade.
Vê-se, com alguns poucos tópicos, que Salvador é uma cidade polêmica. Será que não existiu planejamento urbano adequado, principalmente para enfrentar o espetacular fluxo de crescimento populacional a partir das décadas de 60/70? Será que projetos significativos foram implantados de forma ad hoc, prejudicando um natural crescimento e ordenamento? Será que a cidade (quem é ela?) não entendeu o seu novo crescimento?
Por que, em todo esse tempo, reclamou-se, mas pouco se fez para o ordenamento da orla? Ou, como se fala, atualmente, das orlas? O que ocorreu, ou deixaram ocorrer, com a Península de Itapagipe? Por que a cidade institui a “barraca de praia” como parte do seu imobiliário, do seu visual e do comportamento, mesmo que a maioria não aprove a sua existência?
Temos, agora, uma nova “ordem”. Ordem de pobreza e miséria, ordem de congestionamentos, ordem de especulação, ordem de costumes, de insegurança, de muito desemprego, de pouca produção econômica e baixa circulação de renda. Temos uma ordem de dúbia definição de vocação urbana, de falta de áreas e condições para entretenimento e lazer, de baixo crescimento tecnológico. A “ordem” do segmento comercial está estranha, com iliquidez, dificuldades de caixa, elevadíssima inadimplência, baixa eficiência operacional, pouca função atacadista e de distribuição econômica e, controvertidamente, uma certa avalanche de novos grandes empreendimentos de centros comerciais.
Como uma das possíveis soluções, mas que está sendo considerada problema pelos defensores do atraso, temos um “ataque” de dinheiro internacional querendo se implantar com novos negócios e produção imobiliária em Salvador. A indefinição dos rumos de ordenamento urbano, nos últimos anos, ainda estão sendo revistos e precisam de adequação a esses novos tempos.
Como fez no passado, a cidade não pode repetir o erro de se curvar às idéias de atraso, que evitaram discutir os projetos pontuais que re-definiram funções e dinâmica urbanas, e que, também não ofereceram novas entradas para cada um dos tempos que foram surgindo. Apenas ser contra é política de gueto intelectual.
Salvador carece de uma definição clara e precisa do que quer. O novo PDDU é importantíssimo para isso. A cidade chegou num ponto, numa situação. O que é que se quer como essa cidade? Ela deve crescer por crescer, ou para chegar em algum lugar, compatível com a sua própria base histórica e suas reais potencialidades?
Há alguns anos um antropólogo escreveu (peço desculpas por não lembrar o nome) que Salvador era persona e locus. São atributos de uma cidade forte. Como persona, indica que tem personalidade, tem uma carteira de identidade. Como locus tem funcionamento definido, em local apropriado.
Reub Celestino é economista e secretário municipal da Fazenda de Salvador
