SANTA DULCE DOS POBRES

Cerca de 20 mil pessoas de diversos estados e, inclusive de outros países, integraram o “Êxodo da Fé”, que invadiu Salvador para uma celebração ao Anjo Bom da Bahia, nesta cerimônia de beatificação de Irmã Dulce que constituiu o primeiro passo para o processo que vai culminar com o ingresso de Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, seu nome de batismo, no seleto rol de santos da Igreja Católica. É um momento de glória e orgulho para a cidade-mãe do Brasil, que tem o nome do Salvador, na Bahia de Todos os Santos, onde nasceu Irmã Dulce, em 1914,a primeira santa genuinamente brasileira. Afinal, madre Paulina, canonizada em 2002 pelo então para João Paulo II, o nosso João de Deus, é natural de Trento, no norte da Itália.
Com todo o respeito e estima pela grande obra do mestre Nélson Rodrigues, Irmã Dulce é um dos raríssimos casos onde ouso contestar a máxima rodriguiana segundo a qual “toda unanimidade é burra”. Afinal, sua doação em tempo integral às pessoas mais humildes é incontestável, assim como a perenidade de seu legado do bem. Em entrevista recente, Dom Geraldo Majella Agnelo, cardeal e arcebispo emérito de Salvador, pondera com propriedade que “nós também precisamos de referências, então a vida de um santo, de uma beata, é exemplo para angariar mais pessoas que sejam capazes de fazer o bem e que vale a pena”.
Irmã Dulce não era uma alienígena. Sua constituição física obedece aos mesmos padrões básicos de toda a raça humana, à sua imagem e semelhança. Entretanto, seu diferencial é que ela sentia visceralmente a compaixão e arregaçava as mangas. Afinal, como relata o monsenhor Walter Jorge Pinto Andrade, “ela via no pobre o próprio Cristo”.
Ela sentia verdadeiramente amor por estas pessoas. E, afinal, Deus e Amor são sinônimos. Então, tenho a explicação porque mesmo sem ter ligações ou seguir dogmas de qualquer culto religioso, devido ao meu ceticismo crônico, sinto uma enorme curiosidade e bem estar repentino ao me deparar com as histórias da trajetória em vida e as notícias post mortem sobre Irmã Dulce.
Em um planeta habitado por mais de 6 bilhões de pessoas, estamos de passagem. Já alguns “escolhidos”, seja nos campos da religião, cultura, esporte etc (e Irmã Dulce nem precisaria ser canonizada para integrar este seleto grupo) deixam a vida para ingressar na eternidade. Sempre escutei com muita atenção uma frase que é largamente utilizada por evangélicos e que deve ser creditada a Albert Einstein. “Deus não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos. Fazer ou não fazer algo só depende de nossa vontade e perseverança”. Irmã Dulce, indubitavelmente, fez a diferença.
*Pedro Castro é jornalista (DRT/Ba 1721), assessor do Gabinete do prefeito de Salvador e ex-assessor de Comunicação Social da Organização das Nações Unidas para a Educação,a Ciência e a Cultura (Unesco) na Bahia. ascompedrocastro@gmail.com
