PEREGRINANDO PELA TERRA SANTA

A impressão que se tem de Israel, como um lugar perigoso para se visitar, vai desaparecendo nos primeiros contatos e na percepção de civilidade e segurança que esse pequeno país inspira aos seus visitantes. A área geográfica de Israel corresponde à do estado de Sergipe e conta com uma população de 6 milhões de habitantes. O índice de analfabetismo é zero, possui o maior número de diplomas universitários, artigos científicos e prêmios Nobel per capita; ainda, faz o seu deserto exportar alimentos para todo o mundo. Acompanhados por um guia israelita, falando português, eu, minha filha, genro e netos, peregrinamos por essa terra milenar, rica historicamente e carregada de simbolismo de fé, principalmente para os cristãos por ter sido ali que nasceu, viveu e morreu Jesus Cristo.
A nossa primeira parada foi em Tel–Aviv, uma cidade moderna, com ares europeu, capital financeira do país, considerada a mais cara do Oriente Médio e que tem no mundo a maior concentração de prédios no estilo alemão Bauhaus (pequenos edifìcios em forma de caixas com o teto branco). A antiga Jaffa, com sua história milenar foi incorporada à cidade, como se fosse o seu Centro Histórico. É um local que chama a atenção pela conservação do patrimônio arquitetônico, pela quantidade de prédios com fachadas de pedra com cor uniforme e galerias de arte espalhadas pelas estreitas ruas da antiga vila. Do ponto de vista bíblico Jaffa é citada como o lugar de uma ressurreição realizada por Pedro, quando ali viveu.
O roteiro seguinte nos levou a Haifa, uma bonita cidade construída nas encostas do Monte Carmelo e onde se encontra o túmulo do Profeta Elias. Também ali está um dos mais bonitos templos, com seus lindos jardins, da Fé Bahai. Uma fé que se intitula mundial e que não possui dogmas, rituais ou sacerdócio, tendo sido fundada na Pérsia, hoje Irã, em 1844. O conceito da humanidade como uma única raça e a construção de um civilização global que respeite a unidade na diversidade é a essência da Fé Bahai. Ah! Fomos informados e comprovamos que em Haifa se toma o “melhor suco de laranja do mundo”.
De Haifa passando pela cidade de Acre, capital das Cruzadas, seguimos em direção à Hosh Hanikra, na fronteira com o Libano, para visitar um espetacular conjunto de grutas, criado após milhares de anos de interação entre o mar e a rocha e que tem como único acesso uma longa e íngreme descida de teleférico pelas encostas do mar Mediterrâneo. Continuando, fizemos um pernoite em um confortável Hotel dentro de um kibbuts e no dia seguinte partimos em direção à Galileia uma região de terras e colinas biblícas entre elas o Monte Tabor, local que segundo os Evangelhos ocorreu a transfiguração de Jesus Cristo.
Na Alta Galileia visitamos as Colinas de Golan, cenário da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Com a visita a um dos memoriais e a uma casamata (instalação subterrânea com o teto em forma de abobada onde os soldados se protejem do ataque inimigo) foi possível conhecer de perto resquícios dos horrores dessa guerra. O serviço militar em Israel é obrigatório para ambos os sexos. Jovens adolescentes ainda sem barba e meninas que parecem ainda brincarem de boneca, transitam pelas ruas, restaurantes, shopping centers, museus e etc., com suas fardas esverdeadas portando um enorme fuzil nas costas. É a única imagem que nos faz lembrar que bem próximo dali está a Faixa de Gaza acirrando os ânimos de judeus e palestinos.
Chegamos a Cafarnaum, a cidade de Jesus. As ruínas da casa de Pedro, o pescador da Galileia e a Sinagoga onde Jesus pregava ainda estão lá. A pedra que simboliza a afirmação de Cristo a Pedro: “Sobre esta pedra edificarás a minha Igreja” também. Sabemos que mesmo negando Cristo por três vezes Simão Pedro foi o primeiro Papa da Igreja Católica. Foi em Cafarnaun que para saciar a fome de uma multidão, houve a multiplicação dos peixes e dos pães. No piso do Santuário tem um mosaico com a representação de cinco pães e dois peixes, no lugar exato do milagre. Diante desses registros vivos da história cristã é comum ver-se peregrinos que rezam, choram e saem em silêncio.
Continuando, chegamos a região do Mar Morto a exatamente 421 metros abaixo do nível do mar, o lugar mais baixo do planeta e onde o ar tem 6% a mais de oxigênio do que em qualquer outro lugar do mundo o que segundo informações relaxa o sistema nervoso tornando aquela atmosfera única. A elevada concentração de sal em um mar que não tem vida faz com que a pessoa que se banha na água, flutue e relaxe. Tudo isto e mais a rica arquitetura do complexo hoteleiro, as imensas montanhas de calcário desertícas e coloridas pela luz do sol que margeam as águas do lado israelense e jordaniano dão aquele lugar uma aparência celestial.
A região do Mar Morto também é rica historicamente. Foi ali que foram encontrados os rolos de pergaminhos, documentos escritos por volta III Século a.C em hebraico, aramaico e grego, atribuidos aos essênios e que hoje enriquecem o acervo do belíssimo Templo do Livro em Jerusalém. No Mar Morto se situa ainda as bem conservadas ruínas da fortaleza de Massada, construída pelo Rei Herodes para ser um local seguro de descanso. No topo de uma montanha, acerca de 400 metros acima do deserto, pesquisas arqueológicas trouxe a tona espaçosos palácios, casas de banho, depósitos para armazenamentos de mantimentos e cisternas para reserva de água.
Massada foi ainda cenário de um dos mais dramáticos episódios da História Judaica: o suícidio coletivo de cerca de 1000 judeus, incluindo mulheres e crianças, que viviam rebelados na fortaleza. Percebendo que um contigente do exército romano tinha finalmente conseguido construir uma via de acesso ao monte, para não caírem em suas mãos, cometeram suicídio coletivo. Cada judeu matou a sua familia e os homens mediante sorteio se mataram entre si tendo o último ateado fogo ao próprio corpo. Assim, quando os romanos chegaram ao topo só encontraram os cadáveres. Quem sobrou para contar esta história, narrada posteriormente pelo historiador Josephus foram duas mulheres e cinco crianças que se esconderam em um cisterna.
Finalizando nosso roteiro, chegamos à linda Jerusalém, a cidade sagrada para árabes, judeus e cristãos. Capital de Israel, um museu a céu aberto com seus tesouros espirituais e históricos. Um verdadeiro mosaico de manifestações religiosas cultuadas em sinagogas, igrejas e mesquitas. A cidade velha, cercada de altos muros é patrimônio da humanidade e seus enormes portões acolhem levas de peregrinos que ali chegam movidos pela fé e para contemplar a Via Dolorosa, a Igreja do Santo Sepulcro, o Muro das Lamentações, a Grande Mesquita, e outros tantos lugares sagrados. A impressão que fica é que esta parte de Jerusalém está carregada de santificações e da energia do sobrenatural.
O mundo possui uma infinidade de lugares bonitos que fascinam e encantam, mas ao meu ver, Jerusalém é única. É um cenário que combina beleza, esperitualidade, fé e história com profundas emoções. Após a visita ao Museu do Holocausto com sua arquitetura e seu projeto museológico de vanguarda perpetuando à memória de milhões de judeus assassinados pelos nazistas, inclusive crianças, fizemos o caminho de volta ao Brasil, com parte da minha alma peregrina transformada.
Shalom.
