SAGRADA CAATINGA

De vela na mão, extrema-unção encaminhada, sineiro à caminho da capela para o repicar do toque fúnebre, além de solidários "contadores de causos" em marcha para a sentinela pré-anunciada, está morrendo a caatinga, vitimada por buscadores de pão da vida e quadrilhas composta por insaciáveis predadores de desejos sem fim.
Este é o estado físico de quem sempre resistiu às adversidades e castigos severos, impostos pela natureza, sempre regrando água e atiçando as chamas de inclemente sol, quais labaredas ardentes de inferno satânico. Com abrangência em áreas de todo Nordeste, mais parte do norte mineiro e pequeno canto capixaba, a bem-aventurada que abriga o sertanejo e acolhe milhares de espécies vegetal e animal, além de exclusiva no planeta, está fadada ao extermínio. É nela; aliás, foi nela, quando ainda preservada, que em suas entranhas os vaqueiros encourados campeavam os "pé duros" raquíticos e ariscos, e os trovadores caatigueiros esculpiam verdadeiras preciosidades literárias, narrando uma realidade encantadora e apaixonante, de fazer matar de saudades os que saiam à busca das riquezas do sul portentoso e frio, porém desprovido de encantos e sonhos.
Inconformados com a anunciada "triste partida", daquela que sempre rebrotava, bastando o sopro de brisa úmida, eis que filhos daquela arte divina se agrupam e, de mãos dadas, bradam: "Não vá minha mãe!" Filhos outros, sem e com juizo, em uma sequência infinita, só permanecerão vivos e outros nascerão se você permanecer firme, resoluta, do seu jeito próprio: morrendo a cada seca e ressuscitando a cada "zágua". "Nós vamos te salvar."
Que bom estas mãos estarem unidas. Anteriormente, elas eram estendidas exclusivamente para a mata Atlântica e selva Amazônica. Agora, já acenam para estas paragens tão exploradas e esquecidas. Talvéz tarde, mas ainda resta um fio de esperança. É bom saber que o Ministério do Meio Ambiente volta suas atenções para nossas bandas, visando salvar os derradeiros mandacarus, juazeiros, umbuzeiros, caatinga de porco, jurema, unha de gato, aroeira, baraúnas e espécies outras a cada dia serrados e cortados para o abastecimento das siderúrgicas, olarias, padarias e indústrias outras.
É oportuno que, mesmo tardiamente, tal aconteça e a caatinga venha a se constituir patrimonio da União. Quando efetivamente tal acontecer e as três esferas governamentais chamarem para si a verdadeira proteção, calango, lagartixa, tatu, preá, sapo, rã, rolinha, cardeal, baia, jararaca, coral e outros bichos farão uma festa de cantos, sussuros e coaxados, até o bendito sol nascer. Daí em diante, caatigueiro voltará a ter mato, uma vez protegidos dos exterminadores contumazes, desprovidos do sentimento da proteção da vida, ou mesmo dos que buscam o pão do sobreviver.
*Gilberto Brito é delegado de Polícia e ex-deputado estadual
