POR QUE O VLT É MELHOR PARA SALVADOR?
Estamos diante de um desafio fundamental para o futuro de Salvador e a qualidade de vida de seus habitantes: precisamos decidir sobre o melhor sistema de transportes urbanos a ser implantado na cidade para atender às demandas de aumento do fluxo de passageiros provocada pela Copa 2014; e, simultaneamente, resolver os graves problemas de mobilidade urbana que vivemos neste momento e que serão ampliados nas próximas décadas.
Agora é o momento que devemos debruçar sobre o modelo de mobilidade da cidade buscando a cidade sustentável. A questão é mais complexa do que o debate entre BRT ou VLT. O mais importante não é a tecnologia, mas o sistema de transportes que queremos, como estabelecer uma rede integrada, plural, que utilize diversos modais . A questão não é o projeto, mas o que está por trás dos projetos.
Em todos os lugares do mundo, a promoção de eventos esportivos da dimensão da Copa do Mundo de Futebol é rara oportunidade de investimentos, que podem ajudar cidades-sede a criarem condições para a melhoria da qualidade de vida da sua população. O volume de recursos disponíveis para obras de infra-estrutura urbana cresce de modo exponencial nesses momentos. Por isto todos dizem que a Copa é uma janela de oportunidades, única, que dificilmente se repetirá nos anos seguintes.
Mas para a Copa tornar-se janela de oportunidades para todos é preciso que os projetos a serem aprovados sejam estruturantes em todos os sentidos, projetos que trazem soluções definitivas, de longo prazo. No caso do sistema de transportes, devido à grande soma de recursos necessários para a criação de vias e estações de transbordo, a decisão tem que ser a melhor, pois não temos o direito de errar e nem desperdiçar a oportunidade.
Os sistemas viários determinam os modos de ocupação do solo. A maior concentração de renda e serviços da cidade do Salvador está na região do Iguatemi, Pituba e Orla, que são bem servidos pela infra-estrutura viária/urbana. Os bolsões de pobreza constituem a maior parte da população da cidade - uma cidade à margem de muitos benefícios daquela em que vivem os bens aquinhoados.
O que está em disputa não é apenas saber se é BRT ou VLT. Acredito não restar dúvida que o sistema ferroviário, transporte sobre trilhos, é a melhor opção. Mas saber isto é só o começo. A questão é como gerir as transformações na direção da cidade sustentável.
O lobby que as empresas de ônibus fazem em prol do BRT, inclusive financiando publicações, visa nos oferecer mais do mesmo. O VLT pode representar não apenas mudança na paisagem, quem sabe aproximando Salvador da imagem da tradicional cidade de bondes como foi até há algumas décadas.
Os veículos leves sobre trilhos para transporte em massa de passageiros são muito mais baratos que os metrôs e tem muitas vantagens em comparação ao sistema de ônibus sobre rodas.
Tal como está sendo vendido o BRT é o velho e conhecido ônibus, transporte sobre rodas, com algumas melhorias. Os maiores interessados nesta solução, naturalmente, são os donos das empresas de ônibus. É preciso que os demais interesses da cidade sejam postos na mesa e feita uma avaliação adequada de como vamos gerir todo o sistema, de modo a garantir investimentos nos lugares certos.
Os recursos disponibilizados pelo BNDES e outras fontes públicas devem ser partilhados para resolver os graves problemas de infraestrura da cidade.
O projeto de nação baseado na indústria automobilística, que levou à falência as nossas ferrovias, é quem estrutura o capitalismo brasileiro nos últimos sessenta anos. A indústria automobilística no Brasil tem centralidade na economia do país. Mobiliza milhões de pessoas e alimenta diversos segmentos de produção e serviços e gigantesca e poderosa cadeia produtiva que começa no petróleo e nos pólos petroquímicos. O Pólo tem como principal cliente os fabricantes de acessórios de automóveis e outros automotores: emborrachados de teto, de porta, volante, painel, etc dos veículos. Os automóveis são embalados como objetos do desejo da população no horário nobre da tevê comercial. Mas o transporte individual não é o melhor transporte nas metrópoles. É preciso tirar os carros das ruas.
Devemos investir, sim, em biciletas, em condições propícias para deslocamentos a pé, para veículos leves sobre trilhos, trens, bondes e ônibus. O conceito de mobilidade urbana requer levar em conta os cidadãos que caminham (25% da população), que fazem deslocamentos a pé pela cidade e todos os que necessitam de um bom transporte público.
Os sistemas de transportes urbanos baseados em veículos leves sobre trilhos funcionam em muitas cidades do mundo na Europa, Ásia e América e estão sendo implantados em várias capitais e cidades brasileiras. Sistemas de veículos leves sobre trilhos estão sendo construídos, neste momento, por exemplo, em Brasília, Recife, Fortaleza, Natal e Maceió. Mas a questão é como estes sistemas são implantados de modo a beneficair toda a cidade e não apenas aos empresários de ônibus.
O momento requer compreensão metropolitana. A cidade não pode ser pensada mais isoladamente. Estamos, por isto mesmo, articulando um fórum da região metropolitana, já temos sessão especial marcada para debater um plano de ação. Exercer a política em benefício de medidas adequadas para que o transporte público seja indutor de desenvolvimento humano.
Queremos o transporte sobre trilhos como estruturante do sistema de mobilidade da cidade. Os ônibus são complementares. Concluir o metrô (e punir os culpados pela situação atual ) até Pirajá, transformar o trem do subúrbio; investir em 150 Km de ciclovias, criar um sistema cicloviário e estimular outros comportamentos na relações das pessoas com a cidade.
Os transportes sobre trilhos compõem os sistemas estruturantes nas principais cidades do mundo. Os ônibus são alimentadores deste sistema. Infelizmente, em Salvador, o metrô virou piada. Ou criamos alternativas corretas agora ou esta piada se prolongará por muitos e muitos anos.
Os veículos leves sobre trilhos, como o próprio nome diz, são leves o que reduz o consumo de energia e o desgaste das vias; favorecem a maior acessibilidade - esta fica facilitada por pisos baixos e rampas de acesso para pessoas em cadeiras de rodas. Não poluem e não fazem barulho, são mais rápidos do que os ônibus e, numa emergência, são mais fáceis de evacuar do que outros meios de transporte metropolitano.
Em comparação ao sistema que está sendo defendido pelos empresários de ônibus, portanto, o VLT apresenta as vantagens de ter baixo impacto ambiental; independer de combustíveis fósseis para funcionar; produzir menor quantidade de barulho; funcionar de forma integrada com metrô, ônibus e trem, bicicletas e deslocamentos a pé.
A única vantagem alardeada pelos defensores do BRT é que o seu custo de implantação é menor do que o VLT e o tempo de construção da infra-estrutura seria menor. É verdade que o custo de implantação do BRT é menor. Porém, este sistema não tem vida útil tão longa quanto a vida útil do VLT. Se implantarmos o BRT agora, daqui a alguns anos teremos que fazer novos investimentos vultuosos para adequá-lo às necessidades do crescimento da cidade. Enquanto a implantação do VLT é modular, progressiva, contínua e definitiva.
Quanto ao tempo de implantação da infra-estrutura é preciso concentrar esforços e competências para fazer a coisa certa em tempo hábil. A Copa será momento privilegiado de exposição da cidade para o mundo. Intensificar o debate, esclarecer todas as dúvidas, ouvir os estudiosos do assunto, fazer a concertação da sociedade soteropolitana e não apenas das elites e tomar a decisão acertada sobre o que é melhor para Salvador e a sua população.
* Gilmar Santiago (PT), vereador de Salvador, presidente da Comissão de Planejamento Urbano e Meio Ambiente da Câmara Municipal
