LACERDISMO, DOENÇA SENIL DO TUCANISMO

Valter Pomar
A Folha de S. Paulo, supostamente porta-voz da ala progressista do tucanato, publicou dois artigos criticando a reeleição de Lula.
Um dos artigos é assinado por Otávio Frias Filho, um dos proprietários da Folha. Intitulado “Anistia para Lula”, o artigo diz ser “evidente que a decisão do eleitor será soberana (...) Mas se o veredicto for esse [a eleição de Lula], dispensando o segundo turno, a afoiteza do eleitor terá prejudicado a qualidade democrática desta eleição”.
E por qual motivo o eleitor estaria sendo “afoito”? Porque, segundo Frias, a eleição no primeiro turno impede o debate programático, que “só existe (...) no segundo turno”.
Ao contrário do que diz Frias, o “debate programático” vem acontecendo há muitos anos e se acentuou durante o governo Lula. A Folha sempre teve lado neste debate, o lado dos tucanos. Já a maioria do povo brasileiro está, hoje, do outro lado.
Frias e a maioria dos colunistas políticos não se conformam com isto e apelam para a desqualificação do povo, do voto e dos motivos que explicam o apoio da maioria do eleitorado para Lula.
Frias reconhece que “a população mais carente tem boas razões para estar satisfeita”. É exatamente a partir desta experiência, mas também da experiência dos últimos 26 anos (pelo menos), que o povo brasileiro vem participando e tomando partido no debate programático sobre os rumos do país.
É claro que, para o diretor de redação da Folha, a experiência vivida pelo povo, a partir do qual vem formando sua opinião política, está longe do rigor exigido de um “debate programático”. É por razões semelhantes que Marco Antonio Rocha, colunista de O Estado de S. Paulo, afirmou que “até agora, e até onde é do conhecimento do
comum dos mortais, não ficou nada clara qual é, de fato, a diferença entre os principais candidatos a presidente da República”.
Não ficou clara para quem, cara pálida?
A impressão que passa é que Rocha e Frias, como estão perdendo a eleição e também o debate programático, começam a apelar para uma espécie de autismo intelectual: “Lula não apresentou seu programa até agora”, “nenhum dos presidenciáveis têm programa”, “todos os programas são iguais”.
Frias chega a dizer que Lula, “no governo, traiu quase todas as idéias-feitas que pregava nas duas décadas anteriores”. Suponhamos que isto fosse verdade e que Lula estaria parodiando o FHC do “esqueçam o que eu escrevi”. Por qual motivo, então, toda a direita, o grande capital e os grandes meios de comunicação apoiaram a reeleição de FHC, enquanto hoje estão na sua esmagadora maioria contra a reeleição de Lula?
É evidente que, por mais que possam ter havido modificações (e elas ocorreram) nas posições de Lula e do PT, isso não alterou as posições básicas (de classe, políticas, ideológicas) que ambos ocupam na sociedade brasileira, em contraposição a partidos como o PSDB e PFL.
O preocupante, na argumentação de Frias, é que a lógica de seus argumentos o conduz para o golpismo. Vejamos o que ele diz: a “reeleição do atual presidente, se de fato ocorrer”, terá um “significado sinistro”, pois “a mais alta corte do país, o próprio
povo, terá anistiado o escândalo do mensalão”.
O cenário pós-vitória de Lula é resumido assim por Frias: “um presidente macunaímico, que se orgulha da própria falta de estudo, seria reconduzido sem trauma nem esforço. O partido que lhe serviu de alavanca, o PT, pode não sair destroçado das urnas, mas será um fantasma do que já foi. Políticos sem doutrina, a maioria, farão fila para apoiar um chefe de governo novamente forte”. Neste contexto, Frias acredita que a proposta de Constituinte para fazer uma reforma política poderia resultar na prorrogação do mandato de Lula, no direito a uma nova reeleição e – palavras de Frias— na determinação de que só poderiam concorrer candidatos “progressistas”.
Trata-se de algo tão delirante, que Frias mesmo reconhece que “estamos longe de ver essas fantasias se concretizarem. Mas não custa alertar”.
Outro que resolveu “alertar os incautos” é Augusto de Franco, que foi
coordenador-geral do Primeiro Congresso do PT (1991) e depois virou tucano de carteirinha.
Segundo este senhor, em artigo igualmente publicado na Folha de S. Paulo de 24 de agosto, “se a reeleição vier, ela (...) será o passo inicial para uma tentativa de mudança autoritária das regras do jogo político (...) as bases de uma hegemonia neo-populista de longa duração no país”. Mais: “se consagrado pelas urnas com votação
expressiva, Lula e sua tropa atropelarão aliados, adversários e instituições, falando diretamente para as massas”.
Entretanto, diz Augusto de Franco, para que se possa consumar a “mudança autoritária das regras do jogo”, “algumas coisas extraordinárias’ deverão acontecer”: “a descoberta de corrupção em larga escala nos Parlamentos e as ações terroristas praticadas pelo PCC”, fatos “que deverão ser ‘produzidos’ para causar uma certa
comoção na opinião pública, manipulando-a para levá-la a aceitar a adoção daquelas medidas regressivas capazes de permitir a implantação da fórmula lulista”.
Leiam novamente: este senhor acusa o PT de conspiração. A nós interessaria “produzir” as ações do PCC e inclusive a “descoberta” de corrupção em larga escala nos Parlamentos, para assim desmoralizar as instituições e implantar o medo na sociedade!!!
Augusto encerra seu artigo dizendo que “a despeito do fato de essa fórmula já estar sendo parcialmente implementada, transformando 2006 em uma ante-sala de 2010 (...) é claro que ela pode não dar certo, sobretudo se encontrar resistência. Mas a insistência em aplicá-la levará o Brasil a uma crise institucional sem precedentes”.
Para bom entendedor, meia-palavra basta: tanto Frias quanto Franco estão apresentando argumentos que, se forem tomados a sério, justificariam o golpismo contra Lula. Afinal, seria um governo que conspira contra a democracia.
Para os que acham que esta conclusão é exagerada, lembro das recentes declarações de FHC, que lamentou não existir no Brasil de hoje alguém como Carlos Lacerda, "com capacidade de dramatizar e cobrar", "alguém que dê nome aos bois e arrisque".
Vamos atender ao pedido de FHC e dar nome aos bois: Carlos Lacerda foi um golpista. Aliás, sua trajetória lembra em parte a de Fernando Henrique: ambos foram de esquerda, passaram para a direita e tornaram-se golpistas. A diferença é que FHC, até agora pelo menos, só fala. Lacerda agia. Ajudou a dar o golpe contra Vargas, em 1954; trabalhou pelo golpe contra JK, em 1955; e ajudou a dar o golpe contra Jango,
em 1964.
Quem quiser conhecer em detalhes a biografia de Carlos Lacerda, vá ao endereço http://www.cpdoc.fgv.br/dhbb/verbetes_htm/2684_1.asp.
Lacerda era muito conhecido por suas frases de efeito. Em 1955, disse na televisão que "Juscelino não será candidato; se for candidato, não será eleito; se for eleito, não tomará posse; se tomar posse, não governará". A UDN, partido de Lacerda, tentou impugnar a vitória de JK nas eleições de 1955, usando como argumento que Juscelino recebera o voto dos comunistas.
Por “coincidência”, já há tucanos e pefelistas importantes questionando a legitimidade da vitória de Lula, utilizando como argumento qualquer coisa: sua ausência no debate da Bandeirantes, denúncias de corrupção e até mesmo seu apoio nos setores populares, que seria produto de “ações populistas” de governo.
FHC e Frias se deixam trair pelas palavras. O primeiro confessou que está buscando alguém que “arrisque” uma atitude golpista. O segundo diz que a reeleição de Lula seria “sinistra”, palavra que em italiano quer dizer exatamente “esquerda”.
Este é o problema da direita brasileira: sua alma golpista não se conforma que a esquerda governe o Brasil. Muito menos que consolide uma “hegemonia de longa duração”.
É exatamente isto que está em jogo, não apenas na reeleição de Lula, mas, principalmente, no curso do segundo mandato: a constituição das bases institucionais, sociais, econômicas, políticas e culturais de uma hegemonia democrática e popular de longa duração. Que passa pela disputa dos chamados “setores médios” e pela constituição de uma “opinião pública” de esquerda.
Um pedaço da direita brasileira acredita que uma derrota em 2006, especialmente se acontecer já no primeiro turno, pode ser a ante-sala de uma nova derrota em 2010. Daí a tentação e a retórica golpista. Com o perdão da blague, ainda “estamos longe de ver essas fantasias se concretizarem. Mas não custa alertar”.
Valter Pomar é secretário de Relações Internacionais do PT
