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Artigo

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DESASTRE ANUNCIADO

Trabalhei nas duas melhores companhias de Telecomunicações do Brasil entre 1970 e 1983, Telepar e Telebahia. Participei da consolidação das mesmas e aprendi como se projeta, instala e principalmente se mantém um sistema de Telecomunicações. Acompanhei a privatização do sistema Telebrás  em 1994 e vi como a Telebahia, até então orgulho do povo da Bahia, se partiu em duas companhias: Telemar, hoje Oi, e Telebahia Celular, hoje Vivo.

Acompanhei as mudanças ocorridas na Oi. Enquanto as linhas telefônicas se tornavam acessíveis às classes menos favorecidas, a qualidade do serviço oferecido caia vertiginosamente, fruto de uma política unicamente com fins lucrativos, onde os princípios da boa engenharia foram se tornando cada vez mais coisa do passado, chegando ao ponto da empresa declarar que não necessitava de engenheiros e sim de gestores. Um convênio de 25 anos de duração com a escola Politécnica foi rompido, pois engenheiros não eram mais necessários. Assisti a demissão de seus melhores quadros e acompanhei o declínio acentuado dos serviços de manutenção substituídos por uma propagando enganosa e tirando o máximo proveito da falta de concorrência no setor de telefonia fixa na Bahia.

Hoje todas as suas estações estão em estado deplorável de conservação, sua assistência técnica está totalmente terceirizada, sua rede fixa completamente sem controle. A Oi, que atende do Rio de Janeiro até Roraima, pratica preços diferenciados por seus serviços a depender da região, chegando a cobrar até quatro vezes mais pelo mesmo serviço, evidentemente praticando o menor preço onde existe concorrência.  A central do Itaigara, onde ocorreu o sinistro há algumas semanas, abrigava alem das 25 mil linhas fixas, serviços de internet e multimídia que atendiam o interior do Estado, além dos estados de Sergipe e Alagoas.
Na época da Telebrás existiam alarmes de rede, comutação, rádio e energia, além de uma central de telesupervisão que a tudo controlava, com pessoal presente 24 horas por dia. Parece que tudo isto ou não mais existe ou nada funcionou na ocasião do sinistro.

Como isto foi possível? Onde estavam os responsáveis técnicos? Será que não mais existem? Quem, assim como eu, trabalha com Telecomunicações, não consegue entender tamanho desleixo. Como concentrar tudo em um único lugar e não se precaver?

A única resposta para todas estas questões é a certeza que a Oi não tem clientes e sim reféns, por isto pratica a antiengenharia, como diz sua propaganda “simples assim”. Um desastre era esperado, mas não na magnitude do que ocorreu, o que pelo menos tornou público a falta de planejamento de manutenção da companhia e seu despreparo no trato de seus reféns.

Espero que os processos envolvendo danos materiais, que com certeza virão, a faça retornar às origens e voltar a praticar engenharia de boa qualidade. Mais respeito com os assinantes é o que toda a Bahia espera. Desejamos voltar a ser clientes e não reféns.

* Roberto da Costa e Silva é professor-doutor engenheiro eletricista - Conselheiro federal do Confea e do Sindicato dos Engenheiros da Bahia

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