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Artigo

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BALLET DO TCA


Ana Vitória

Para se pensar a dança no século XXI é preciso refazer seu percurso histórico, pois, muito mais rápida que o teatro e mesmo a música, em razão de sua essência experimental, a dança avança a galopes seu processo evolutivo. Talvez um dos fatores mais importantes desse processo seja o fato polêmico de a dança não conseguir se definir ou mesmo estar formatada em nenhuma espécie de escritura, partitura ou modelo. Ela sempre foi a manifestação mais vanguardista de todas as épocas!
Quando pensamos nas principais culturas do mundo, modelos de investimento artístico e educacional, lembramos dos países que nos ensinaram a ouvir música de boa qualidade, ver pinturas e esculturas que reformataram nosso olhar, ler histórias que enriqueceram nosso vocabulário e admirar a poética do corpo humano desafiando a si e à gravidade.
A Rússia, a França, a Itália e a Alemanha nos ensinaram que a arte é uma forma de construir-se identidade, fortalecer o indivíduo, preservar a história e a memória de um povo.
Para o Brasil, conquistar esse status quo talvez seja um dos raríssimos passos de crescimento e amadurecimento histórico-sócio-cultural. E esse processo só acontece lentamente. É preciso muita política conjugada a artistas corajosos e dispostos a garantir o espaço das artes na sociedade. É preciso ética, trabalho, responsabilidade e, sobretudo, talento para se chegar a um resultado onde a reflexão e o pensamento crítico estejam assegurados. E aqui está, também, um dos papéis fundamentais da arte: garantir a nossa liberdade de expressão.
Os teatros, museus, bibliotecas, salas de concertos, centros culturais, cinemas são os espaços que fomentam nosso pensamento evolutivo. Eles não existiriam sem suas orquestras, corpos de baile, pensadores, pesquisadores e produtores das artes que fazem desses espaços seus laboratórios e devolvem à sociedade seus resultados.
Quando se pensa em destruir tais patrimônios, se pensa em destruir nossa história, nossa memória e conseqüentemente comprometer nosso futuro.
O Ballet do Teatro Castro Alves (BTCA) é a prova de uma resistência cultural, assim como os são os candomblés. Quem poderia destruí-los e por quê? Hoje conhecemos o que é gestão, seu poder corrosivo ou replicador. O BTCA passou alguns tantos anos de ditadura, e é verdade, quase acabou. Mas, nem essa força minguante corroeu totalmente nosso patrimônio, porém o enfraqueceu, o envelheceu e o tornou uma engrenagem pesada demais para se adaptar aos novos caminhos das artes contemporâneas.
O que o BTCA precisa hoje é tornar-se leve, rápido, exato, consistente e cheio de visibilidade, tomando prerrogativas mais assertivas para esse milênio, propostas por um artista visionário e apaixonado por todas as formas de arte: Ítalo Calvino.
Acabar com mais uma instituição de resistência cultural desse país é caminhar para trás em um terreno já árido e minado de conquistas fracassadas. É querer que a burrice, a preguiça, o esquecimento, o embrutecimento e a covardia imperem.
O que é fundamental é trabalhar para conquistar mais autonomia, mais espaços criativos e mais verbas para que outros, espelhados neste exemplo, queiram se estabelecer como interlocutores da nossa cultura. Não é destruindo um patrimônio que se constrói uma história.

Ana Vitória é coreógrafa, bailarina e diretora artística da Cia. Ana Vitória Dança Contemporânea. Graduada em Dança pela UFBA e Mestre pela UGF/RJ.

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