CAMPANHA E COMPROMISSO DO JORNALISTA COM A VERDADE

Uma verdadeira pérola o início da matéria de capa da Revista Veja desta semana. “...políticos e jornalistas correrão às bancas mais próximas para ver se será esta a edição de VEJA que vai abalar a liderança de Dilma Rousseff nas pesquisas eleitorais”, transcrevendo matéria da Reuters. A matéria trata de uma suposta ingerência que o secretário nacional de Justiça, Pedro Abramovay, estaria sofrendo para "fabricar" dossiês.
É muita arrogância e soberba para um início de matéria, onde VEJA se atribui a importância de derrubar a candidatura de Dilma à Presidência. Não é minha intenção minimizar a importância de Veja, mas o conteúdo ou a falta dele da dita matéria não significará abalos na campanha presidncial. Campanha esta, diga-se de passagem, que não está definida. Ao contrário das informações que culminaram com a quada da ex-ministra da Casa Civil, Erenice guerra, acusada de denúncias gravíssimas.
Sinceramente, no modelo de imprensa vigente no sistema capitalista, acho natural que os veículos de comunicação tenham suas tendências editoriais. O modelo ideal e totalmente isento de injunções nas redações é o realizado pela BBC de Londres, um canal público que é custeado pelos assinantes e cuja total insenção e imparcialidade é garantida pelo Conselho da BBC, controlado por representantes da sociedade civil organizada que garantem um jornalismo totalmente independente.
Este, a meu ver, é o modelo ideal, mas utópico. Entretanto, no modelo vigente, é possível e imprescindível ter ética para exercer o bom jornalismo. Compromisso com a verdade; a garantia do direito de defesa do personagem focado na matéria. Estas premissas inerentes à profissão de jornalista e na condução de um veículo de comunicação são os alicerces para o patrimônio maior de qualquer veículo ou profissional de comunicação: A CREDIBILIDADE. Pois, infelizmente, uma da revistas de maior circulação do país já se afastou deste norte há muito tempo. Uma das ilações mais descabidas a meu ver foi uma matéria onde a Veja “informava” que o PT apoiava as ações das FARCs. No corpo do texto, somente suposições.
Pois bem. Não sou vidente e não tenho nenhum palpite sobre as próximas pesquisas. Elas, na verdade, são muito importantes para detectarmos e analisarmos tendências. Por exemplo, no início do segundo turno, ocorreu um curto-circuito na coordenação de campanha da Dilma. O PT simplesmente não trabalhava com a hipótese do segundo turno e a pancada foi forte, deixando a equipe da candidata num momento de torpor. Houve reflexo nas primeiras pesquisas do segundo turno, algumas chegando ao empate técnico. Mas o coordenador do marketing de Dilma é nada menos do que o baiano João Santana. Na minha opinião, o melhor marketeiro político da atualidade no Brasil.Foram realizados os ajustes e Dilma, segundo as pesquisas, está com mais de dez pontos à frente de Serra.
Estes números podem ser alterados, mas Dilma não perderá nem meio ponto percentual nas pesquisas devido à última capa da Veja. Simplesmente, porque a matéria é fraca, sem substância e seu “gancho” é mais do que morno. Não empolga.
Já fui apresentado a Pedro Abramovay, e numa ocasião, em Brasília, tive a oportunidade de conversar longamente com ele. A impressão que tive foi de um rapaz extremamente talentoso e articulado. Não é por acaso que com apenas 30 anos de idade ele se tornou secretário nacional de Justiça. Recebi uma carta dele acerca das “denúncias” de Veja.
Eis: “nego peremptoriamente ter recebido, de qualquer autoridade da República, em qualquer circunstância, pedido para confeccionar, elaborar ou auxiliar na confecção de supostos dossiês partidários. Não participei de supostos grupos de inteligência em nenhuma campanha eleitoral. Nunca, em minha vida, tive que me esconder.
A revista Veja, na edição número 2.188 de 2010, afirma ter obtido o áudio de uma gravação clandestina entre mim e um ex-colega de trabalho. Infelizmente a revista se recusou a fornecer o conteúdo da suposta conversa ou mesmo a íntegra de sua transcrição.
Dediquei os últimos oito de meus 30 anos a contribuir para a construção de um Brasil mais livre, justo e solidário, e tenho muito orgulho de tudo o que faço e de tudo o que fiz. Trabalhei no Ministério da Justiça como Assessor Especial, Secretário de Assuntos Legislativos e Secretário Nacional de Justiça, conseguindo de meus pares respeito decorrente de meu trabalho.
Apesar de ver meu nome exposto desta forma, não foi abalada minha fé na capacidade de transformação de nosso país e tampouco na crença da importância fundamental de uma imprensa livre para o fortalecimento de nossa democracia”. Pedro Vieira Abramovay- Secretário Nacional de Justiça”.
* Pedro Castro é jornalista (DRT-Ba 1721) e atualmente ocupa o cargo de assessor de imprensa do prefeito João Henrique, ex-assessor de comunicação social da Unesco na Bahia
