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Artigo

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JOSÉ COELHO


Fernando Dourado

Num mar de doutores, ele era o único que nós, os jovens, podíamos tratar apenas de senhor. Não sei se foi por passar incólume ao largo da mofada tradição bacharelesca pernambucana, mas esse traço de pronto me inspirou simpatia e curiosidade.
Há poucos dias eu e Luiz Eduardo, seu caçula, falávamos dele. Eu já não o via há uns dez anos, mas o carinho nunca mudou. Estávamos em Recife, confraternizando em torno de uma copiosa mesa de casquinhos de caranguejo, quando nos ocorreu que poderíamos encomendar-lhe uma bandeja. Luiz a levaria em mãos para Petrolina. Pensamento similar já nos ocorrera na véspera, quando nos esbaldávamos com seus sorvetes de fruta favoritos. Por que refreamos o ímpeto de lhe providenciar alguns de seus quitutes preferidos? A saúde, amigos. Pois, desde o carnaval passado, desde o dia em que ele circulara de casa em casa entoando marchinhas ao som de sua charanga e, ao despertar, fora colhido por um derrame, bem, ali parece ter começado a contagem regressiva da passagem de seu José por esta vida.
Conheci-o há mais ou menos um quarto de século. Naquela época, o regime militar brasileiro vivia os estertores e a globalização era apenas um estado de espírito carente de palavra ou de nitidez. Mas, ele estava lá, na rodoviária, na manhã escaldante em que cheguei a Petrolina pela primeira vez: o homem brando que fumava Continental sem filtro; que madrugava no domicílio de sua venerada mãe, sua voz encorpada ecoando pelo corredor; que não perdia por nada o Jornal Nacional; e que ora destilava um humor afiado, ora deitava um olhar benevolente sobre os jovens amigos. Dia desses comentava esse traço com o hoje ministro Geddel Vieira Lima: a fidalguia sem afetação que emanava de seu José; sua índole bonachona e desarmada.
E, por trás de tudo, havia o interlocutor de fôlego que crescia na boa prosa, o cosmopolita de raízes que amava o mundo.
Pois bem, foi na fria manhã de hoje, quando São Paulo por fim experimentou seu primeiro dia outonal, que eu recebi, desolado, o telefonema de Luiz dando conta de que Zé Coelho resolveu deixar fonoaudiólogas e fisioterapeutas falando para as paredes e viajou. Cá entre nós, não o culpo.
E em meio à lágrima inevitável, logo me veio um sorriso. Na minha memória ficarão as passagens dele pela cidade onde vivo: o pequeno hotel a que se manteria fiel por anos; as sessões de aconselhamento que me dispensou; os relatos sobre Santa Catarina; seu entusiasmo com as exportações de couro e mel; a dor abissal que o acometeu quando da morte do irmão Nilo e sua voz ecoando no Incor: "Não vou tomar calmante nenhum, doutor. Enquanto eu estiver chorando, eu estou bem". Portanto, façamos hoje como ele.
Já seus amigos da velha guarda terão reação diversa. E, ao vê-lo chegar, entoarão: "Ô jardineira por que estás tão triste...".
Boa viagem, amigo.

Fernando Dourado é pernambucano, presidente da Merken e consultor de empresas em São Paulo.

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