TRABALHADOR RODOVIÁRIO ACREDITA É EM ÔNIBUS

Temos acompanhado, nas últimas semanas, a discussão sobre planos e projetos da Prefeitura para melhorar a qualidade do Sistema de Transporte Coletivo de Salvador. E acompanhado é o termo correto porque, até agora, em nenhum momento, os rodoviários baianos foram chamados para participar de um debate que lhes diga respeito diretamente, na condição de serem mão-de-obra dominante do principal modelo de transporte em vigor, o ônibus.
Aliás, foi exatamente isso o que aconteceu, há pouco mais de 20 anos, quando se ouviu falar pela primeira vez da necessidade de um transporte de massa para Salvador, um tal de Bonde Moderno – nada mais nada menos que o chamado Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que morreu melancolicamente antes mesmo de nascer. Talvez pela mania provinciana de querer sempre imitar o sul do país, à época vivendo o modismo do metrô, nem se cogitou investir em ônibus maiores e modernos, que já era sucesso em Curitiba desde os anos 1970, com a vantagem de preservar os empregos da massa trabalhadora rodoviária.
O tempo passou, o metrô de Salvador se mostrou uma piada (o lado sério é que muita gente ficou rica à custa desse projeto fantasioso), o VLT está completamente desacreditado no mundo como transporte de massa e o atual modelo de transporte da cidade está superado. Volta-se à discussão de duas décadas atrás: qual o melhor modelo de transporte público de massa para Salvador?
Ao trabalhador rodoviário não interessa se o empresário considera este ou aquele modal a melhor solução. Patrão é patrão e sempre vai legislar em causa própria. Ou alguém duvida de que os atuais empresários de ônibus serão os futuros empresários de VLT? Tanto é que não fomos chamados a opinar. Para a categoria trabalhadora só importa um aspecto: a certeza de que qualquer transporte sobre trilhos é uma ameaça real ao seu emprego. Afinal, como se sabe, metrôs e similares empregam muito menos trabalhadores exigindo ainda maior qualificação, dando preferência a engenheiros.
Fala-se na solução BRT (Bus Rapid Transit) nome em inglês para um ônibus de alta capacidade, uma espécie de metrô sobre pneus, do tipo usado pioneiramente em Curitiba e hoje adotado por cidades pelo mundo afora. Se a tecnologia, a mão-de-obra exigida e os veículos são genuinamente nacionais, por que se pensar em um modelo que implique na importação de know-how e equipamentos? A quem interessa pagar pelo uso de uma patente estrangeira quando o similar brasileiro é muito mais adequado às nossas necessidades?
A Cidade de Bogotá, na Colômbia, tem o mérito de ter aperfeiçoado o sistema desenvolvido no Brasil que além de exportar o know-how do BRT exporta também os ônibus genuinamente brasileiros, cujos fabricantes estão entre os melhores do mundo, tanto no desenho quanto no desempenho. A bilhetagem eletrônica aqui do Brasil tem sido exemplo para o mundo. Somado a isto o uso da informática embarcada nos controles operacionais, na informação aos usuários e na segurança pública passaram a ser usados em larga escala no nosso País. Tudo isso são empregos gerados no Brasil, tanto na indústria quanto na prestação de serviços e, principalmente, na mão de obra operacional rodoviária.
Os rodoviários baianos precisam ficar de olhos e ouvidos bem abertos. Não estamos interessados na queda-de-braço entre governo e prefeitura, nem sensibilizados pelo choro de crocodilo dos empresários (eles sempre vão achar um jeito de ficar cada vez mais ricos). O que nos interessa é o futuro dos nossos postos de trabalho, que vêm diminuindo a cada ano. Temos o direito de ser chamados a participar do debate sobre o que é melhor para a cidade e não apenas como parte da sociedade civil organizada, mas, principalmente, como representantes da força de trabalho diretamente afetada com qualquer que seja o sistema de transporte coletivo. Não queremos ser atropelados por mais um trem fantasma, desses que, de vez em quando, jogam no meio da Cidade do Salvador e que só serve mesmo para os empreiteiros, os banqueiros, os fabricantes estrangeiros e os políticos que os apadrinham.
J. Carlos - deputado estadual (PT)
