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Artigo

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QUE SAUDADES DA PITUBA

Entro no meu edifício e recebo um conselho do porteiro: “Seu André, cuidado, atenção redobrada, os caras estão assaltando a qualquer hora do dia ou da noite”. E aí, detalha o que soube e o que viu da violência que assusta dia a dia os moradores da Pituba.

A violência transformou-se em um tenebroso fantasma, onipresente, algo que verdadeiramente aterroriza os chamados pitubenses. Só na nossa família e com os amigos, aconteceram ocorrências dessa ordem (ou desordem): minha mãe foi vítima da famosa saidinha bancária, meu irmão foi assaltado quando chegava em casa, minha sogra chegou a ser arrastada por um motoqueiro (sic) assaltante porque tentou arrancar sua bolsa. Washington, um querido colega recebeu um tiro quando falava ao telefone com a esposa contando-lhe uma vitória profissional. A mãe de outro amigo, o Luzbel, se mudou para Santaluz, região sisaleira, desiludida, e cansada após ser vítima de sete assaltos na Pituba.

Policiais mortos, estudantes vítimas da violência, homens e mulheres cada vez mais apreensivos e temerosos de que a qualquer momento chegue a sua vez...É esta a Pituba de hoje, dominada pelo medo e pela insegurança.

A violência da qual o bairro e, enfim, toda a cidade é vítima não tem sido tratada como prioridade. Não culpo a polícia. A instituição também está no rol da falta de atenção, assim como a segurança do cidadão,que deveria se transformar na principal tarefa de qualquer administração, mas não tem sido assim ao longo dos anos. O que se tem  visto e sentido é o incontrolável crescimento da insegurança na Pituba e uma evidente falta de mecanismos eficientes para combater a bandidagem, que tem no tráfico de drogas uma das suas principais raízes.

Não sou especialista em segurança pública nem tampouco sou estudioso do assunto. Sou, apenas, um cidadão aflito, angustiado, um pai de família temeroso, que anda assustado e triste com tudo isso. Não quero aqui apresentar fórmulas mágicas ou mesmo criticar por criticar. O que peço, exercendo a cidadania e a liberdade de expressão, é prioridade, nada mais do que prioridade para este tema. É o poder público, sim, que tem o dever e os mecanismos necessários – ou pode tê-los – para fazer com que o bem vire o jogo e vença o mal.

A Pituba não pode mais viver assim, aterrorizada, com seus moradores aprisionados pelo medo, o bairro grita e pede socorro. É o mesmo bairro que no passado não muito distante era palco de veranistas ávidos pelas praias como a do Salva-Vidas, onde se instalou o único “ladrão” que conhecíamos e chamava-se Medrado. 

Explico: Lourival Medrado era representante da empresa Tigre e aos sábados, domingos e feriados, transformava-se em barraqueiro, oferecendo siri, carangueijo, lambreta e outras iguarias. Os clientes, na sua maioria, eram os mesmos amigos de sempre que reclamavam dos seus preços, da sua caderneta cor preta de anotações. Como “sofria” o saudoso barraqueiro, sempre chamado de “Medrado ladrão”! Depois, ele foi socorrido nas contas pela doce Waldete, sua esposa, figura inesquecível.

Na verdade, o que Medrado “roubava” mesmo era o nosso carinho e a nossa amizade: um homem de bem, um grande amigo.
Medrado era um pitubense de verdade. Defendia e investia no bairro. Como ele, existam figuras emblemáticas como o ex-prefeito Clériston Andrade, o ex-governador Lomanto Júnior, Haroldo Lima, Geraldo Belford, o padre Miguel, meu pai, o velho José Curvello, dr. Burô, e tantos outros nomes que me fogem a memória.

Quando se aproximava a Festa da Pituba, os moradores se mobilizavam, tinha a comissão organizadora, a alvorada com direito a fogos de artifício e trio elétrico, a novena, a movimentação na Praça Nossa Senhora da Luz e o seu Jaime, sempre solícito e paciente no atendimento às cortesias para dar acesso aos brinquedos do seu tradicional parque. Andávamos livremente sem saber o que era violência e insegurança.

Eu cheguei à Pituba aos três anos, a rua Amazonas ainda era de barro. Eram jogados  disputados “babas” no campo de Calu, na Cocheira da fazenda de Sr. Juventino Silva, fundador do bairro, no Clube Português e no Sírio Libanês. Mais tarde, o asfalto chegou e nós garotos criados na rua o transformamos em campo de futebol.

Foi na Pituba que me contaram, aos quatro anos de idade, da morte da minha avó Alice. Foi lá na casa situada entre as ruas Amazonas e Rio Grande do Sul, que aprendi a ouvir Elizeth Cardoso, Silvio Caldos e Altemar Dutra. Foi lá, na varanda de piso vermelho que sentava com meu pai para memoráveis carangueijadas. Também comemoramos o primeiro título brasileiro do Flamengo e o mundial interclubes.

O progresso é  inevitável e com ele chegam benefícios e malefícios. Passados mais de 40 anos, sinto que estamos perdendo a luta contra o mal porque estamos cada vez mais impotentes e enfraquecidos, chegando mesmo a perder , por momentos, a capacidade de se indignar. Mas, não. Em nome do passado edificante da nossa Pituba e pelo futuro dos nossos filhos, não podemos perder essa capacidade de se indignar ou mesmo de lembrarmos a cada instante que somos cidadãos, que vivemos num país democrático e que temos que lutar pelos nossos direitos. E um deles é o de viver em paz e em segurança. Que nos devolvam a tranquilidade.

*André Curvello é secretário municipal de Comunicação, jornalista e morador da Pituba

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