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Artigo

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FORÇA E LÁGRIMAS RUBRO-NEGRAS

Era dezembro de 2001 e meu pai estava internado no Hospital São Rafael, ala de oncologia, já tendo recebido o diagnóstico de um câncer que àquela altura ele não sabia da força da sua agressividade e, que meses depois, no dia 29 de março, plena sexta-feira santa, viria a vencê-lo definitivamente. 

No entanto, o câncer não teve força suficiente para impedir a força do velho José Curvello: “quero ir para casa assistir ao jogo do Flamengo”. Os médicos negaram o pedido, mas o jogo foi transmitido em canal aberto e meu pai pode assisti-lo no hospital. No final, vitória rubro-negra que selou a permanência do time na primeira divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Alívio e felicidade para o paciente fanático.

Exatamente oito anos depois, o Flamengo se consagra de novo, conquistando o hexacampeonato, e percebo, mais do que nunca, a força do desejo do meu pai sobre o leito de um hospital. É a mesma força que move uma nação predestinada e acostumada com o sofrimento. Na opinião do consagrado escritor Fernando Moraes, a paixão pelo time tem origem no sofrimento porque a história do Flamengo começou com raça e sofrimento.

Mais uma vez vi meu time ser campeão em pleno Maracanã. Em 1979, tricampeonato carioca e tentaram roubar meu pai na saída do estádio. Em 1983, fui um dos mais de 150 mil rubro-negros que comemoraram a vitória contra o Santos: tricampeão brasileiro ao lado de meu pai e irmãos. Em 87, três horas de chuva e eu sozinho comemorava o título contra o Internacional, o último de Zico. Em 1992, novamente eu sozinho para ver Junior comandar o penta contra o Botafogo.

Naquele ano, presenciei a menos de cinco metros, a queda do parapeito da arquibancada que por muita sorte não causou uma tragédia de proporções incalculáveis. Deus é Flamengo.
6 de dezembro. Eu comemorei muito, abracei muita gente desconhecida, apertei a mão de outras tantas em uma irmandade e cumplicidade motivada pelas cores da camisa. O sol estava implacável acompanhado de um calor cruel, mas nada com força suficiente para vencer a alegria de estar no Maracanã para ver o Flamengo jogar e melhor: ver o Mengo campeão.  É claro que o Rio ficou mais alegre, acho até que pelo menos por alguns instantes, acabaram as disputas entre os morros.

Ser Flamengo é algo incrível. É uma nação que movimenta um país. Quando saia do Maracanã, pela rampa em direção da estátua do Belini, percebi na multidão a emoção de um torcedor ao meu lado. Ele estava com o filhinho e era de Manaus: “Já posso morrer em paz, pois vi o Flamengo ser campeão no Maracanã”. No meio daquela confusão, consegui conversar com o amazonense e mais tarde com gente dos mais diversos pontos do Brasil. O Rio de Janeiro foi invadido pelo Brasil. O Rio de Janeiro foi invadido por uma paixão chamada Flamengo.

Dezessete anos depois, comemorei mais um título brasileiro no Maracanã. Desta vez, não estava sozinho como nas duas vezes anteriores. Estava com Tonho, um amigo de infância que se tornou da família, Rafa, um sobrinho mais do que do coração e afilhado, meus irmãos José e Edgard – o caçula Marcos não pode ir -, e meus dois filhos: Caio e André, este com 17, às vésperas de completar 18 anos. 

Faltou meu pai? Não, de modo algum, ele estava sentado na arquibancada, ao lado de todos nós, gritando, xingando, cantando, exercendo o maravilhoso direito de se rubro-negro.  Humildemente, eu dedico o título a meu pai e aos seus netos.

Minha adorada mulher sempre briga comigo quando repito João Bosco: “Flamengo, muito mais que um time, uma religião”. Sei lá, não vou entrar nesta polêmica porque aprendi que não se deve discutir temas como política, futebol e religião, mas não posso deixar de ressaltar que o manto sagrado rubro-negro é capaz de unir um país e que Deus é de fato torcedor do Flamengo porque somente ele poderia me dar a alegria de estar no Maracanã ao lado dos meus filhos, abraçá-los em cada gol e “sofrer” com a lágrima de Caio no momento da santa cabeçada de Angelim que resultou na virada, aliás, no hexa. Lágrimas de campeão.

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