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Marca Bahia Notícias
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Artigo

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UM DIA DE SOL

Era um dia de sol. Estava sem camisa. Calça jeans sustentada por um barbante, sem cinto. Sapato sem meia, que eu havia ganhado de uma amiga. À minha frente, o escrivão. Dia de Conceição da Praia. Festa da Conceição.

Da janela da Polícia Federal, pertinho do Mercado Modelo, podia ver o burburinho das pessoas, a festança nas barracas. Podia sentir o cheiro do mar. Volta e meia desviava a atenção para tudo isso. Para a vida lá fora.

O escrivão me interrogava. E eu respondia. Econômico. Consciente de que em cada pergunta havia uma armadilha. Ditadura quer sempre informações. Quer prender outros.

Não gostou do meu cheiro. Disse que eu devia ter tomado banho. Eu desdenhei disso. Como? Banho no Quartel do Barbalho? É, disse ele. Não devia ter vindo assim, sem banho. Certamente eu fedia, embora eu próprio não sentisse. Ora, sim senhor, murmurei, sem que ele pudesse ouvir. Ou não quisesse. Que não disse nada. 

Como é que podia me dar a um luxo desses numa cela onde todas as nossas necessidades – e tome-lhe eufemismos – eram feitas numa lata de 20 litros, que nós próprios, os presos políticos, éramos obrigados a carregar para fora e esvaziar sob os olhares atentos de metralhadoras?

Era dia de sol. 8 de dezembro de 1970. Estou me lembrando disso neste dia, festa de Conceição, exatos 39 anos depois. O escrivão, de quem não me lembro nome e nem me interessei em saber, nem era dos mais ferozes.

Tarefa dele era tomar meu depoimento. Para mim, era um instante novo. Saíra de um período duro, de recuperação dos dias de tortura, e agora estava sendo legalizado, prestando depoimento na Polícia Federal.

Era o momento, este, em que o prisioneiro político se tornava real, ganhava corporeidade, existência. Até ali eu não existia. Ou só existia nos muros. Meus companheiros de Ação Popular, temendo por minha vida, encheram Salvador de pichações pedindo “Liberdade para Emiliano”.

A minha existência era a dos muros. O depoimento, para o escrivão, era a confirmação da prisão, o início do inquérito pela Polícia Federal. Confesso que, naquele dia, era um homem feliz. Estranho dizer isso, não? Mas era sim.  Até ali, havia sido correto com meus companheiros e companheiras de jornada. Digno da confiança que eles haviam depositado em mim. E agora podia respirar aliviado, mais ou menos seguro que a tortura não voltaria. Como não voltou.

Olhava pela janela, e gostava do que via. Muita vida, vida à vontade lá fora. E eu pensava na vida com alegria, uma serena alegria. É também estranho dizer isso, não? Mas era o meu sentimento. 

O escrivão perguntava e eu respondia. Atento a todas as armadilhas. Pelas minhas palavras ninguém cairia. Não o conseguiram na tortura. Menos ainda num depoimento. Eu pensava assim. Sem nenhum orgulho. Que ali não era lugar pra isso. Era apenas a serenidade de ter assumido as responsabilidades que me estavam confiadas.

De repente, ele parou e me disse com muita tranquilidade e quase com desalento, "é, nós vamos deixá-lo alguns anos preso, um quadro como você demora tempo para ser formado, nós não vamos soltá-lo rapidamente para trabalhar novamente contra nós".

Não senti nada diante da afirmação do escrivão. Naquele momento, naquele dia de sol, no dia em que minha prisão se legalizava, pouco se me dava quantos anos eu ficaria preso. Afinal, na luta contra a ditadura, não desconhecíamos os riscos. Um deles, se preso, era ficar um bom tempo atrás das grades. Fiquei quase quatro anos.  

Depois do depoimento, camburão. O mesmo que me trouxera. Pelas frestas, vi os pés da multidão em festa. Descalços ou calçados. Segui para o Barbalho. Jogado novamente à solidão de minha cela. Em paz comigo mesmo.

Certo de que havia um longo caminho pela frente na prisão. Não era, no entanto, um homem triste. Serenamente, encarava os fatos. Sabia que um dia nós veríamos o fim da ditadura. Vimos.

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