PARA QUE SERVEM OS NÚMEROS?

Paulo Souto
Em setembro, ao ver os resultados da pesquisa nacional por amostra de domicílios, PNAD, confesso que tive uma mistura contraditória de sentimentos, como contentamento e insatisfação. Contentamento por perceber que as políticas públicas implantadas ao longo das ultima duas décadas na Bahia tiveram um claro reflexo positivo na melhoria dos dados sociais apurados pela pesquisa do IBGE. Insatisfação por constatar que, comparativamente as regiões mais desenvolvidas do país, a Bahia e o Nordeste ainda apresentam dados sociais insuficientes para qualquer tipo de comemoração.
Tenho aproveitado para estudar estes números nos últimos meses, procurando, com minha experiência, compreender melhor os gargalos no processo de melhoria dos nossos índices. Índices, que, apesar de evoluírem mais rapidamente que no resto do Nordeste, ainda não cresceram da forma desejada e necessária para nosso estado se tornar socialmente mais justo.
Porém, na segunda-feira, 2 de novembro, tomei um choque ao ler o artigo do Governador Jaques Wagner comemorando os dados do PNAD. Tentando, inclusive, apreender para si resultados que nada têm a ver com as políticas implementadas no seu governo. Um artigo que, além de comemorar índices comparativamente frágeis, apresenta dados incorretos e conclusões, se não falsas, pelo menos precipitadas.
Como estou familiarizado com os dados do PNAD, o que me chamou atenção no conteúdo do artigo do Governador Jaques Wagner foi mais a inconsistência dos números apresentados do que a idéia central, que me pareceu uma tentativa de auto-convencimento das qualidades da sua gestão diante dos fracos resultados apresentados. E, mesmo assim, sem o apuro técnico devido para a palavra oficial.
Fico realmente chocado como um Governador assina um artigo recheado de erros numéricos e manipulação de dados. Por exemplo, em educação ele afirma que houve uma redução de 20,7% no analfabetismo em pessoas com 15 anos ou mais de idade nos últimos dois anos. Vamos aos números: A tabela 3.1 do estudo mostra que em 2006 a Bahia tinha 1.862.000 pessoas não-alfabetizadas. Em 2008, depois de 2 anos de gestão, eram 1.848.000, com uma redução de apenas 14.173 pessoas. Dados que não servem absolutamente para comemorar.
A taxa de analfabetismo que era de 18,57% para esta população, caiu para 17,30%, em exatos 1,27 pontos, uma diminuição de 6,85%, muito distante dos 20,7% apresentados erroneamente no artigo. Em termos absolutos e comparativos, este Governo tirou 14.173 pessoas do analfabetismo em dois anos, contra 160.429 do governo anterior, que obteve uma média superior a 40.000 anuais. Repito, está tudo no PNAD, na tabela 3.1 de educação.
Mas não para por ai. Para mostrar a pouca eficácia do programa de alfabetização de adultos deste Governo, o total de analfabetos acima de 40 anos aumentou entre 2006 e 2008 em 60.990 pessoas, de 1.365.779 para 1.426.769. Ao contrário do que afirma o Governador, o TOPA se mostra um programa ainda sem resultados.
Os dados sociais da Bahia, como disse antes, vêm melhorando fortemente ao longo do tempo, graças ao esforço e trabalho dos baianos, em todos os níveis de governança: federal, estadual e municipal. É preciso humildade para reconhecer isso.
Todos os dados apresentados como resultados seus no artigo do Governador já apresentavam significativas melhorias há duas décadas, seja de trabalho, consumo, saneamento, moradia ou educação. Ele não acrescenta nada a rotina de melhoria que a Bahia apresenta há 20 anos, ao contrário, a velocidade parece diminuir, perdendo para Pernambuco e Ceará o protagonismo no Nordeste.
Diferentemente do que diz o artigo, que reafirma, com arrogância, um discurso político refundador de uma Bahia destruída que não existe - e que os baianos que amam sua terra repudiam - a situação se mostra preocupante, dando sinais claros de estagnação econômica, desordem e letargia administrativa e redução de conquistas sociais. Epidemias de dengue e surtos de meningite, escolas sem professores, empresas saindo da Bahia e poucas chegando, gastos descontrolados, aumento da violência, são alguns destes sinais.
Infelizmente os dados estatísticos não servem, neste Governo, para correção de rumos e ajustes, como recomenda a boa prática administrativa. Ao contrário, se prestam a manipulações, em discursos políticos vazios de resultados, que, distantes da verdade como na propaganda oficial, talvez justifiquem a decepção dos baianos com a atual gestão.
* Paulo Souto, presidente regional do DEM e ex-governador da Bahia.
