HUGO CHÁVEZ É A NEGAÇÃO DO MERCOSUL

ACM Jr.
Nos últimos dias, um assunto praticamente monopolizou as atenções do Senado: a eventual entrada da Venezuela no Mercosul. Poderia ou não a Venezuela integrar, desde agora, o Mercosul? A discussão deve avaliar que benefícios o país trará ao bloco econômico e ao Brasil. Não podemos olhar as coisas unicamente pelo aspecto de política na América do Sul. Fala-se no fortalecimento do Mercosul com a entrada da Venezuela. Ora, que benefício traria para o bloco a figura personalista e pseudonacionalista do presidente Hugo Chávez? Nenhum, a menos que tornar ainda mais agudas as diversidades e as contradições do Mercosul possa ser considerada uma vantagem.
O Mercosul já é uma entidade que vem apresentando problemas sérios de existência. Vamos trazer para o Mercosul um país dirigido por um presidente que tem um viés pseudonacionalista e que vai ter poder de veto sobre qualquer decisão que venha a ser tomada. Nós sabemos dos interesses e das intenções de Hugo Chávez. Não podemos nos enganar com isso. Os que defendem a entrada da Venezuela argumentam que os interesses daquele país devem estar acima da conjuntura política venezuelana. Esse argumento, de tão falho, sequer deveria ser considerado, posto que despreza solenemente a cláusula democrática para ingresso no Mercosul.
Na verdade, a Venezuela no Mercosul será passaporte para que o presidente venezuelano venha a utilizar o bloco em seu proselitismo na sua tentativa de exportar suas idéias e práticas antidemocratas – isso tem de ficar claro. Quem defende o regime venezuelano de Hugo Chávez tem de entender que, na verdade, a prática antidemocrática é permanente, com fechamento de órgãos de comunicação, estatização de empresas privadas, perseguição sistemática aos opositores, interferência indevida nas relações com outros países e muito mais. E isso pode contaminar, sem dúvida nenhuma, o Mercosul com a entrada da Venezuela neste momento.
Dizem que a presença da Venezuela no Mercosul beneficiaria empresas brasileiras. Ainda que se trate de um argumento legítimo, seria isso mesmo? É possível, sim, que a entrada da Venezuela traga benefícios econômicos, especialmente ao Brasil. Afinal, desde 2007, somos o segundo parceiro deles, atrás, apenas dos Estados Unidos, ironicamente, o maior parceiro comercial da Venezuela. Mas, eu pergunto: podemos considerar confiáveis marcos regulatórios e institucionais que tenham como fiador o presidente venezuelano? Evidentemente que não!
O fato é que a Venezuela pretende integrar o Mercosul por razões diferentes das que motivam aqueles que defendem seu ingresso. Aqueles brasileiros que defendem o ingresso querem olhar o lado comercial, ter uma expansão dos negócios com a Venezuela. Porém, não é bem assim. Os países, os políticos, os empresários – a maioria dos que defendem a entrada da Venezuela no Mercosul – vêem, nesse ingresso, uma oportunidade de fortalecimento econômico do Bloco e, é claro, das economias que o integram.
Já a Venezuela, entenda-se o presidente Hugo Chaves, vê no Mercosul a oportunidade de ampliar a sua influência política na América do Sul. Este é o verdadeiro objetivo dele. Nós, então, temos que tomar cuidado. Sem salvaguardas é uma temeridade a entrada da Venezuela, neste momento, no Mercosul. Ignorar que é econômica a motivação entre a Venezuela no Mercosul e que é política a motivação daquele país integrar o Mercosul não é ingenuidade. É má fé. O chavismo é a negação do Mercosul.
Nós, então, temos que ter cuidado. Vamos, exaustivamente, discutir este assunto. Nós temos que ser responsáveis porque um movimento errado nesta área pode, sem dúvida, levar a amargarmos problemas sérios, inclusive de emperramento do Mercosul, à medida em que Hugo Cháves tiver poder de veto.
* Antonio Carlos Magalhães Junior, professor, empresário e senador da República pelo DEM.
