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Jabuti não sobe em árvore

Por Ernesto Marques

Foto: Divulgação

A expressão é comum nos corredores em que jornalistas, assessores e políticos movimentam os chamados bastidores. Refere-se a algum acontecimento estranho, consumdo por causa da ação deliberada de quem prefere o anonimato. Claro! Se aparece um jabuti no alto de uma árvore, é porque alguém o colocou lá em cima, sabe-se lá qual a razão. Mas é fato: jabuti não sobe em árvore.

 

Tão estranha quanto a presença de um jabuti no alto de uma árvore, é a existência de um almoxarifado no sexto andar de um velho edifício comercial, desprovido de elevador de cargas. Jabuti não sobe em árvore...

 

Se você não me acredita, compreendo a incredulidade natural! Sua dúvida não me ofende, muito pelo contrário! Pague pra ver e visite o 6º andar do Edifício Ranulfo Oliveira, na esquina da Rua Gudes de Brito com a Praça da Sé, no coração do nosso Centro Histórico de Salvador. Estamos falando do edifício-sede da tradicionalíssima e quase centenária Associação Bahiana de Imprensa. Vá pensando no adágio como enigma a ser decifrado: jabuti não sobre em árvore...

 

Assim como jabuti prefere a segurança do chão, almoxarifados não combinam com lugares altos. Mas algum gênio da logística municipal decidiu zombar da gravidade (da situação, na da Lei de Newton), afrontar a boa técnica e colocar um jabutizão no 6º andar. A gestão do prefeito Bruno Reis, ex-deputado estadual decidiu vilipendiar a história política da Bahia e transformar o espaço que foi o plenário da Assembleia Legislativa em depósito de inservíveis. Lixo. Inorgânico, mas lixo. Jabuti não sobre em árvore...

 

O Ranulfo Oliveira é uma joia da arquitetura de Salvador, destaque do enclave modernista encravado na vastidão do nosso conjunto barroco, patrimônio da humanidade. Foi projetado, entre outros, por Hélio Duarte, um dos responsáveis pela Avenida Paralela. Diógenes Rebouças, o arquiteto da Escola Parque e da Avenida Contorno, cuidou da adaptação do espaço projetado como auditório para receber o plenário da Assembleia Legislativa que lá funcionou até a mudança definitiva para o Centro Administrativo.

 

A “negociação” - explicar estas aspas demandaria muitas linhas, mas fica a ressalva como registro de ironia indignada... A “negociação” entre a Prefeitura, inquilina, e a Associação Bahiana de Imprensa, dona do prédio, nega a mais conhecida máxima de Octávio Mangabeira. É um absurdo sem precedente  sequer nos capítulos da história política baiana que beiram o realismo fantástico. E, pra retomar o fio da meada, jabuti não sobre em árvore...

 

*Ernesto Marques é jornalista

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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