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Lula aos 81 anos: estresse, saúde mental e mais quatro anos na Presidência

Por Walter Viterbo da Silva Neto

Foto: Acervo pessoal

Em 25 de outubro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República. Dois dias depois, completou 81 anos. Ao fim do quarto mandato, terá 85. Em agosto de 2025, o próprio Lula afirmou que uma nova candidatura dependeria de estar bem física e mentalmente. [1, 2]

 

Como médico dedicado há mais de três décadas ao tratamento da dor e ao manejo do estresse, vejo nessa decisão uma oportunidade de discutir algo que vai além da política: quais são os benefícios e os possíveis riscos de assumir grandes responsabilidades numa fase tão avançada da vida?

 

Nem todo estresse adoece
No meu livro Semear Sempre, explico que o estresse não é necessariamente prejudicial. Existe uma resposta positiva aos desafios, tradicionalmente chamada de eustresse, capaz de estimular a motivação, a concentração e o desempenho. Mas o próprio eustresse pode se transformar em distresse quando o desafio inicialmente estimulante se prolonga, se intensifica ou deixa de ser acompanhado de descanso e recuperação suficientes. Nessas circunstâncias, aquilo que antes nos impulsionava pode se tornar fonte de desgaste físico e emocional.

 

Essa transformação não é automática: também importam as condições individuais, a percepção de controle e os recursos de adaptação. Os termos eustresse e distresse são úteis para explicar o fenômeno, embora sua delimitação seja debatida na literatura. [3]

 

A medicina utiliza o conceito de carga alostática para descrever o desgaste associado à ativação repetida dos sistemas de resposta ao estresse. Quando há sobrecarga persistente e recuperação insuficiente, podem ocorrer repercussões sobre o sono, o equilíbrio emocional e a saúde cardiovascular. [4]

 

Governar um país envolve decisões complexas, viagens, crises e pressões constantes: condições potencialmente estressantes para qualquer pessoa. Isso, por si só, não demonstra adoecimento.

 

O sono: um aliado da saúde mental
Quando as responsabilidades aumentam, o descanso frequentemente perde espaço. Uma metanálise de 154 estudos, publicada em 2024, identificou redução das emoções positivas e aumento dos sintomas de ansiedade após a perda de sono. Os participantes tinham entre 7 e 79 anos, predominantemente adultos jovens; portanto, os resultados não podem ser aplicados diretamente a pessoas acima dos 80. [5]

 

Na minha prática clínica, observo frequentemente como dor, sono e estresse se influenciam. Uma noite mal dormida pode aumentar a sensibilidade à dor; a dor persistente pode prejudicar o sono; e o estresse pode intensificar ambos. Essa relação é bem documentada na literatura médica. [6]

 

Por isso, considero o descanso parte essencial do cuidado com a saúde, especialmente para quem está submetido a grandes responsabilidades.

 

O benefício psicológico de continuar
Trabalhar não significa apenas cumprir tarefas. Para muitas pessoas, representa identidade, pertencimento e propósito. Estudos observacionais associam maior senso de propósito a desfechos cognitivos mais favoráveis em idosos, sem demonstrar que permanecer em um cargo de grande pressão proteja necessariamente a saúde mental. [7]

 

A aposentadoria pode representar liberdade e satisfação para alguns, mas também perda de identidade para outros. Não conhecemos as motivações íntimas de Lula: atribuir sua decisão a vaidade ou apego ao poder seria especulação, assim como garantir que continuar na Presidência lhe fará bem.

 

O que a medicina pode afirmar
Aos 81 anos, a idade isoladamente não define capacidade física ou cognitiva. O envelhecimento, porém, pode reduzir a reserva fisiológica e modificar a recuperação diante de doenças e situações exigentes. Esse é um dado populacional, não um julgamento sobre uma pessoa específica.

 

O histórico médico divulgado de Lula inclui cirurgia para drenagem de hematoma intracraniano em dezembro de 2024, após uma queda. Boletins posteriores relataram evolução favorável. Esses acontecimentos não autorizam concluir que exista comprometimento cognitivo, transtorno psiquiátrico ou incapacidade. [8]

 

A Organização Mundial da Saúde, por meio do programa ICOPE, propõe acompanhar cognição, mobilidade, vitalidade, saúde psicológica e outras dimensões da capacidade funcional no envelhecimento. Para quem exerce funções de grande responsabilidade, são especialmente importantes o acompanhamento individualizado, o sono adequado, a atividade física, o apoio emocional e a possibilidade real de delegar tarefas e recuperar as energias. [9]

 

A pergunta que fica
Uma vitória eleitoral revela a escolha dos eleitores, mas não o custo pessoal que o exercício do cargo poderá representar nos anos seguintes. A medicina não dispõe de elementos para afirmar que Lula acertou ou errou, do ponto de vista da saúde, ao disputar outro mandato. O que sabemos é que propósito e atividade significativa podem contribuir para o bem-estar, enquanto o estresse persistente, sem recuperação suficiente, pode causar desgaste.

 

Ao longo da minha carreira, aprendi que não basta acrescentar anos à vida. Precisamos também preservar a qualidade desses anos.

 

Como médico, desejo que o presidente consiga preservar sua saúde diante de tamanha responsabilidade. E, como brasileiro, desejo sinceramente que Lula faça um bom governo, pelo bem do nosso país e de toda a população.

 

Afinal, o valor de uma conquista não está apenas no objetivo alcançado, mas também na saúde, no equilíbrio e na qualidade de vida que conseguimos preservar ao longo do caminho.

 

Nota ética. Artigo educativo, sem exame ou acesso ao prontuário do presidente e sem atribuição de diagnóstico ou incapacidade; respeita os arts. 37 e 111 do Código de Ética Médica. [10]

 

*Walter Viterbo da Silva Neto é médico anestesiologista e acupunturista, com área de atuação em Medicina da Dor (CRM-BA 11188; RQE 4430, 6973 e 21208). Mestre, doutor e pós-doutor, é autor de Semear Sempre, dedicado à prevenção e ao tratamento do estresse,

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

 

FONTES PARA CONFERÊNCIA EDITORIAL

[1] TSE. Reeleição presidencial — 26/10/2026.

[2] CNN Brasil. Declaração sobre saúde e candidatura — 29/08/2025.

[3] Bienertova-Vasku J et al. Eustress and distress. BioEssays, 2020.

[4] Levine GN et al. Saúde psicológica e cardiovascular. Circulation, 2021.

[5] Palmer CA et al. Sleep loss and emotion. Psychol Bull, 2024.

[6] Finan PH et al. The association of sleep and pain. J Pain, 2013.

[7] Boyle PA et al. Purpose in life and cognitive outcomes. Arch Gen Psychiatry, 2010.

[8] Hospital Sírio-Libanês. Boletim médico de 31/12/2024.

[9] OMS. ICOPE, 2ª edição, 2025.

[10] CFM. Código de Ética Médica, Res. 2.217/2018.

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