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Artigo

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A matemática do segundo turno

Por Marcelo Lyra Filho

Foto: Divulgação

Faltam poucos dias para o segundo turno e está todo mundo se perguntando qual a chance de Lula virar o placar. A gente não tem uma resposta exata, mas o que dá para fazer é olhar o que aconteceu nas outras vezes em que uma eleição chegou ao segundo turno no Brasil. O texto do Generalista de hoje expõe algumas conclusões que surgem dessa análise da nossa história recente.

 

O ponto de partida
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Em votos, foram 56,1 milhões contra 53,9 milhões, uma diferença de 2,2 milhões. O gráfico mostra como essa vantagem é apertada.

 

 

Vale lembrar que em todas as eleições presidenciais com segundo turno, de 1989 a 2022, quem liderou o primeiro turno venceu o segundo. É verdade também que tirar conclusões baseadas num número tão pequeno de disputas parece perigoso. A ideia do texto, então, é expandir a análise para disputas de Prefeituras e Governadores e entender se elas podem nos dizer algo sobre a eleição presidencial desse ano.

 

454 segundos turnos
Como eu disse, a gente ampliou a amostra para todos os segundos turnos para governador e prefeito desde 1994. São 454 disputas, e em 74% delas o primeiro colocado venceu.

 

A média, contudo, esconde o que mais importa, que é o tamanho da vantagem. Quando o líder sai do primeiro turno com mais de 15 pontos, ele quase sempre ganha. Quando a diferença é pequena, a disputa fica bem mais aberta.

 

 

Com uma diferença tão pequena entre primeiro e segundo colocado, seria natural pensar que a disputa entre Flavio e Lula não tem um favorito claro, certo? Pois é, não é exatamente assim. Tem mais coisa que a gente precisa olhar para tirar uma conclusão mais robusta.

 

A abstenção
Uma ideia que circula é que Lula poderia virar se conseguisse levar mais eleitores às urnas. Os números não ajudam essa tese. Dos 32,9 milhões de eleitores que não votaram no Brasil, 19,3 milhões moram nas cidades em que Flávio venceu e 13,6 milhões nas cidades em que Lula venceu. Por isso, se a abstenção caísse por igual no país e os novos votantes votassem como a sua cidade votou no primeiro turno, a vantagem de Flavio poderia, na verdade, aumentar.

 

Agora eu proponho um exercício. Vamos supor que a campanha do PT é extremamente eficiente e consegue reduzir a abstenção apenas nos lugares onde Lula tem vantagem. Como não dá pra supor que todos os novos eleitores votariam em Lula, distribuí os votos baseado em como essas regiões já votaram. Ficou claro né?

 

O resultado é um pouco decepcionante para a campanha petista. Se a abstenção cai 1 ponto percentual nas 2663 cidades que Lula venceu, o impacto final seria uma redução de 164 mil votos na diferença para Flavio. O gráfico abaixo deixa claro o exercício.

 

 

Para zerar a diferença só com as cidades em que Lula venceu, a abstenção nelas teria que cair quase 14%, o que parece simplesmente inviável (economista não gosta de usar a palavra impossível).

 

Outro fator importante a se considerar. A tendência da cidade mais pobre, onde Lula é mais forte, é de um aumento de abstenção no segundo turno (veja gráfico abaixo).

 

 

Além disso, depois de 20 governadores serem eleitos em primeiro turno, a quantidade de disputas para governo nos estados é a menor da nossa história recente. É mais um fator que não deve contribuir para uma maior participação do eleitorado.

 

Tudo isso pra dizer que a ideia de que Lula pode virar a eleição com uma abstenção menor não encontra sustentação nos dados. O candidato petista teria que conquistar votos dos demais candidatos.

 

O peso dos apoios
Se a abstenção não funciona, o que pode determinar uma virada? A resposta mais comum é o apoio de quem ficou de fora. A gente levantou, caso a caso, a posição dos candidatos eliminados nas 29 viradas para governador desde 1994.

 

O problema para Lula é que, desta vez, há pouco apoio a disputar. Nenhum candidato eliminado passou de 5%. Somados, Augusto Cury (2,9%), Renan Santos (2,2%), Ronaldo Caiado (2,2%) e Romeu Zema (0,3%) têm 7,6% dos votos. E o pouco que havia foi para o lado de Flávio. Zema anunciou apoio a ele no dia seguinte ao primeiro turno, Caiado formalizou o seu em 6 de outubro, em Goiânia, e Cury confirmou o dele em 8 de outubro, avisando que não se trata de “cheque em branco”. Somados, os três que apoiaram Flávio tiveram 5,3% dos votos válidos no primeiro turno; nenhum eliminado apoiou Lula.

 

Apoio declarado não é transferência automática de voto, principalmente para um candidato tão rejeitado como Flavio. Quando olhamos as viradas que ocorreram no segundo turno, contudo, o apoio dos candidatos menos votados parece ser essencial. Nesse sentido, a campanha “Direita e Esquerda contra o Bolsonarismo” parece acertar e pode ser a chance mais plausível de vitória do petista. O problema é que sem medidas concretas de aceno ao centro e com o apoio formal de Cury, Caiado e Zema a Flávio, ter os votos desses eleitores parece uma tarefa muito árdua.

 

O modelo
Para juntar essas peças, a gente montou um modelo estatístico com os 103 segundos turnos para governador. Ele estima a chance de uma virada a partir de quatro variáveis: os votos do líder, a vantagem sobre o segundo colocado, a abstenção e o saldo de apoios dos eliminados. A vantagem e os apoios são as variáveis que mais pesam; a abstenção, como era de se esperar, quase não muda o resultado.

 

Aplicado a 2026, com o que de fato aconteceu, Cury, Caiado e Zema apoiando Flávio, o modelo dá a Lula 18% de chance. Sem nenhum apoio declarado, seriam 29%. Para comparação, se os três tivessem ido para Lula, a chance dele subiria para 44%. Essa é a importância do “passo ao centro” para a campanha do atual presidente.

 

 

A conclusão
Juntando tudo, Flávio chega ao dia 25 como amplo favorito. Quantitativamente, a história dos segundos turnos, somada aos apoios que ele recebeu de Cury, Caiado e Zema, dá a ele uma chance de vitória maior do que 80%. Qualitativamente, essa probabilidade parece ser até maior. Para Lula, o caminho passa menos pela abstenção e mais pelo aceno ao eleitor de centro. Adiantar escolhas percebidas como técnicas para o Ministério da Fazenda e outros cargos chave da administração pública seria uma opção. Medidas críveis que ajudem a sanar a crise nas contas públicas também seriam uma alternativa. A militância tem sido, de fato, muito ativa, mas sem o voto do meio, a reeleição parece um sonho distante.

 

*Marcelo Lyra Filho é economista formado pela Universidade de São Paulo (USP). Construiu sua carreira em gestão de investimentos, com passagens pela Península Participações, family office de Abilio Diniz, e pela Gap Asset. Hoje está à frente de O Generalista, publicação dedicada à economia e às finanças

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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