Cartografia da Erosão Eleitoral
PROPRIEDADE INTELECTUAL © 2026 Duplamente Inteligência de Mercado. Estudo conduzido e assinado por Adriano Sampaio. Reprodução proibida sem autorização expressa.
Nota metodológica e limites. Este artigo constitui um exercício de inteligência de mercado aplicada à análise do ambiente eleitoral. Não é pesquisa eleitoral registrada, sondagem de intenção de voto, projeção de resultado ou afirmação factual sobre a ocorrência dos eventos narrados. As narrativas citadas são tratadas exclusivamente como variáveis de ruído informacional e de percepção. Os coeficientes, perdas e volumes apresentados são parâmetros de simulação: descrevem o comportamento do modelo sob determinadas premissas, e não fatos observados no eleitorado.
Tese central — em uma janela eleitoral curta, a erosão não depende apenas do conteúdo de uma narrativa. Ela emerge da interação entre alcance, repetição, credibilidade percebida, congruência identitária, carga moral, capacidade de correção e propensão à abstenção ou mudança de escolha.
1. Sumário executivo
A Duplamente Inteligência de Mercado estruturou uma simulação de cenários para examinar como choques narrativos simultâneos poderiam produzir erosão de apoio ao candidato Lula nos três dias finais de um pleito. O ponto de partida não é uma causalidade linear — “mensagem negativa gera perda de voto” —, mas uma cadeia probabilística: exposição → atenção → credibilidade percebida → ativação emocional ou identitária → revisão de preferência ou desmobilização.
O modelo integra sete camadas analíticas, que devem ser lidas como componentes de uma arquitetura de cenários, e não como evidências independentes de causalidade:
• social listening e sentimento líquido como termômetros de circulação discursiva;
• share of voice para estimar competição por atenção entre narrativas;
• curvas de difusão em redes e câmaras de eco, distinguindo alcance de repetição;
• segmentação demográfica para observar heterogeneidade de sensibilidade, sem convertê-la em prescrição de persuasão;
• regressão logística como estrutura de conversão probabilística entre exposição e resposta modelada;
• simulação Monte Carlo para propagar incerteza dos parâmetros;
• elasticidade eleitoral por segmento para representar diferentes graus de estabilidade da preferência.
No cenário-base originalmente parametrizado, o exercício produz perda líquida central de 3,2 pontos percentuais, aproximadamente 3,8 milhões de votos válidos. Esse número deve ser interpretado como saída condicional do modelo: ele só é válido dentro das premissas de alta exposição, credibilidade relevante e correção parcial adotadas na simulação.
| Cenário | Faixa de perda líquida | Votos estimados |
| Otimista | 0,8 a 1,8 p.p. | 1,0 a 2,2 mi |
| Base | 2,5 a 4,0 p.p. | 3,0 a 4,8 mi |
| Pessimista | 4,0 a 5,5 p.p. | 4,8 a 6,6 mi |
Tabela 1 — Faixas paramétricas do exercício de simulação. Os valores não constituem estimativa observacional do eleitorado.
2. Decomposição hipotética dos vetores de erosão
A erosão modelada não é homogênea porque as narrativas não competem apenas por audiência; competem por significado. Um mesmo volume de exposição pode produzir efeitos distintos conforme a narrativa encontre ou não uma “porta de entrada” cognitiva: moralidade, segurança econômica, identidade religiosa, confiança institucional ou frustração comportamental. Assim, o peso abaixo representa contribuição assumida no cenário, e não um ranking factual de causalidade.
| Vetor narrativo | Perda bruta modelada | Peso no cenário | Segmentos de maior sensibilidade assumida |
| Declaração atribuída sobre meninas | 0,9 a 1,8 p.p. | 30–35% | Mulheres, mães, católicas e evangélicas, 25–54 |
| INSS / alegação envolvendo Lulinha | 0,7 a 1,5 p.p. | 25–30% | 60+, pensionistas, baixa renda, Nordeste e Sudeste |
| Narrativa sobre a padroeira | 0,5 a 1,2 p.p. | 15–20% | Católicos, interior, mulheres, 45+ |
| Bets / torcidas de futebol | 0,3 a 0,9 p.p. | 10–15% | Homens 18–34, periferia, Sudeste |
| Banco Master / STF / autoridades citadas | 0,2 a 0,7 p.p. | 5–10% | Renda média/alta, Sul e Sudeste |
Tabela 2 — Hipóteses de contribuição relativa dentro do cenário. A nomenclatura das narrativas não implica validação de sua veracidade.
O ganho analítico está em distinguir quatro mecanismos que podem coexistir:
1. Saliência: a narrativa precisa ocupar espaço mental suficiente para deslocar temas concorrentes; circulação sem saliência tende a produzir ruído, não necessariamente revisão de voto.
2. Credibilidade percebida: o efeito potencial depende menos da veracidade objetiva — que este estudo não determina — e mais da probabilidade de o receptor considerar a narrativa plausível.
3. Congruência identitária: mensagens que tangenciam valores já relevantes para um grupo podem ter maior capacidade de ativação do que mensagens tecnicamente mais graves, porém distantes de sua identidade cotidiana.
4. Conversão comportamental: erosão não significa necessariamente migração para um adversário. Pode aparecer como dúvida, abstenção, voto nulo, queda de entusiasmo ou simples redução de certeza.
Leitura de inteligência — o modelo sugere que narrativas de elevada carga moral podem apresentar elasticidade superior às de natureza institucional quando encontram maior proximidade identitária. Isso é uma hipótese de mecanismo; sua confirmação exigiria dados observacionais, experimento ou pesquisa específica.
3. Matriz de sensibilidade por cortes demográficos
A segmentação abaixo deve ser lida como uma matriz de sensibilidade assumida no modelo. Ela não identifica indivíduos persuadíveis nem recomenda microtargeting. Seu objetivo é tornar visível a heterogeneidade da simulação: grupos com diferentes níveis de exposição, credibilidade percebida e propensão à desmobilização geram respostas distintas mesmo diante do mesmo choque informacional.
| Corte | Subgrupo | Perda relativa modelada | Votos estimados |
| Gênero | Mulheres | -3,0% a -5,0% | 1,8 a 3,0 mi |
| Gênero | Homens | -1,0% a -2,0% | 0,6 a 1,2 mi |
| Faixa etária | 60+ | -3,0% a -5,0% | 1,0 a 1,7 mi |
| Faixa etária | 30–59 | -2,5% a -4,0% | 1,5 a 2,4 mi |
| Faixa etária | 18–29 | -1,5% a -3,0% | 0,5 a 1,0 mi |
| Renda | Até 2 SM | -2,0% a -3,5% | 1,2 a 2,1 mi |
| Renda | 2–5 SM | -3,0% a -4,5% | 1,3 a 2,0 mi |
| Renda | >5 SM | -1,0% a -2,0% | 0,3 a 0,6 mi |
| Região | Sudeste | -3,0% a -5,0% | 1,5 a 2,5 mi |
| Região | Sul | -2,5% a -4,0% | 0,6 a 1,0 mi |
| Região | Centro-Oeste | -2,0% a -3,5% | 0,3 a 0,5 mi |
| Região | Nordeste | -1,5% a -2,5% | 0,6 a 1,0 mi |
| Região | Norte | -1,5% a -3,0% | 0,2 a 0,4 mi |
| Raça/cor | Branca | -2,5% a -4,0% | 1,0 a 1,6 mi |
| Raça/cor | Parda | -2,0% a -3,5% | 1,0 a 1,8 mi |
| Raça/cor | Preta | -1,5% a -3,0% | 0,3 a 0,6 mi |
| Raça/cor | Indígena | -1,0% a -2,0% | 0,05 a 0,1 mi |
| Religião | Católicos | -2,5% a -4,0% | 1,2 a 2,0 mi |
| Religião | Evangélicos | -2,0% a -3,5% | 0,8 a 1,4 mi |
| Religião | Sem religião | -1,0% a -2,0% | 0,2 a 0,4 mi |
| Profissão/área | Aposentados/pensionistas | -3,5% a -5,5% | 1,2 a 1,9 mi |
| Profissão/área | Educação/saúde/serviços | -3,0% a -5,0% | 0,8 a 1,3 mi |
| Profissão/área | Jovens usuários de apps/apostas | -2,0% a -3,5% | 0,4 a 0,7 mi |
| Profissão/área | Servidores públicos | -1,5% a -2,5% | 0,2 a 0,4 mi |
| Profissão/área | Comércio/indústria | -1,5% a -3,0% | 0,5 a 1,0 mi |
| Profissão/área | Agronegócio | -1,0% a -2,0% | 0,2 a 0,4 mi |
| Profissão/área | Empresários/investidores | -1,0% a -2,0% | 0,1 a 0,3 mi |
Tabela 3 — Sensibilidade paramétrica por macrocorte. Os volumes não devem ser somados entre si, pois os grupos se sobrepõem.
4. Ecossistema informacional: da circulação à erosão
A contribuição distintiva de uma abordagem de inteligência de mercado está em abandonar a leitura episódica — uma notícia, uma postagem, um vídeo — e observar o sistema de propagação. Em ambientes polarizados, o objeto relevante não é apenas “o que aconteceu”, mas como uma narrativa disputa atenção, recebe validação social, atravessa comunidades e se conecta a predisposições existentes.
1. Agenda-setting sob competição: uma pauta negativa pode deslocar temas econômicos ou administrativos sem precisar converter imediatamente opinião. O primeiro efeito é mudar aquilo sobre o que o eleitor pensa.
2. Priming moral: quando uma narrativa ativa valores de proteção, justiça, fé ou confiança, ela pode alterar os critérios usados para avaliar um candidato. O modelo trata essa ativação como variável de sensibilidade, não como efeito comprovado.
3. Cascata de credibilidade: repetição, endosso por pares e circulação em comunidades homogêneas podem elevar a plausibilidade percebida. Isso não transforma narrativa em fato; transforma frequência em um possível sinal social.
4. Desmobilização assimétrica: parte da erosão pode ocorrer sem transferência direta de voto. A perda de entusiasmo ou de certeza pode afetar comparecimento e decisão tardia, mecanismos distintos que não devem ser agregados sem cautela.
5. Correção e backlash: fact-checking, contradiscurso e correção rápida podem reduzir a persistência de uma narrativa; em certos contextos, a reação também pode reforçar identidade prévia. O sentido e a magnitude desse efeito dependem de dados que o presente exercício não observa.
Em termos de modelagem, a variável decisiva não é o volume bruto de menções, mas a combinação entre alcance efetivo, frequência, valência, confiança na fonte, distância ideológica, velocidade de correção e tempo restante até a votação. Uma leitura robusta precisa, portanto, separar exposição de persuasão e persuasão de comportamento.
5. O que o modelo permite — e o que não permite — concluir
O exercício permite comparar cenários condicionais e identificar quais premissas exercem maior pressão sobre o resultado simulado. Ele não permite afirmar que determinada narrativa causará uma perda específica, que um grupo efetivamente mudará de voto, nem que a eleição terá determinado desfecho. Sem amostra observacional, série temporal, desenho causal e calibração empírica dos coeficientes, os números devem permanecer no domínio da análise de sensibilidade.
| Dimensão | Leitura adequada | Limite |
| 3,2 p.p. no cenário-base | Saída central da parametrização escolhida | Não é previsão eleitoral |
| Pesos das narrativas | Hipóteses de contribuição relativa | Não comprovam causalidade |
| Cortes demográficos | Sensibilidade diferencial assumida | Não descrevem cada eleitor do grupo |
| Votos estimados | Conversão aritmética do cenário | Não constituem contagem ou pesquisa |
| 72 horas finais | Janela de estresse informacional | Não implica eleitorado integralmente consolidado |
Tabela 4 — Regra de leitura para evitar extrapolação indevida dos resultados simulados.
6. Conclusão
A cartografia proposta pela Duplamente desloca a discussão de uma pergunta simplista — “quantos votos uma narrativa tira?” — para uma pergunta mais exigente: “sob quais condições um choque informacional consegue atravessar a barreira entre circulação, crença e comportamento?”. Essa mudança é central porque impede que alcance seja confundido com influência e que influência seja automaticamente confundida com voto.
Dentro das premissas originais, o cenário-base permanece centrado em 3,2 p.p. de erosão líquida e cerca de 3,8 milhões de votos válidos. O valor, entretanto, ganha significado apenas quando acompanhado de sua arquitetura de incerteza: sensibilidade dos parâmetros, sobreposição dos segmentos, velocidade de difusão, credibilidade percebida e capacidade de correção. Quanto maior a dependência de premissas não observadas, maior deve ser a disciplina na linguagem da conclusão.
O pertencimento da inteligência de mercado ao debate eleitoral está precisamente aí: não em substituir pesquisa eleitoral, ciência política ou verificação factual, mas em organizar sinais dispersos, explicitar mecanismos, testar cenários e revelar onde a incerteza está concentrada. O produto final não é uma profecia; é um mapa de risco informacional — útil na medida em que deixa claro o que é dado, o que é hipótese e o que permanece desconhecido.
*Adriano Sampaio é CEO da Duplamente Inteligência de Mercado, empresa brasileira especializada em pesquisas, inteligência de mercado e análise estratégica. A organização está desenvolvendo um modelo proprietário de análise preditiva de cenários eleitorais, atualmente em processo de validação e aperfeiçoamento
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
