Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias
/
Artigo

Artigo

E se o maior erro das previsões eleitorais não estiver nas pesquisas, mas na forma como interpretamos o eleitor indeciso?

Por Adriano Sampaio

As pesquisas eleitorais são instrumentos indispensáveis para compreender a opinião pública. Mas é necessário reconhecer seu limite essencial: elas registram o presente. Uma pesquisa bem executada mostra como o eleitor responde no momento da entrevista; não necessariamente como ele se comportará diante das pressões, dos acontecimentos e dos dilemas que surgem até a urna.

 

Essa diferença entre fotografia e trajetória sempre me provocou.

 

Depois de décadas trabalhando com pesquisas e inteligência de mercado, iniciei uma sequência de testes matemáticos com eleições brasileiras para investigar uma questão aparentemente simples: seria possível identificar não apenas quem está à frente, mas também a direção provável do cenário, os limites de crescimento das candidaturas e a forma como os eleitores ainda não consolidados podem se movimentar?

 

Dessa investigação nasceu a EMPB — Equação Matemática Preditiva Brasil, denominação provisória de um modelo proprietário da Duplamente Inteligência de Mercado.

 

Sua arquitetura matemática, seus algoritmos, seus parâmetros e suas regras de calibragem constituem propriedade intelectual reservada. O que pode ser apresentado publicamente, entretanto, é a hipótese que orientou seu desenvolvimento: em eleições polarizadas, os votos indefinidos, voláteis ou oriundos de candidaturas que perdem competitividade não se distribuem necessariamente de maneira proporcional.

 

O eleitor indeciso não é uma sobra estatística.

 

Ele pode ser movido pelo receio da vitória de determinado candidato, pela rejeição ao adversário, pela percepção de voto útil, pelo alinhamento ideológico de sua região, pela influência de lideranças nacionais ou pela força das estruturas políticas locais. Em determinadas circunstâncias, parcelas desse eleitorado podem migrar de maneira assimétrica e alterar significativamente o resultado esperado.

 

Quando escolher se transforma em rejeitar
No primeiro turno, o eleitor dispõe de maior liberdade para procurar identidade, representação e proximidade com uma candidatura. No segundo, especialmente em disputas polarizadas, a lógica pode mudar. A escolha deixa de ser apenas uma manifestação de preferência e passa a incorporar o veto: parte do eleitorado vota não somente para eleger alguém, mas para impedir a vitória de quem rejeita.

 

Isso significa que intenção de voto e rejeição não deveriam ser observadas como números independentes.

 

Uma candidatura pode liderar e, ainda assim, estar próxima de seu limite. Outra pode apresentar menor intenção naquele momento, mas possuir espaço mais amplo para absorver indecisos e votos transferidos. O percentual registrado na pesquisa revela a força atual; a rejeição ajuda a compreender a resistência ao crescimento. Entre os dois existe um território que as campanhas precisam interpretar.

 

Foi nesse território que concentramos os testes.

 

O que 2022 nos ensinou
A eleição presidencial de 2022 ofereceu um ambiente especialmente relevante para a análise. A diferença reduzida no segundo turno, a intensidade da polarização e o comportamento dos eleitores nas últimas horas demonstraram que pequenas movimentações poderiam produzir consequências nacionais.

 

Os testes retrospectivos realizados pela Duplamente indicaram que uma leitura combinada da intenção de voto, da rejeição, da volatilidade e do contexto político pode acrescentar informações relevantes à interpretação convencional. O objetivo não foi desacreditar os levantamentos publicados, mas investigar aquilo que uma fotografia isolada dificilmente consegue explicar: a possível direção do movimento.

 

A disputa pelo Governo da Bahia acrescentou outro aprendizado. O resultado do primeiro turno mostrou a importância de compreender o alinhamento entre a eleição estadual e a presidencial, a força das estruturas municipais e a possibilidade de voto combinado na reta final.

 

Ao mesmo tempo, o teste baiano expôs limites que precisam ser tratados com rigor. Uma sinalização correta de risco ou de mudança de tendência não equivale, por si só, a uma projeção exata do resultado. Reconhecer essa diferença é indispensável para que um modelo em desenvolvimento não seja transformado em propaganda estatística.

 

A matemática séria não pode ter medo de mostrar onde ainda precisa evoluir.

 

Não se trata de uma bola de cristal
Nenhuma equação responsável deve prometer certeza em uma eleição. Campanhas são organismos vivos. Debates, crises, alianças, decisões judiciais, acontecimentos econômicos, fatos inesperados e erros estratégicos podem alterar o comportamento do eleitor em poucas horas.

 

A EMPB não foi concebida para substituir pesquisas eleitorais, analistas ou conhecimento territorial. Sua proposta é funcionar como uma camada adicional de inteligência: um sistema capaz de organizar sinais, testar cenários e estimar riscos e probabilidades.

 

Para uma campanha, talvez a pergunta mais valiosa não seja apenas “quanto temos hoje?”, mas:

 

Estamos crescendo de forma sustentável ou apenas oscilando dentro da margem de erro? Nossa rejeição já começa a limitar a expansão? Existe um reservatório eleitoral acessível? Os indecisos possuem maior propensão a aproximar-se de nós ou a votar contra nosso adversário? A força nacional ajuda ou prejudica a candidatura estadual? Uma liderança aparente é estrutural ou vulnerável?

 

Essas perguntas podem mudar decisões sobre comunicação, agenda, alianças, território e investimento.

 

Um desafio para 2026
O próximo passo da Duplamente será avançar da reconstrução retrospectiva para a validação prospectiva. Isso significa registrar projeções antes dos resultados, preservar as bases utilizadas, controlar as versões do modelo e comparar posteriormente cada estimativa com as urnas.

 

Esse processo é mais difícil — e exatamente por isso é mais valioso.

 

Também estudamos formas de auditoria independente que permitam avaliar a consistência dos testes sem expor o núcleo proprietário da tecnologia. O mercado não precisa conhecer o segredo industrial para examinar a qualidade das evidências, assim como não precisa acessar o código-fonte de uma plataforma para avaliar sua performance.

 

O desafio que apresentamos aos profissionais de campanhas, cientistas políticos, estatísticos e especialistas em comunicação é direto: será que continuaremos tratando todo indeciso como uma fração distribuída mecanicamente ou começaremos a modelá-lo como um eleitor submetido a forças políticas, territoriais e emocionais diferentes?

 

A eleição brasileira não acontece apenas nas porcentagens declaradas. Ela acontece também na tensão entre preferência e rejeição, identidade e pragmatismo, convicção e medo, liderança e voto útil.

 

É nesse espaço invisível que uma eleição pode mudar de direção.

 

E é justamente ali que a Duplamente Inteligência de Mercado pretende concentrar sua próxima fronteira de investigação.

 

A Duplamente selecionará campanhas majoritárias para uma rodada restrita de demonstrações e validações prospectivas do modelo, mediante confidencialidade e protocolo técnico previamente definido.

 

*Adriano Sampaio é CEO da Duplamente Inteligência de Mercado, empresa brasileira especializada em pesquisas, inteligência de mercado e análise estratégica. A organização está desenvolvendo um modelo proprietário de análise preditiva de cenários eleitorais, atualmente em processo de validação e aperfeiçoamento

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Compartilhar