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Artigo

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Entre a garagem e o acesso à casa própria

Por Renata Bandarra

Foto: Lorena Vinturini/ Divulgação

Durante muito tempo, ter uma vaga de garagem foi quase uma regra na escolha de um imóvel. O carro ocupava um lugar central na rotina das famílias e, naturalmente, essa realidade se refletia nos projetos residenciais. Mas as cidades mudaram, a mobilidade se transformou e o comportamento de quem busca a casa própria também já não é o mesmo.  

 

Em Salvador, começamos a perceber com mais clareza uma demanda por apartamentos sem vaga de garagem, especialmente entre famílias de menor renda. Não significa que o carro deixou de ser importante ou que os empreendimentos devam abandonar as vagas. Significa reconhecer que existem diferentes perfis de compradores e que, para uma parcela deles, pagar por uma estrutura que não será utilizada pode representar uma barreira para a aquisição do imóvel.  

 

Essa diferença é relevante. Em alguns projetos, uma unidade sem vaga pode custar até R$ 60 mil a menos. Para uma família mais sensível às condições de crédito imobiliário, a redução no valor final pode ser decisiva para viabilizar o financiamento e transformar o desejo de sair do aluguel em uma possibilidade concreta.  

 

Ao mesmo tempo, a ampliação do metrô, do BRT e dos serviços de transporte por aplicativo tem modificado a relação das pessoas com o carro. Custos como manutenção, combustível, seguro e outras despesas também entram nessa conta. Para muitos consumidores, morar mais próximo do trabalho, de centros comerciais, serviços e eixos de transporte público passou a ser mais importante do que ter uma garagem.  

 

Esse movimento traz uma reflexão necessária para o setor imobiliário: precisamos construir a partir das necessidades reais de quem vai morar. Isso também significa buscar terrenos bem localizados e compreender como cada empreendimento se relaciona com o entorno, a mobilidade e a dinâmica urbana.  

 

Em Salvador, a legislação municipal é flexível quanto à quantidade mínima de vagas de garagem, em especial nos Projetos de Habitação de Interesse Social, desde que observadas as análises e os estudos de impacto necessários. Esse movimento é observado em outras grandes cidades brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte e abre espaço para soluções mais alinhadas aos diferentes perfis de renda e modos de vida.   

 

Reduzir vagas não deve ser uma fórmula aplicada indistintamente. Há públicos que continuam priorizando a garagem e empreendimentos em que ela permanece essencial. A evolução está justamente na ampliação das possibilidades de escolha.  

 

Quando conseguimos oferecer moradia mais acessível, próxima das centralidades e conectada à cidade, avançamos em uma discussão que vai muito além da garagem. Falamos de acesso à casa própria, mobilidade e qualidade de vida. Afinal, as cidades mudam — e a forma de morar precisa acompanhar essas transformações.

 

*Renata Bandarra é gestora de Desenvolvimento Imobiliário da MRV na Bahia

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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