O Ruidoso Silêncio no Centenário de Ariovaldo Matos
Transcorre, segunda feira (24/08) em silêncio — um ruidoso silêncio, um barulhento silêncio, um estrepitoso silêncio — o centenário de nascimento do jornalista, escritor, dramaturgo, publicitário__ foi redator da Publivendas__ e militante político Ariovaldo Matos.
Um constrangedor silêncio das entidades de classe e do meio político, este focado em renovar o Pix dos seus mandatos nas casas legislativas. Um silêncio que nenhuma vuvuzela conseguiria romper nesta Bahia esquecida, por negligência ou conveniência, de seus grandes vultos. Ariovaldo nasceu na Rua da Poeira, no bairro de Nazaré. E, apesar do empenho em transformar sua memória em poeira, seu nome transcende. Mas há poeira que o tempo não consegue cobrir.
Sacudindo a poeira, aos “esquecidos” da seara do jornalismo, lembramos que Ariovaldo foi redator e chefe de reportagem. Estreou no jornal O Momento, fundado em 1945, órgão oficial do Partido Comunista. Foi pioneiro da comunicação empresarial na Bahia; proprietário de jornal, fundador dos semanários Folha da Bahia e Sete Dias e do Jornal IC, este em parceria com José Gorender e Maurício Naiberg; foi ainda cronista político na Rádio Cultura e, em parceria com Gorender, dirigiu a escolinha de jornalismo que precedeu a fundação do Jornal da Bahia, em 1959.
Aos “esquecidos” da seara da cultura, vale lembrar o escritor que publicou Corta-Braço (1955), A Dura Lei dos Homens (1960), Últimos Sinos da Infância (1965), Os Dias do Medo (1968) e Colagem Desvairada em Manhã de Carnaval (1981). Na dramaturgia, deixou A Escolha ou O Desembestado e A Engrenagem, publicados em 1970, além de Irani ou As Interrogações, E todos foram heróis, cada qual ao seu modo e O Ringue. Esta última peça proibida pela censura da ditadura militar, permaneceu inédita durante a vida do autor. E as publicações póstumas A Ostra Azul, organizada por Guido Guerra (1998); Anjos Caiados (2006); e Cinco Peças e Uma História (2018), compilação de textos teatrais.
Glauber Rocha descreveu seu estilo como o de um “filho da linha de Graciliano Ramos, sem adjetivos, que pega a realidade nua e a transforma mais nua ainda”. Jorge Amado ressaltou sua vocação literária: “Esse Ariovaldo Matos traz no sangue o demônio da literatura”. E acrescentou que essa vocação terminou por se impor, “vencendo mesmo o jornalista ágil, o repórter de incomum vivacidade”.
Pensando bem, até Gregório de Mattos previu a desmemória de Ariovaldo: Triste Bahia! Ó quão dessemelhante/Estás e estou do nosso antigo estado! /Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, / Rica te vi eu já, tu a mi abundante. Com a licença do poeta barroco, o Boca do Inferno, complemento os versos: Triste Bahia! Ó quão dessemelhante... sois Miseravona/Em continuado esquecimento/Triste lamento.
*Nelson Cadena é escritor e jornalista
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