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Artigo

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O Conto da Aia e o voto feminino

Por Nágila Maria Rocha

Foto: Caoane Lélis

No último final de semana, finalmente terminei de assistir O Conto da Aia. Em muitos momentos precisei pausar, respirar fundo e só depois dar play novamente. É uma série perturbadora. Não apenas pela violência, mas porque nos obriga a encarar perguntas incômodas sobre poder, liberdade e o lugar das mulheres na sociedade.

 

Por isso, não posso deixar de recomendá-la. Mas faço um alerta: é preciso coragem. Não para mergulhar na ficção, e sim para reconhecer que Margaret Atwood, autora da obra, construiu um enredo inspirado em práticas que já existiram ao longo da história. Como ela própria costuma dizer, nada do que escreveu foi completamente inventado.

 

Gilead, a sociedade distópica onde a trama se desenrola, mostra o que acontece quando o Estado, a religião e o patriarcado passam a controlar a vida privada. O resultado é um regime em que mulheres deixam de ser cidadãs para se tornarem objetos de reprodução e controle.

 

Nos últimos anos, voltaram a ganhar espaço discursos que defendem que mulheres deveriam ser submissas aos homens, que sua principal função é a maternidade ou que a igualdade entre homens e mulheres teria ido longe demais. Mas esse roteiro é conhecido: primeiro, questiona-se a autonomia feminina; depois, relativizam-se direitos; por fim, apresenta-se a retirada de liberdades como se fosse uma forma de proteção.

 

É exatamente esse mecanismo que O Conto da Aia nos convida a observar. As duas protagonistas, Serena Joy e June Osborne, percorrem caminhos opostos para chegar a uma mesma constatação. Serena ajudou a construir Gilead. Acreditava que aquele sistema protegeria a família e restauraria valores que julgava perdidos. No entanto, acaba sendo engolida pelas próprias regras que ajudou a criar. Descobre, da pior maneira possível, que o sistema que controla todas as mulheres também controla aquelas que ajudaram a construí-lo.

 

June, por outro lado, perde tudo por causa de Gilead. Sua trajetória revela a violência de um regime que tenta apagar não apenas os direitos das mulheres, mas também sua identidade. Ela perde o nome, a autonomia sobre o próprio corpo, a filha e o direito de escolher o próprio destino. Mesmo marcada pelas violências que sofreu, June transforma sua dor em resistência e entende que sobreviver também é uma forma de lutar.

 

Foi impossível terminar a série sem pensar em um debate que, até pouco tempo atrás, parecia impensável: o questionamento do voto feminino. Não estamos vivendo em Gilead, mas toda sociedade democrática precisa permanecer atenta quando direitos historicamente conquistados passam a ser relativizados.

 

A história mostra que a perda de direitos raramente acontece de uma só vez. Em geral, ela começa quando determinadas liberdades deixam de ser vistas como princípios e passam a depender da conveniência política, moral ou religiosa de cada época.

 

Talvez essa seja a maior contribuição de O Conto da Aia. A obra não pretende prever o futuro. Pretende nos alertar sobre o presente. Ela nos lembra que nenhuma democracia está definitivamente protegida contra o autoritarismo e que direitos conquistados jamais são permanentes quando deixamos de defendê-los.

 

*Nágila Maria Rocha é psicóloga e comunicadora política

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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