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Artigo

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Biblio, o quê?

Por Fernanda Carvalho 

Foto: Wilson Militão

Biblioterapia, repito. É alguma atividade relacionada à Bíblia?, perguntam frequentemente. Não, mas para mim tem um significado quase sagrado. De celebração da essência humana. Biblio, o quê mesmo? Bi-bli -o- te- ra-pia! Respondo sem perder a paciência porque entendo a importância de tornar a prática conhecida por mais pessoas. 

 

Em um cotidiano tão árido, de longas exigências e respostas rápidas, uma das formas mais delicadas de cuidado continua repousando, silenciosamente, entre as páginas de um livro. Na magia das histórias, sejam elas escritas ou transmitidas pela oralidade. O termo nasce da junção de duas palavras de origem grega: βιβλ?ο (biblio), isto é, “livro”; e θεραπε?α (therapeía), terapia. Em resumo, Biblioterapia é uma prática de acolhimento e cuidado através de textos literários.

 

É no território delicado das palavras e do afeto que mora a Biblioterapia. Embora o nome ainda seja desconhecido para muitas pessoas, sua essência é antiga e profundamente humana. Desde os primórdios, quando grupos se reuniam ao redor do fogo para contar histórias, a literatura já cumpria uma missão silenciosa: aliviar o peso da alma.

 

No Brasil, os primeiros registros da prática terapêutica remontam ao início do século XX. Durante a Primeira Guerra Mundial, hospitais passaram a utilizar a leitura como recurso auxiliar no tratamento dos soldados sobreviventes. A recuperação física e emocional foi notável. Desde então, a metodologia evoluiu, integrando conhecimentos da psicologia, educação e literatura.

 

As vivências de Biblioterapia acontecem em encontros cuidadosamente conduzidos, individuais ou em grupo, nos quais um texto literário é escolhido como ponto de partida para o diálogo. A proposta é criar um espaço seguro para que os participantes sintam as emoções, entrem em contato com memórias e tenham reflexões despertadas pela leitura. A partilha não é obrigatória. E posso garantir: mesmo alguém que participou do encontro em silêncio não volta para casa como chegou.

 

Um efeito é certo nas vivências de Biblioterapia: as histórias (reais ou fictícias) penetram em camadas profundas, acordam emoções, geram identificação e são ferramentas de apoio à reconstrução de trajetórias pessoais. O poder das metáforas estimula a imaginação e pode provocar catarses por meio do riso ou do choro. Reações esperadas que podem ajudar a enxergar novas rotas.

 

Importante destacar que a Biblioterapia não substitui o acompanhamento médico ou psicológico, quando necessários. Os encontros ocupam outro lugar: o do cuidado que nasce da arte, da escuta, da palavra. A ciência constata aquilo que tantos leitores já conhecem intuitivamente: a literatura favorece o relaxamento, estimula o autoconhecimento, a empatia... Amplia nossa capacidade de compreender o outro e a nós mesmos.

 

Quem nunca fechou um livro com a estranha sensação de ter voltado diferente para a própria vida? Sou prova disso. Do poder transformador das histórias. Foi da paixão pelos livros, pelas palavras, que nasceu meu interesse pela Biblioterapia. Do desejo latente de compartilhar com outras pessoas o acolhimento que a literatura trouxe para minha vida.

 

Depois de muito me beneficiar da Biblioterapia, é uma oportunidade preciosa poder mediar vivências, conduzir leituras em voz alta, compartilhar textos cuidadosamente selecionados de acordo com a temática e o público do encontro. A abordagem é sensível e eficaz. De forma sutil e, ao mesmo tempo, potente, as vivências oferecem conforto e contribuem para o fortalecimento interno e a reconstrução de projetos de vida.

 

A Biblioterapia não propõe apenas a leitura de livros. Ela promove encontros. Encontros que são pílulas de humanidade, capazes de desenhar revoluções silenciosas em diferentes espaços, como escolas, bibliotecas, hospitais, consultórios médicos, empresas, associações, ONGs. A Biblioterapia cabe em todo lugar!

 

Ler e compartilhar meu encantamento com a literatura é sempre um convite irrecusável. Ao final de cada vivência, que dura menos de duas horas, os participantes saem mais desejosos de se aproximar do universo mágico e contagiante da literatura. De entender melhor suas próprias histórias e com mais coragem para escrever novos capítulos. Biblioterapia é sobre tudo isso!

 

*Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, mediadora de Biblioterapia e autora dos Livros A Luz da Maternidade e Entre Bolhas e Marés

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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