Empresas, inspirem-se na Copa do Mundo
A Copa do Mundo talvez seja o maior exercício de diversidade global que existe. Em nenhum outro evento esportivo – com exceção das Olimpíadas – vemos reunidas tantas nacionalidades, culturas, religiões e histórias diferentes compartilhando o mesmo palco. Por isso, além da paixão pelo futebol, ela nos convida a refletir sobre uma questão importante: será que a diversidade que vemos nos gramados se reflete nos espaços de poder e liderança das sociedades?
Algumas seleções chamam atenção pela sua diversidade. A França, por exemplo, conta com muitos jogadores de origem africana, tanto do Magreb quanto da África Subsaariana. Isso se explica pela forte imigração proveniente de antigas colônias francesas. Na Alemanha, também vemos atletas de destaque com origem turca, reflexo da importante comunidade de imigrantes formada no país ao longo das últimas décadas.
No entanto, ao observar essas seleções, surge uma dúvida: essa mesma diversidade está presente nos cargos de chefia, nos conselhos de administração e nas posições de maior poder econômico? Minha impressão é que não. Em muitos países, o esporte parece ter avançado mais rapidamente na inclusão do que no mercado de trabalho, especialmente nos postos de liderança.
Outros exemplos ajudam a ampliar essa reflexão. A Argentina, por exemplo, possui uma forte identidade ligada à imigração europeia, embora também tenha importantes raízes indígenas e africanas que muitas vezes receberam menos destaque em sua narrativa nacional. Seu maior ídolo, Maradona, simboliza essa mistura de origens populares e latino-americanas.
E o Brasil? Como estamos nessa comparação?
A CBF não realiza contagem étnica dos atletas, mas é perceptível que muitos jogadores da Seleção Brasileira têm origem afro-brasileira. Isso contrasta com a realidade dos cargos de chefia no mercado de trabalho. Embora cerca de 56% da população brasileira seja formada por pretos e pardos, sua presença nos postos de liderança ainda é muito inferior a essa proporção.
Parte dessa diferença pode ser explicada pelas desigualdades históricas de acesso à educação, oportunidades profissionais e redes de relacionamento. No futebol, porém, a lógica costuma ser diferente. Muitos atletas vêm de famílias de baixa renda e encontram no esporte uma rara oportunidade de ascensão social. As categorias de base oferecem treinamento, alimentação, educação e, muitas vezes, moradia.
Nem todos se tornam estrelas milionárias, mas mesmo aqueles que atuam em divisões inferiores frequentemente alcançam uma condição de vida melhor do que teriam fora do futebol. Talvez por isso os gramados revelam uma diversidade que ainda está longe de ser encontrada nas salas de reunião das grandes empresas. A Copa do Mundo, nesse sentido, não é apenas uma competição esportiva: é também um retrato das oportunidades e desigualdades que existem em nossas sociedades.
*Cintia Deffontaines é especialista em Sustentabilidade da Sustentalli
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
