Eleições 2026 e Violência Política de Gênero
Este texto nasce de uma inquietação — e também de um dever moral e cívico de falar sobre um tema urgente: a violência política de gênero, antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral de 2026.
O meu lugar de fala parte primeiramente por ser mulher parda e depois mãe. Marcadores sociais suficientes para que eu não me reconheça muitas vezes nos espaços de poder e decisão. Por isso, considero necessário provocar o debate público e alertar outras mulheres sobre questões frequentemente tratadas como invisíveis ou “naturais” que impactam diretamente nossas vidas e influenciam até mesmo a qualidade dos discursos que disputam os nossos votos.
Ao observar a composição da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), encontramos um dado revelador: das 63 cadeiras existentes, apenas 10 são ocupadas por mulheres. A pergunta que permanece é: por que a representatividade feminina ainda é tão baixa, se somos maioria da população e enfrentamos demandas específicas que precisam estar no centro das decisões políticas?
Falar sobre mulheres na política também é discutir jornadas duplas e triplas de trabalho não remunerado; a morosidade das Varas de Família; a ampliação do acesso à Justiça; e a necessidade permanente de fortalecimento da Lei Maria da Penha. Mas hoje quero me concentrar em outro ponto: a disputa eleitoral e os ataques direcionados às mulheres que ousam ocupar espaços de poder.
A tão sonhada igualdade de gênero ainda encontra resistência em práticas violentas e sistemáticas. Antes mesmo do início da campanha de 2026, já vimos episódios envolvendo fake news contra uma ex-deputada estadual, denunciados em nota de repúdio da Procuradoria da Mulher na Alba. Não se tratam de casos isolados. Trata-se de um modus operandi que busca desestabilizar emocionalmente mulheres candidatas, destruir reputações e desestimular suas participações políticas.
Essa prática tem nome: violência política de gênero, crime tipificado pela Lei nº 14.192/2021.
As agressões acontecem de diferentes formas: disseminação de fake news, produção de deepfakes por inteligência artificial, ataques coordenados nas redes sociais, discursos de ódio, xingamentos e campanhas de desinformação que deprimem e arrasam reputações, famílias e profissões.
A disputa eleitoral nunca foi um ambiente simples e com o avanço das redes sociais e o uso irresponsável das inteligências artificiais, o cenário tornou-se ainda mais hostil. As fronteiras entre verdade e mentira ficam cada vez mais confusas, enquanto a violência digital ganha velocidade e alcance.
Representatividade importa porque nossas pautas importam. Precisamos avançar na igualdade salarial, na independência financeira e no direito de participar da política sem medo da violência, da humilhação ou do silenciamento.
E é importante lembrar: existem instrumentos de proteção e apoio. Ministérios Públicos, Defensorias Públicas, Delegacias Especializadas em Crimes Cibernéticos e Procuradorias da Mulher são estruturas fundamentais para denunciar, combater e responsabilizar autores de violência política de gênero.
Faço aqui um apelo, sobretudo como mãe e cidadã: mulheres, não desistam das suas candidaturas. Apoiem-se umas nas outras. Precisamos ocupar os espaços de decisão e fortalecer a presença feminina nos parlamentos e demais instituições públicas.
Defender a participação das mulheres na política não é uma pauta individual. É defender a democracia.
*Bruna Santana é jornalista, servidora pública e pós-graduanda em Gestão Pública e Direitos Humanos, com atuação em campanhas eleitorais e comunicação política.
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
