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Artigo

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A mãe da gula

Por Nelson Cadena

Foto: Acervo pessoal

Andei revisitando os sete pecados capitais, os que o Papa Gregório I publicitou, dizem que inspirado nos oito pensamentos malignos que o monge Evágrio Póntico listou no século IV do cristianismo. Não com a intenção de corrigir meus erros, levar uma vida virtuosa. Já passei dessa fase. Alguns me parecem pecados, apenas no dia seguinte. Sei que o arrependimento é um ato de generosidade do tipo não vou pecar mais, juro! Pelo menos nesta semana. Na próxima, talvez, a depender da oportunidade. 

 

O que o monge Evrágio e o Papa Gregório não previram é que a tecnologia contribuiria para multiplicar as possibilidades da escrita à mão, que um dia evoluiria para a escrita impressa, e após sonora e visual. Esse desencontro cronológico entre o passado e o futuro é que determinou o conceito de gula. Corrijo. Eles não inventaram a gula, inventaram a gulinha. Quem inventou a gula foi a televisão. Que já está a merecer o honroso título de Mãe da Gula. Minhas homenagens, nesta semana das mães.

 

A telinha multiplicou o pecado capital em toda sua programação e, no Brasil < na contramão de Chico Buarque que se enganou quando poetizou “não existe pecado do lado de baixo do Equador”>, mais ainda. Não tenho certeza se Chico se iludiu, na criação do verso singular. Não existe pecado, de fato, deste lado do Equador. Existem pecados e muitos. E a Gula, se não é o maior deles, vide as involuções do biotipo físico da população, ao longo dos séculos, tem na telinha o seu charme. É a campeã de audiência.

 

Quando ligo a televisão, em determinados horários, me confundo. Tanto me atrapalho que já me vi correndo até a cozinha para desligar o fogão. Engano, já estava desligado. A TV cheira a churrasco, mole mexicano, bolo de aipim, torta de morango, fricassê, cheira a acarajé; você não precisa abrir a janela para conferir se a baiana montou hoje o tabuleiro na frente de seu prédio. O cheiro vem de seu aparelho de TV, bobinho. 

 

Se não estou enganado, os reality shows e gourmets performáticos foram os padrinhos do bendito pecado. Os reality shows exageraram na dose e no tempero. Na humilhação dos participantes, em detrimento das receitas, transformando a culinária em lutas de vale-tudo, se cabe, e claro que cabe, a comparação. Já os gourmets performáticos exageraram na mão, com o tempero das comidas a pulso. Um punhado de sal e outro das especiarias, jogados ao leu, e após provarem o improviso, fazer careta de que delícia, fingir o prazer gustativo. 

 

A Globo introduziu a gastronomia em toda sua programação, de ponta a ponta, até nos noticiários. Faltou trocar o Top de 5 segundos por suculentos pratos de comida. Fica aqui a sugestão. A Band vestiu o avental do Jackin, o gordinho presepeiro-grunhento que dá bronca do porteiro ao dono do restaurante quase falido; o SBT e Record reinventaram os realitys, em modelos competitivos diferenciados, entre famílias e chefs profissionais. 

 

O foco de Olivia Portela, a pioneira da matéria na Televisão Baiana, era a receita. E apenas a receita e o bê-á-bá no preparo. Fez sucesso. Hoje, essa fórmula culinária não acrescenta audiência. Tem que rebolar, fazer palhaçada, presepada de caras e bocas. Cara de gozo ao experimentar o prato. É disso que o telespectador gosta. Audiência certa. Data vênia, não vou cuspir no prato que comi. Se exagerei, da próxima vez prometo aliviar a marinada.

 

 

*Nelson Cadena é escritor e jornalista

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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