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A legalização do dar “grau” como estratégia de visibilidade política e caça aos votos

Por Amy Ferreira

Foto: Geraldo Araújo/ Divulgação

Desde que a Federação do Grau da Bahia, foi oficializada em dezembro de 2025, na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA), legisladores de vários municípios brasileiros têm apoiado a regulamentação e aprovado a prática do chamado dar “grau”, considerada a mais nova modalidade esportiva, em que motociclistas empinam a moto e se equilibram com apenas uma das rodas no chão enquanto aceleram em velocidade.

 

Não é raro observar, no cotidiano de diversas cidades, jovens executando de forma perigosa essas acrobacias em plena via pública. A ação, para muitos considerada uma aventura, se transforma em imprudência e tem contribuído para o alto índice de acidentes com motociclistas no Brasil.

 

Dados recentes de 2024 e 2025 mostram um cenário alarmante. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Motos respondem por 40% das mortes no trânsito e 60% das internações hospitalares, sobrecarregando o SUS, provocados por acidentes envolvendo motocicletas, diante da imprudência, incluindo manobras perigosas comuns feitas durante o “grau”, que tem se tornado fator preponderante no aumento das estatísticas incluindo até de casos fatais.

 

Geralmente, se assiste a essas práticas de risco à luz do dia, durante trajetos rotineiros, seja em ruas, avenidas, ladeiras de subúrbios e centros das grandes cidades. Há lugares em que jovens promovem até competições entre com grupos na aventura da alta velocidade. E pior: próximo a pedestres, ciclistas e carros, aumentando os riscos fatais. A legalização do “grau” reconhecida como lei, no âmbito político, pode ser interpretada como mais um capítulo da velha estratégia de “pão e circo”. Uma tática de entretenimento que busca manter a população distraída e satisfeita, evitando que cobre mudanças sociais e políticas mais sérias, ao tempo que desvia a atenção de problemas reais do país. Nesse contexto, segmentos da política passam a incorporar temas, linguagens e estéticas comportamentais da periferia em suas redes sociais.

 

O fato é que alguns “representantes do povo”, buscam adotar discursos que geram engajamento, utilizando-os como estratégia de marketing e autopromoção, para conquistar simpatia e votos, em vez de abraçar  causas sociais mais emergentes no campo da saúde, educação e segurança pública.

 

O Artigo 244 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), enquadra a prática do Grau como uma infração gravíssima, que também pode ser criminalizada pelo Artigo 308 do CTB, se gerar risco à segurança de outras pessoas. O ato de incentivar e divulgar a prática pode incorrer em infrações previstas nos Artigos 286 e 287 do Código Penal.

 

Decretos que buscam regularizar a prática do “grau” podem, além de legitimar uma atividade antes associada à ilegalidade ao oferecer  riscos de acidentes recorrentes entre seus praticantes, gerar uma influência negativa, ainda mais em um cenário em que os números de acidentes seguem disparados no país. Dados do Atlas da Violência 2025, destacam que as regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas de mortes em acidentes com motocicletas.

 

Os relatórios de trânsito no estado da Bahia não especificam o número de condutores que se acidentaram empinando motos, pois as estatísticas agrupam todos os acidentes envolvendo motocicletas. A Bahia encerrou o ano de 2024 com o pior índice de mortes no trânsito dos últimos 25 anos. Segundo levantamento da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), foram 2.993 vítimas fatais em Acidentes de Transportes Terrestres (ATT), o que representa uma média de oito óbitos por dia.

 

Por que, afinal, tantos políticos têm adotado essa pauta e esse discurso? Seria porque o tema tem viralizado e rende visibilidade fácil, entre jovens que podem somar o percentual de votos para as próximas eleições? É válido questionar se esses mesmos vereadores que possuem um dos melhores planos de saúde e se dizem representantes do povo “que vai lá e faz”, estão realmente preocupados com o bem-estar da população.

 

Diante desse quadro, é legítimo perguntar: o município que venha a decretar a legalização do “Grau” tem estrutura de saúde pública suficiente para atender, de forma adequada e completa, todas as vítimas de acidentes com motocicletas? Há suporte suficiente para oferecer exames, curativos, cirurgias e consulta pelo SUS? Esse tipo de demanda acaba sobrecarregando o sistema de saúde do município, uma vez que já opera próximo de sua capacidade máxima.

 

Antes de qualquer discussão sobre lazer, é preciso reconhecer que os jovens na faixa etária de 16 anos, precisam de educação de qualidade, oportunidades reais de trabalho, políticas de inclusão, segurança e acesso digno à saúde. Transformar pautas sociais em instrumentos de autopromoção eleitoral, reduzindo jovens a números e estatísticas, desumaniza e aprofunda desigualdades.

 

Antes de a população defender ideias de políticos que fazem a linha tiktokers se faz urgente pensar se não está apenas sendo usada como massa de manobra. Os problemas reais e urgentes que poderiam ser resolvidos com menor custo, sem dúvidas, beneficiariam os jovens para um futuro melhor com políticas públicas decentes. Enquanto isso, o jovem cidadão  segue engavetado, sem luz no fim do túnel.

 

*Amy Ferreira é estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb)

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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