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Artigo

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Encontramos terras raras. E agora?

Por Henrique Carballal

Foto: Divulgação

Houve um tempo em que bastava encontrar. Encontrar ouro, petróleo, diamantes e o resto viria por gravidade histórica, como se a riqueza tivesse vocação natural para se transformar em desenvolvimento. Esse tempo nunca existiu de fato, mas a gente insiste em acreditar nele. Agora é a vez das terras raras.

 

O nome ajuda a confundir. Não são terras, nem são raras. São 17 elementos químicos metálicos, discretos, invisíveis ao imaginário popular, mas absolutamente centrais para a vida contemporânea. Estão nos ímãs de alta performance, nos chips, nos motores de carros elétricos, nas turbinas eólicas, nos equipamentos que sustentam a economia digital. São, em alguma medida, o alfabeto silencioso da transição energética. 

 

Ainda assim, precisamos frisar: terras raras não são o novo petróleo. Essa comparação é, inclusive, um grande equívoco. O petróleo, quando jorra, já nasce com mercado, logística e tecnologia consolidados ao redor. As terras raras, não. Elas exigem uma travessia complexa entre a geologia e a indústria, entre o depósito mineral e o produto de alto valor agregado. Encontrar terras raras é apenas o começo. E, talvez, a parte mais fácil da história.

 

Nos últimos anos, o Brasil passou a se olhar no espelho das terras raras com um certo deslumbramento. A Bahia, em particular, aparece com destaque nesse mapa emergente. Há potencial, há ocorrências, há sinais geológicos consistentes. Mas há também um risco silencioso de confundir potencial com resultado. Porque depósitos, por si só, não geram desenvolvimento.

 

Terras raras não se comportam como commodities tradicionais. Elas não saem da rocha prontas para o mercado. Estão dispersas, muitas vezes em baixas concentrações, associadas a minerais como monazita ou em argilas iônicas. Separá-las é um processo tecnicamente sofisticado, caro, intensivo em conhecimento e domínio químico-industrial.

 

E mais, dos 17 elementos, a indústria de ponta realmente depende de um grupo ainda mais restrito. Quatro ou cinco, no máximo, são os verdadeiros protagonistas das cadeias tecnológicas mais críticas.

 

Ou seja, não basta ter terras raras. É preciso ter as terras raras certas, na concentração adequada, com viabilidade econômica e, sobretudo, com capacidade tecnológica para extrair, separar, refinar e transformar. Sem isso, o que temos é apenas um dado geológico.

 

A sensação, hoje, lembra uma corrida. Há uma ansiedade difusa, quase febril, em torno das terras raras. Países disputam espaço, investidores circulam, anúncios se multiplicam. Em certos momentos, parece uma reedição da corrida do ouro no oeste americano, com a diferença de que, desta vez, o ouro não brilha.

 

Mas a história ensina que, em corridas assim, nem sempre vence quem encontra primeiro. Vence quem sabe o que fazer depois. O desafio brasileiro, e baiano, não é descobrir. É dominar. Dominar a tecnologia de extração. Dominar os processos de separação. Dominar a cadeia de valor. E isso não se constrói do dia para a noite, nem de forma isolada.

 

Há um ponto que precisa ser dito com clareza. O Brasil não pode, sozinho, reinventar toda a tecnologia das terras raras no curto prazo. Isso exigiria décadas e investimentos massivos, além de uma base industrial que ainda estamos construindo. Mas isso não significa resignação. Significa estratégia.

 

Se queremos transformar potencial mineral em desenvolvimento real, precisamos de parceiros. Não apenas investidores, mas detentores de tecnologia. Parcerias que envolvam transferência de conhecimento, formação de capacidade local, inserção em cadeias globais de valor.

 

Sem isso, corremos o risco de repetir um velho padrão, exportar matéria-prima bruta e importar tecnologia cara. Um modelo que empobrece mesmo quando parece enriquecer.

 

No fundo, a pergunta “encontramos terras raras, e agora?” é menos sobre geologia e mais sobre projeto de país.

 

Queremos ser apenas fornecedores de insumos ou protagonistas de uma nova indústria? Queremos celebrar descobertas ou construir capacidades? Queremos correr atrás ou definir o ritmo?

 

As terras raras colocam o Brasil diante de uma encruzilhada silenciosa. Não é sobre o que está debaixo do solo. É sobre o que somos capazes de fazer com isso. Porque, no fim das contas, riqueza não é o que se encontra. É o que se constrói a partir do que foi encontrado.

 

*HenriqueCarballal, presidente da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM)

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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