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Artigo

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O descobrimento tardio do autismo em adultos

Por Marcela Santana

Foto: Ana Trancoso/ Divulgação

Descobrir o autismo só na vida adulta é como receber, de uma vez, a legenda de cenas antigas. De repente, situações que pareciam “falha de caráter”, “frescura” ou “falta de esforço” ganham outro sentido: eram sinais de um jeito próprio de perceber o mundo. Para muita gente, o diagnóstico chega tarde, mas acompanhado de um efeito imediato: tira o peso de uma culpa que nunca deveria ter existido.

 

Nas relações, essa descoberta costuma iluminar um histórico de mal-entendidos. O diagnóstico vem acompanhado de impactos nas relações interpessoais e profissionais. Conversas atravessadas por indiretas e mal entendidos, piadas ambíguas, mudanças de plano de última hora e ambientes barulhentos podem provocar mais do que “incômodos”: podem levar à exaustão. Não é desamor, nem falta de interesse. É um cansaço real tentar adivinhar regras sociais que ninguém explica. E, quando o corpo pede pausa, o outro lado frequentemente interpreta como frieza, arrogância ou desatenção.

 

Muitos adultos passam anos usando uma máscara social para “parecer normal”. O problema é que essa atuação cobra caro: ansiedade, esgotamento, irritabilidade e uma sensação constante de estar representando. O diagnóstico, apesar de difícil, traz alívio. E luto ao mesmo tempo. Alívio por, finalmente, se entender; luto por tudo o que poderia ter sido diferente com o devido suporte e acolhimento.

 

No trabalho, o impacto aparece nas entrelinhas. Há processos seletivos que valorizam carisma, rapidez de resposta e “jogo de cintura” mais do que competência. Há reuniões longas, cobranças vagas e feedbacks cheios de subtexto. Para quem precisa de comunicação direta, previsibilidade e tempo para processar estímulos, isso pode se tornar um labirinto.

 

De forma que se estabelece a pergunta: Quais os resultados disso? Instabilidade, trocas frequentes de emprego e talentos subaproveitados, não por falta de capacidade, mas por falta de ajuste do ambiente.

 

Também pesa a decisão de compartilhar o diagnóstico ou não. Revelar a condição pode abrir portas para ajustes, mas também pode gerar rótulos e desconfiança. Por isso, muita gente observa o ambiente, escolhe alguém de confiança e explica, de forma simples, o que funciona melhor: prazos claros, comunicação direta e menos ruído. Esses detalhes fazem diferença e transformam a rotina.

 

O Dia Mundial da Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2007, para conscientizar, reduzir o preconceito e promover a inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Falar de diagnóstico tardio é falar de inclusão que sai do discurso e entra na rotina. Pequenas mudanças ajudam muito: instruções claras, combinados objetivos, pausas respeitadas, espaço sensorialmente mais confortável e abertura para adaptações.

 

Quando a diferença deixa de ser “problema” e vira dado de realidade, relações ficam mais honestas e, o trabalho, mais justo. No fim, o diagnóstico não muda quem a pessoa é. Ele muda a história que ela conta sobre si e oferece, finalmente, a chance de viver sem pedir desculpas por existir.

 

*Marcela Santana é Terapeuta Transpessoal Sistêmica, pedagoga e co-autora do livro Além do Diagnóstico

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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