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Artigo

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De menina leitora à escritora

Por Katiana Rigaud

Foto: Divulgação

Pode passar o tempo que for, não apaga da minha memória a deslumbrante coleção de livros de capas pretas e lombadas rosa, com uma imagem 3D e brilhosa bem colada na capa, representando a história que cada livro contava. O título vinha em belas e grandes letras coloridas. Por dentro, as páginas tinham um colorido mágico também. Lembro até que a boa qualidade das páginas cartonadas e da capa dura permitiu conservá-los bem, mesmo com as incontáveis folheadas.

 

Eles ficavam na estante alta da sala de casa ao lado de outros livros. Eu não passava por eles sem olhar, sempre admirando. Gostava de passar o olho por todos os livros até chegar neles, só para ter contato com aquele atraente mundo. Às vezes, não resistia e subia na estante para chegar mais perto e tocar. 

 

Ouvia, lia, relia, tocava, via, revia. Quando o livro desperta algo, o encanto brilha nos olhos e traz o sorriso. Gera uma expectativa feliz que vem de dentro e fica. O contexto costuma fazer parte dessa memória. Lembro deouvir, da expectativa de ouvir, do lugar de ouvir. Mesmo na repetição, a sensação era de fascínio pela história, imaginação e cenário.

 

Quando criança, não há teorias, explicações ou conceitos sobre os livros e o poder da leitura. É só a chance de imaginar e viajar na imaginação. É uma memória afetiva especial que nos acompanha na vida e mantém dentro de nós a capacidade de sonhar e de criar. Só muito depois éque vamos elaborar e racionalizar essas memórias e seus efeitos.

 

Hoje, imersa no movimento literário, das coisas que nem nas melhores leituras poderia imaginar que viveria, quando me vejo rodeada de profissionais, sinto-me, por vezes, completamente leiga. Acho que li pouco e que não sou leitora de verdade, sou uma impostora. Mas sou escritora e disso não tenho nem uma vírgula de dúvida. Descobri dois sentimentos que me formaram: uma eterna criança que me habita e o encanto pela arte. O primeiro vem com o respeito e o segundo embalado pelo sonho. 

 

Daí nascem os diálogos que viram histórias compartilhadas em forma de livro, só a criança interior passando o olho nos olhos e no sorriso de outras crianças. Daí vem o “sou movida pelo que sinto”, e o que sinto vira texto. A responsabilidade caminha junto e entendo-a como essencial. Conversar com criança, ainda que pareça informal, merece palavras bem cuidadas, histórias bem pensadas e muita ludicidade para equilibrar a mensagem com o prazer da arte. Compreendo uma criança como um ser humano completo em todas as dimensões, dotado de inteligência e capacidades. Dialogar com elas é engrandecedor.

 

Neste Dia Nacional do Livro Infantil lembro também uma ocasião que uma pessoa olhou vários obras literáriasinfantis expostas no evento que eu estava, e disparou: “a maioria daqueles livros estavam focados na moral da história; faltava a ludicidade”. O livro não é só transmissão de mensagens e conhecimento, é despertar e estimular muitas potencialidades através da brincadeira e da arte, além de proporcionar bons momentos e boas memórias. Que cada palavra escrita seja um sussurro de gratidão à menina leitora que fui outrora, pois foi entre páginas e sonhos que ela, sem saber, começou a me transformar na escritora que me tornei.

 

*Katiana Rigaud, administradora, escritora e fundadora da Raiz Livraria, coletivo que fomenta a produção literária independente na Bahia

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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