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Trump recua, Irã capitaliza: o custo político da impulsividade

Por Thiago Nascimento

Foto: Divulgação

A recente escalada de tensão entre Estados Unidos e Irã produziu mais um episódio que revela menos sobre poder militar e mais sobre percepção, narrativa e cálculo político. O que se viu, especialmente, não foi apenas um movimento tático, mas um reposicionamento simbólico que, na prática, acabou favorecendo o discurso iraniano.

 

O recuo de Donald Trump, após uma retórica agressiva inicial, reforça um padrão já conhecido: decisões impulsivas, seguidas de retrações mal calibradas. Em geopolítica, esse tipo de oscilação não é neutro. Ele comunica fragilidade, abre espaço para interpretações adversárias e, sobretudo, transfere vantagem no campo narrativo.

 

Do lado iraniano, a leitura foi rápida. Ainda que não haja superioridade militar real frente aos Estados Unidos, há um ganho evidente na construção de percepção: resistimos, pressionamos e forçamos o adversário a recuar. Esse tipo de narrativa é suficiente para sustentar legitimidade interna e projetar força no ambiente regional.

 

Mas há um ponto estrategicamente relevante nessa equação: o papel do Estreito de Ormuz.

 

O estreito não é apenas uma rota marítima. É um ativo geopolítico central. Aproximadamente um quinto do petróleo mundial transita por ali, segundo dados da U.S. Energy Information Administration. Isso significa que qualquer ameaça à sua estabilidade reverbera imediatamente na economia global.

 

A leitura convencional costuma apontar que o Irã utiliza Ormuz como instrumento de dissuasão, ameaçando seu fechamento em momentos de tensão. No entanto, há um aspecto mais sofisticado a considerar: ao longo dos anos, o regime iraniano parece não ter explorado plenamente o potencial estratégico do controle indireto desse corredor, não necessariamente pelo bloqueio total, mas pela capacidade de mantê-lo operacional mesmo sob pressão.

 

Manter o fluxo em Ormuz, mesmo diante de um ambiente hostil e sob vigilância constante da Marinha dos Estados Unidos, também é uma forma de poder. Significa operar sob tensão, preservar estabilidade mínima e, ao mesmo tempo, demonstrar resiliência frente a um adversário historicamente mais forte.

 

Nesse contexto, o episódio recente ganha outra camada de leitura. Ao recuar, Trump não apenas abriu espaço para que o Irã capitalizasse politicamente o momento, como também reforçou, ainda que indiretamente, a percepção de que Teerã consegue sustentar sua posição em um dos pontos mais sensíveis do comércio global, mesmo sob ameaças externas.

 

Essa combinação é estratégica: narrativa de resistência somada à demonstração prática de permanência e controle relativo do ambiente.

 

Internamente, o custo político para Trump também começa a se materializar. Pesquisas recentes de opinião indicam oscilações negativas em sua avaliação pública, especialmente em temas relacionados à condução de crises internacionais e previsibilidade de governo. Segundo levantamentos de institutos como Gallup e Pew Research Center, a percepção de inconsistência e impulsividade tende a impactar diretamente a confiança do eleitorado, que é um ativo essencial em cenários eleitorais polarizados.

 

Não se trata apenas de política externa. Trata-se de liderança percebida. Quando decisões parecem erráticas, o custo não fica restrito ao tabuleiro internacional. Ele retorna, amplificado, para o ambiente doméstico.

 

O resultado é um duplo efeito: externamente, o adversário capitaliza; internamente, a base de apoio se fragiliza.

 

O episódio reforça uma premissa central da política internacional contemporânea: poder não é apenas capacidade material. É consistência, previsibilidade e controle narrativo. Quando esses elementos falham, até mesmo a maior potência do mundo pode, momentaneamente, parecer em desvantagem.

 

E, nesse vácuo, quem se organiza melhor, ainda que com menos recursos, avança.

 

*Thiago Nascimento é jornalista

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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