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Artigo

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“Meninus do Trio” - Episódio II - A Ladeira que mudou o Carnaval

Por Bernardo Araújo

Foto: Acervo pessoal

Antes de iniciar este capítulo, e diante da polêmica que o tema já gerou, e ainda tem potencial para gerar, faço um registro. Anos atrás assisti a um filme do diretor Pete Travis, intitulado Vantage Point, traduzido no Brasil como Ponto de Vista. O filme retrata um atentado contado sob oito perspectivas diferentes, de pessoas que estavam em posições distintas no momento do incidente. O que relato a seguir segue essa mesma lógica. É o meu ponto de vista sobre a consolidação do circuito Barra-Ondina no domingo, segunda e terça-feira de carnaval como mais um circuito oficial do Carnaval. Tudo o que aqui descrevo ocorreu como narro, novamente, sob o meu ponto de vista.

 

O ano era 1995. Vínhamos de um carnaval memorável. À frente do Bloco Crocodilo estava Ricardo Chaves, que vivia um novo momento de ascensão artística e se consolidava como um dos grandes puxadores de bloco daquele período, título que ele próprio gostava de usar e que, naquele momento, fazia todo sentido, tanto para ele como artista quanto para o sucesso de vendas de abadás do bloco.

 

Aquele carnaval, no entanto, foi também um dos mais tensos da nossa história até então. Havíamos apostado em algo ousado: a construção de um Trio Elétrico revolucionário, concebido por Pedrinho da Rocha e executado pelo engenheiro metalúrgico Castrão (Metalúrgica Castro). Diferente de tudo o que existia até então, aquele foi o primeiro Trio Elétrico pensado a partir de cálculos estruturais rigorosos, e não apenas da experiência empírica dos construtores. Paradoxalmente, a adoção do cálculo estrutural para a construção de um Trio Elétrico foi justamente o que quase nos impediu de desfilar. A estrutura criada para esse Trio, por ser muito mais leve do que as anteriores, tornou-se alvo de grande polêmica dentro da Secretaria de Segurança Pública da Bahia e dos órgãos responsáveis pela vistoria dos Trios Elétricos. O temor dos técnicos era claro: acreditavam que a estrutura não suportaria o peso dos equipamentos e que o Trio Elétrico poderia “sentar” nas ladeiras do percurso. O resultado foi quase um veto completo ao nosso desfile, tema ao qual voltarei com mais detalhes em outro capítulo.

 

A situação só começou a se destravar no sábado de carnaval, quando, por intermédio de Castrão, conseguimos chegar ao então governador do Estado, Paulo Souto, que havia sido seu colega na Escola Politécnica da UFBA. Ainda assim, a liberação veio a duras penas, após intensa negociação política. Entre as exigências estava a proibição de qualquer pessoa sobre o Trio Elétrico além da banda e da equipe técnica essencial. Durante os três dias de desfile, um oficial da Polícia Militar permaneceu sobre o Trio Elétrico para garantir que ninguém, além dos autorizados, subisse. Além disso, a SSP/BA exigiu que assinássemos um termo de responsabilidade civil e criminal, assumindo integralmente quaisquer danos ou acidentes que viessem a ocorrer nos dias de carnaval.

 

Apesar de todo o desgaste, principalmente de imagem, fizemos um carnaval excelente. Mas o desgaste cobrou seu preço. Ao fim da festa, Ricardo Chaves decidiu não renovar contrato conosco e optou por seguir para outro bloco no ano seguinte.

 

Naquele momento, o Crocodilo ocupava a 13ª posição na ordem de desfile do circuito Campo Grande, que era, então, o único circuito oficial do Carnaval de Salvador. A Barra existia apenas como um espaço ocupado por blocos alternativos antes do carnaval oficial começar, sexta e sábado. No domingo, segunda e terça-feira, desfilavam ali poucos blocos; eventualmente algum bloco tradicional, mas lembro bem do Fecundânça e do Brother, sem qualquer apoio do poder público, sem iluminação adequada, com quase nenhum policiamento, sem cobertura da mídia e sem qualquer estrutura. O domingo, a segunda e a terça-feira, os chamados dias nobres do carnaval, eram inteiramente dominados pelo Campo Grande. Era lá que estavam as transmissões de televisão, os camarotes oficiais da prefeitura, do governo e dos patrocinadores. Desfilar fora dali significava, na prática, invisibilidade local e nacional.

 

A fila do Campo Grande era longa, algo entre quinze e dezessete blocos, número que hoje já não lembro com precisão. Muitos deles, inclusive os que surgiram depois do Crocodilo, tiveram enorme dificuldade para sobreviver. Não era incomum que o Crocodilo passasse pelo Campo Grande apenas às oito ou nove da noite, depois de horas tocando engarrafado no percurso, antes de entrar na passarela oficial. Isso ajuda a dimensionar o tamanho do desafio que um artista enfrentava ao escolher tocar em nosso bloco naquela época.

 

Vale aqui um parêntese histórico. Quando o Crocodilo realizou seu primeiro desfile, em 1987, não existia fila nem ordem formal. Quem tinha mais força, mais associados e, muitas vezes, mais “cordeiros”, os seguranças que conduzem as cordas do bloco, saía primeiro. Isso frequentemente gerava conflitos e brigas entre blocos, que disputavam espaço literalmente à força. Foi apenas a partir do segundo ano do Crocodilo, em 1988, que essa fila começou a ser organizada. Mas essa é outra história. Voltando a 1995: sem Ricardo Chaves, vimos-nos diante de um dilema. Como sobreviver ao Carnaval de 1996? O Asa de Águia já havia passado pelo Crocodilo e saído exatamente pelo mesmo motivo: a posição tardia na fila comprometia a visibilidade do artista. Ricardo fez a mesma leitura.

 

Tentamos alternativas. Em outra ocasião, avaliamos, juntamente com Totó, diretor do Cheiro de Amor, que acreditava muito no potencial da Banda Pimenta Nativa, então em plena ascensão. As conversas avançaram, mas não prosperaram. A diretoria do Crocodilo era numerosa, plural, com visões muito diferentes, e não houve consenso por esse caminho.

 

Foi então que surgiu uma possibilidade improvável, impensável e decisiva. Daniela Mercury vivia um sucesso nacional avassalador. Ela e seu marido à época, Zalther Povoas, eram nossos amigos de adolescência, assim como seu então empresário, o saudoso Cacau Bleicker. Havia entre nós uma relação de confiança mútua, construída desde os tempos das serenatas regadas a goles de vinho “Frei Vinicius”. Daniela não estava mais satisfeita no bloco Internacionais e vinha enfrentando desgastes naturais com a diretoria, apesar de desfilar sempre entre os primeiros, à época, o Internacionais alternava a liderança da fila com o bloco Coruja. Ela queria mudar. Mas nossa posição na fila não era atraente; pelo contrário, afastava qualquer artista de maior visibilidade no cenário da música.

 

Foi nesse contexto que parte da diretoria do Crocodilo teve uma ideia ousada: descer definitivamente a ladeira e ir para a Barra. Reescrever uma parte da história do Carnaval de Salvador. Ser o primeiro dos blocos tradicionais do Campo Grande a tomar uma decisão que, mais tarde, ajudaria a mudar completamente a geografia do circuito carnavalesco.

 

Inicialmente, a proposta gerou grande desconfiança, tanto dentro do Canto da Cidade quanto dentro de parte da nossa própria diretoria. O ceticismo imperava. O Campo Grande era o coração do carnaval. A Barra não representava nada: era escura, vazia, praticamente invisível. Para muitos carnavalescos, descer para a Barra naquele momento equivaleria a decretar o fim da entidade; para o artista, significaria abrir mão da visibilidade nacional e perder protagonismo. Mas tínhamos um forte aliado no Canto da Cidade: Cacau Bleicker. Desde o início, ele acreditou no projeto. Depois de muitas reuniões e discussões em um apart-hotel na Rua Afonso Celso, na Barra, acompanhadas de carteiras de cigarro Carlton e garrafas de Coca-Cola de dois litros, veio o sinal verde, com uma condição: o Canto da Cidade passaria a integrar a diretoria do Crocodilo.

 

Não foi uma decisão fácil. Vieram dias de ansiedade e debates internos. O Crocodilo não era um negócio no sentido clássico. Nenhum de nós vivia disso. Todos tínhamos outras profissões. Fazíamos por paixão e confraternização. E foi aí que cometemos nosso maior erro estratégico: não percebemos a tempo que o negócio estava mudando. O centro deixou de ser o bloco e passou a ser a atração. Perdemos o momento desse novo mercado que se consolidava nacionalmente com o chamado Axé Music.

 

O acordo foi selado ainda em 1995, durante um grande show de Daniela em Copacabana, em frente ao Copacabana Palace, patrocinado pela Mastercard, em comemoração à Copa de 1994. Ali, em meio a jogadores da Seleção Brasileira e a uma atmosfera simbólica de consagração nacional, nasceu o novo Crocodilo. Assim como a ideia de levar o bloco para a Barra havia partido da diretoria do Crocodilo, o passo seguinte foi igualmente fundamental, mérito do Canto da Cidade e de seu empresário, Cacau Bleicker: a criação do Camarote da Rainha, no circuito Barra-Ondina. Em um circuito que praticamente não existia nesses dias, sem estrutura, iluminação ou transmissão de TV, criaram um espaço all-inclusive, não comercializado, dedicado exclusivamente a formadores de opinião do eixo Rio–São Paulo–Salvador, com produção impecável de Lícia Fábio. Por ali passaram grandes personalidades nacionais, jornalistas dos principais jornais e revistas do país, artistas e patrocinadores. Foram tantos encontros musicais espontâneos na varanda do camarote de Daniela que fica difícil, até mesmo, nomeá-los.

 

Aquilo mudou tudo. Pela primeira vez, a Barra passou a existir no imaginário nacional como mais um circuito “oficial” de carnaval. Nascia ali, numa tarde de domingo, 18 de fevereiro de 1996, o Circuito Barra-Ondina como o conhecemos hoje.

 

É fundamental registrar o papel dos blocos Fecundânça e Brother, liderados por Israel e Jorge Roque. Eles enxergaram o que viria com a nossa descida e abriram espaço total para nossa chegada, inclusive cedendo ao Crocodilo o direito de ser o primeiro a desfilar naquele circuito. Na época, existia uma associação dos blocos da Barra, e eles lideravam a entidade, detalhe importante: o desfile começava sempre ao pôr do sol ou no início da noite. Sem a generosidade deles, verdadeiros pioneiros daquele espaço, nossa decisão talvez não tivesse sido tão simples.

 

Houve resistência, críticas, perda de patrocinadores e dúvidas internas. Descemos para a Barra com a coragem e a irreverência que sempre notabilizaram nosso grupo, e sob grande desconfiança geral. Anos depois, muitos outros fizeram o mesmo caminho.

 

Hoje, a Barra é o que se vê: o principal circuito do carnaval, congestionado e muito distante daquele cenário mágico do final dos anos 90, com brisa no fim da tarde, pôr do sol, ruas tranquilas e um carnaval leve, quase inocente. Descemos com dúvidas, muitas críticas e patrocínios perdidos.

 

Descemos sem garantias, sem transmissão de televisão e sem certeza de público. Descemos porque acreditávamos.

 

Naquele fevereiro de 1996, não mudamos apenas o trajeto de um bloco.

 

Contribuímos para a mudança do eixo e da história do Carnaval de Salvador.

 

A Barra não nasceu pronta. Ela nasceu do pioneirismo de alguns empreendedores.

 

E os “Meninus do Trio” estavam lá quando tudo começou.

 

O que se seguiu já não nos pertencia. Ganhou as ruas. Ganhou narrativas diversas. Ganhou Salvador.

 

Havia música. Havia mar. Havia pôr do sol.

 

E havia nós, diante de uma escolha. Descemos.

 

Não sabíamos exatamente o que mudaria.

 

Sabíamos apenas que era preciso mudar.

 

Hoje, olhando para trás, compreendo: há passos que parecem pequenos no instante em que são dados, mas continuam repercutindo muito depois que a música termina.

 

O que veio depois já era de Salvador.

 

*Bernardo Araújo é administrador de empresas e fundador do bloco Crocodilo

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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