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Artigo

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Entre a urgência do país e o vazio da oposição

Por Lucas Figueredo

Foto: Divulgação

O Brasil atravessa 2026 sob um espelho partido: problemas reais nas ruas e uma disputa política que frequentemente transforma demandas públicas em munição eleitoral. A insegurança pública segue como uma das principais angústias da população. Episódios recentes, como a chacina ocorrida no Rio de Janeiro, escancaram o avanço de uma violência que já não se limita a territórios específicos nem admite soluções fáceis. Ainda assim, parte relevante do debate insiste em tratar segurança como slogan, não como política de Estado. A direita, em especial, costuma reduzir o tema a discursos de endurecimento penal e enfrentamento retórico, sem apresentar propostas estruturadas, integração federativa ou estratégias de inteligência capazes de enfrentar o crime organizado.

 

No governo federal, o tema tem sido atravessado por tensões e críticas. Houve trocas no comando da Segurança Pública ao longo de 2025, cobrança por respostas mais efetivas e dificuldades de coordenação. Ao mesmo tempo, tramitam no Congresso iniciativas como a PEC da Segurança Pública e o PL Antifacção, que acabaram mais aprofundando o distanciamento entre governo e oposição do que produzindo consensos técnicos sobre política criminal. Ainda assim, há uma tentativa de enfrentar o problema de forma institucional, partindo do reconhecimento de que violência não se resolve por decreto nem por bravata eleitoral.

 

Na economia, o governo federal tem buscado equilibrar urgência social com estabilidade fiscal e crescimento. Há uma agenda explícita de investimentos e recomposição de políticas públicas, com anúncios robustos para educação, saúde e saneamento, além de medidas como a isenção do imposto de renda para salários de até R$ 5 mil. Programas estruturais, metas econômicas e reformas regulatórias apontam para uma estratégia de desenvolvimento que combina inclusão, responsabilidade fiscal e transição ecológica. Essas escolhas podem e devem ser debatidas, cobradas e aprimoradas, mas configuram um projeto de governo em execução, com diretrizes claras e responsabilidades assumidas.

 

O contraste se torna evidente quando se observa o campo da oposição. Declarações de lideranças como Ronaldo Caiado, Tarcísio de Freitas e ACM Neto ajudam a ilustrar esse cenário. Todos, em momentos distintos, foram explícitos ao afirmar que o objetivo central da oposição em outubro é derrotar Lula e retirar o PT do poder. ACM Neto, inclusive, reconheceu publicamente a pulverização do campo oposicionista, ao mesmo tempo em que reafirmou essa meta como eixo unificador.

 

Não se trata de questionar a legitimidade da disputa eleitoral. A alternância de poder é saudável e necessária. O problema surge quando a oposição se define apenas pelo adversário que combate, e não pelo país que pretende governar. Falta clareza sobre qual modelo de Estado se quer construir, quais políticas públicas seriam mantidas ou revistas, como enfrentar a violência urbana para além do discurso punitivo, como articular crescimento econômico com redução das desigualdades ou como responder aos desafios ambientais e institucionais do Brasil contemporâneo.

 

A oposição parece apostar que a rejeição a um nome e a um partido será suficiente para organizar o país. Mas derrotar politicamente o PT não equivale a apresentar um projeto nacional. Não há, até aqui, uma agenda consistente, metas claras ou propostas estruturadas que dialoguem com a complexidade dos problemas brasileiros. O que se oferece é uma promessa de ruptura, sem desenho do que vem depois.

 

Esse contraste revela um ponto crucial do debate público em 2026. O Brasil não enfrenta apenas uma escolha entre siglas em outubro. Enfrenta a necessidade de decidir como quer enfrentar a violência, gerar desenvolvimento, reduzir desigualdades e fortalecer suas instituições. Em um país marcado por urgências reais, tirar alguém do poder não basta. Governar exige mais: exige projeto, responsabilidade e compromisso com o futuro do Brasil para além da eleição.

 

*Lucas Figueredo é jornalista, pós-graduado em comunicação pública e governamental, diretor regional da ABC Pública na Bahia e autor do livro reportagem Só por Hoje — A luta dos Dependentes Químicos em Reabilitação

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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