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Artigo

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A crise nos preços do cacau e os caminhos possíveis

Por Wenceslau Júnior

Foto: Eduardo Mafra/ Divulgação

Em 2025, o preço da amêndoa do cacau alcançou recordes históricos, alimentando expectativas de um período mais favorável para os produtores. No entanto, como quase sempre acontece nesse mercado, a euforia durou pouco. A principal razão para a alta foi a escassez do produto, provocada por problemas na produção africana. Bastou uma recomposição parcial dessa produção para que, ainda no final do mesmo ano, os preços começassem a despencar.

 

Essa facilitação da entrada desse produto ao mercado brasileiro é resultado da  Instrução Normativa nº 125/2021, emitida pela Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, durante o Governo Bolsonaro, que flexibilizou os requisitos fitossanitários para a importação de amêndoas de cacau da Costa do Marfim.

 

A medida gerou críticas de produtores nacionais, sobretudo da Bahia e do Pará, que apontam riscos de pragas, concorrência desigual e queda no preço do cacau brasileiro. Os impactos provocaram protestos e levaram o Congresso a aprovar o PDL 330/22 - Projeto de Decreto Legislativo de Sustação de Atos Normativos do Poder Executivo -, que busca suspender os efeitos da Instrução Normativa.

 

Contudo, mais uma vez, o Sul da Bahia sentiu o peso de um modelo que insiste em penalizar quem está na base da cadeia produtiva. A importação em massa de amêndoas pelas indústrias moageiras jogou os preços no chão e aprofundou as dificuldades dos produtores locais, sobretudo dos pequenos, assentados e da agricultura familiar, que têm menos margem para absorver essas oscilações bruscas.

 

É preciso reconhecer: não há muitos caminhos disponíveis para esses produtores se continuarem presos à lógica da commodity - conjunto de dinâmicas econômicas, comerciais e financeiras que regem a produção, precificação e circulação de produtos básicos, com preços definidos globalmente por oferta e demanda. Submeter-se a um mercado volátil, ditado por interesses externos e altamente concentrado, é receita certa para a instabilidade permanente. O caminho possível passa por investir em tecnologia, elevar a produtividade e, principalmente, melhorar a qualidade da amêndoa.

 

Mas isso não basta. Fortalecer as fábricas mantidas por cooperativas e associações é estratégico. Experiências como a Chocosol, o SIC e a Bahia Cacau mostram que é viável avançar na industrialização local e reter valor no território. Em vez de vender matéria-prima barata, é preciso transformar o cacau em chocolate e outros derivados, agregando valor e ampliando a renda dos produtores.

 

Nesse processo, o poder público tem papel decisivo. A inclusão do chocolate produzido localmente na alimentação escolar das prefeituras das regiões cacaueiras pode abrir um mercado estável, previsível e socialmente justo. Trata-se de uma política simples, mas com enorme potencial de impacto econômico e social.

 

A Bahia, por meio da política pública de Economia Solidária, já vem atuando no fortalecimento desses empreendimentos, contribuindo para a consolidação de diversas marcas de chocolate e produtos derivados do cacau. Esse apoio, que inclui inclusive ações voltadas à exportação, demonstra que é possível competir com qualidade em mercados exigentes. O chocolate de altíssima qualidade produzido em terras grapiúnas é prova disso.

 

O desafio está posto. E ele é decisivo. Ou continuamos reféns das oscilações do mercado internacional de commodities, ou damos um passo firme rumo a um novo modelo de desenvolvimento.  Não pretendemos perder o posto de sermos uma grande potência da cadeia produtiva do cacau no País, e vamos brigar até o fim por isso. Desejamos sim, manter este lugar de destaque econômico e agregar ao lugar que nós buscamos: o de região chocolateira.

 

*Wenceslau Júnior é superintendente de Economia Solidária de Cooperativismo da Bahia

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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