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Artigo

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Os “meninus” do trio

Por Bernardo Araújo

Foto: Acervo pessoal

A poucas semanas do início do Carnaval, sempre me pego pensando: qual será a polêmica de 2026?

 

Porque, convenhamos, em Salvador, polêmica carnavalesca não é acidente — é tradição.

 

Todos os anos, essa cidade vocacionada para os serviços e, sobretudo, para a economia criativa, se prepara para a maior festa do planeta. Pelo menos é assim que nós, baianos, gostamos de dizer, misturando exagero e orgulho na mesma dose.

 

Não faltam exemplos. Houve o ano em que Wally Salomão lançou a provocação de arriar as cordas dos blocos. Houve a resistência à mudança do circuito do Campo Grande para a Barra — diziam que o Carnaval perderia sua alma ao sair do Centro. Teve também o episódio do trio do Crocodilo, embargado pela vistoria oficial. Dizem que foi o primeiro trio elétrico construído com cálculo estrutural de verdade, obra do saudoso engenheiro metalúrgico Castrão e projeto de Pedrinho da Rocha. Era tão diferente do que existia até então que os técnicos da época simplesmente não acreditaram que aquilo suportaria o “peso” dos equipamentos. E a mais recente é a passarela do Apartheid no circuito Barra-Ondina.

 

Mas este texto não é sobre polêmicas.

 

O que me move aqui é lembrar de um grupo quase invisível na narrativa oficial do Carnaval: os “meninus” que, no final dos anos 1970 e início dos 80, decidiram se aventurar — com pouco mais de vinte anos, nenhuma segurança e quase nenhum dinheiro no bolso — no que hoje chamaríamos de empreendedorismo. À época, essa palavra nem circulava. Mas foi ali, no improviso e na coragem, que se formou o alicerce do que mais tarde seria chamado de Axé Music.

 

Muito se fala — e com justiça — dos artistas que fundaram o axé. Mas pouco ou quase nada se diz sobre aqueles que criaram as condições materiais para que esses artistas existissem como fenômeno nacional. Foram esses “meninus” que deram palco, som, luz e os primeiros públicos para que esses artistas brilhassem.

 

É preciso lembrar o contexto. O Carnaval de rua, naquele início, pertencia ao povão, aos foliões anônimos, aos blocos e manifestações culturais que se organizavam na raça e na vontade; não existia dinheiro público envolvido. A elite baiana, por sua vez, preferia os bailes fechados dos clubes — Yacht, Bahiano de Tênis, Associação Atlética, Clube Português, entre tantos outros. O Carnaval de rua era visto com desconfiança. A música que nascia ali, para muitos, era considerada de baixa qualidade e só era ouvida nos dias que antecediam o Carnaval, inclusive pelas rádios, que se recusavam a tocá-la em outro período que não fosse esse.

 

Esses bailes desapareceriam com o tempo e só retornariam anos depois, reciclados sob outro formato e outro nome: camarotes do circuito Barra-Ondina.

 

Foi nesse cenário que surgiram esses empreendedores solitários — sem saber ainda que o eram — e lançaram o embrião de um negócio que se tornaria um dos maiores movimentos musicais do país até então. Internacional, Camaleão, Coruja, Eva, Crocodilo, Pinel, Beijo, Cheiro de Amor, entre tantos outros. Alguns prosperaram. Outros ficaram pelo caminho. O risco nunca era compartilhado com as estrelas. O prejuízo, quando vinha — e não era raro —, tinha endereço certo: os “meninus”; apenas eles assumiam o risco.

 

Naquele primeiro ciclo, é fundamental registrar, o artista era menor do que o trio elétrico e do que o bloco a que pertencia. Geralmente, fazia parte de uma banda que levava o mesmo nome do bloco ou do trio. A identidade central não era o cantor, mas a estrutura que o carregava. O trio elétrico era o grande protagonista. O bloco era a marca. O artista, parte do conjunto que o sustentava. O modelo lembra as escolas de samba do Rio de Janeiro: o artista não é maior que a agremiação, faz parte dela até os dias de hoje.

 

Era essa engrenagem que permitia que talentos surgissem, fossem testados, errassem e amadurecessem. Cabia aos donos de blocos fazer a divulgação, insistir no nome do artista, influenciar rádios a tocarem suas músicas, apostar em seu carisma e talento. Era uma aposta de alto risco; muitas vezes, não dava certo. Mas era também a única forma de garantir o sucesso do bloco e a certeza de esgotar a venda das mortalhas — antecessoras do abadá.

 

O trio elétrico, mais do que palco, era estratégia. Mais para o artista do que para o bloco — sensibilidade percebida por poucos. Era dali que se alcançava o Brasil, pelas câmeras de televisão, especialmente das afiliadas da TV Globo. Não por acaso, alguns artistas passaram a trocar de bloco apenas para buscar melhor posição no desfile do Campo Grande, em busca de mais visibilidade nas transmissões. E aí os blocos que estavam nos primeiros lugares da fila no Campo Grande sempre levavam vantagem, afinal, sua passagem na passarela oficial era quase garantia de transmissão nacional pela Rede Globo. Mas essa já é outra história.

 

Com o estouro nacional do axé, veio a inversão. O artista passou a ser o grande protagonista. O bloco, que havia preparado a cama, tornou-se quase um figurante. A relação, antes simbiótica, passou a ser assimétrica. O que era estrutura virou acessório. O que era coletivo virou individual. E o artista passou a ser o grande desejado: não era mais o bloco que escolhia o artista, mas o artista que definia onde iria tocar. Esse foi o grande ponto de inflexão do modelo existente e do enfraquecimento das agremiações de blocos de trio.

 

Durante mais de trinta anos, como protagonista ou observador, raramente vi as mesmas estrelas que brilharam nesses trios reconhecerem quem as colocou ali — com raríssimas exceções. A memória foi sendo reescrita, simplificada e personalizada ao gosto do narrador. E os “meninus”, cada vez mais, foram ficando de fora dessa foto.

 

Ainda assim, entre risco, sonho e improviso, foram eles que ajudaram a construir um Carnaval que hoje movimenta milhões — mas cuja história oficial insiste em esquecer aqueles que, quando tudo ainda era incerteza, decidiram colocar o bloco na rua.

 

*Bernardo Araújo é administrador de empresas e fundador do bloco Crocodilo

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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