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Artigo

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Adeus ao passarinheiro do Rio Almada

Por Nestor Mendes Jr.

Fotos: Acervo pessoal/ Nestor Mendes Jr.

Carlos Elysio de Souza Libório estava em sua sala de diretor de Jornalismo da Rede Bahia, na Estrada de São Lázaro, quando a secretária Lúcia Nunes adentrou e disse: “Dr. Libório, o pessoal da portaria está avisando que deixaram uma ave para o senhor”. Liboreta – para os íntimos – se enfureceu: “Dona Lúcia, pegue logo isso, já, porque posso ser preso pelo Ibama”. Era um curió que o sambista maragojipano Edil Pacheco – também apreciador do belíssimo canto do Sporophila angolensis – tinha deixado de presente para o amigo.


 
Era esse o Liboreta que amávamos: o passarinheiro do Rio Almada, nascido a 8 de fevereiro de 1940, na Maternidade da Drª. Rosa, no bairro da Cidade Nova, em Ilhéus, então “capital” da próspera região cacaueira da Bahia, embora a família morasse na vizinha cidade de Guaraci – o povoado de Macacos que virou Itacaré do Almada; Itacaré, em 1938; Guaraci, no mesmo ano; e, finalmente, em 1943, Coaraci, que significa “O Sol”. Era filho de Manoel Ricardo de Souza Libório e Belanísia Mármore de Souza Libório – Dr. Ricardo, o dentista; e Dona Bela, a professora, com mais duas irmãs: Lourdinha e Maria. De uma família católica, o pai de Libório era sobrinho de João Hipólito de Sousa Ferreira, o Monsenhor Hipólito – que posteriormente viraria nome de cidade piauiense.

 

 

Liboreta viveu seus dez primeiros anos em Coaraci, matriculado aos 7 anos (antes estudou em casa, com sua mãe) na Escola Estadual Muniz Sodré. Era um tempo em que a cidade sofria com as cheias do Rio Almada. Em 1950, a família deixou Coaraci e foi residir em Salvador, nos Aflitos. Foi matriculado no Colégio Nossa Senhora da Vitória, dos Irmãos Maristas. Terminou o ginasial e transferiu-se para o “Científico”, no Colégio Estadual da Bahia, o Central.


 
Na festa anual do Senhor dos Aflitos – já manifestando o seu talento para “diretor artístico”, como lhe atribuiria anos mais tarde o senador Antônio Carlos Magalhães – atuava como apresentador das candidatas ao título de Rainha e Princesas.


 
Prestou vestibular e passou em 7º lugar para a Faculdade de Direito da UFBA, em um grupo que mais tarde ficou conhecido como “Turma de 1963”: Cláudio Melo, Aidil Souza, Gorgônio Araújo, Cleomar Silva, João Carlos Teles, João de Melo Cruz, Joacy Góes, Luiz Pedreira, Maria Constança Luz, Plínio Carneiro da Silva e Nóide Cerqueira, entre outros.


 
Nunca chegou a exercer a profissão de advogado. Foi seduzido pelo Jornalismo, começando a sua carreira, em 1961, no Jornal da Bahia, na Editoria de Esportes, ficando até 1973. Também em 1961, ingressou na TV Itapoan, primeira emissora baiana, da cadeia dos Diários Associados, de Chateaubriand, onde permaneceu como Redator até 1972.  Foi repórter da Rádio Cruzeiro, em 1962; e, em 1968, foi redator da Rádio Sociedade.


 
Em 1973, foi convidado para ser o primeiro correspondente da recém-criada Revista Placar – estreando na edic?a?o de nu?mero 6, em 24 de abril de 1970. Posteriormente, assumiu a chefia da sucursal da Editora Abril, incluindo a Revista Veja e as demais publicações da editora na Bahia, saindo em 1978.


 
Em 1971 foi auxiliar de ensino na Escola de Biblioteconomia e Comunicação da UFBA. Prestou concurso, em 1978, e foi aprovado para lecionar as disciplinas Introdução à Tele-Radiodifusão; Rádio e TV – Prática II; Jornalismo Radiofônico; e Jornalismo Televisado. Morou no Rio para fazer o Mestrado em Comunicação Social, na Universidade Federal do Rio de Janeiro.


 
“Liboreta era o professor de va?rias gerac?o?es, homem de sorriso escancarado e cu?mplice, doce e sonoro, de uma vida laboriosa, honrada, criativa, sempre inovadora e inventiva, dividindo o seu saber de Mestre em tudo que fez: no jornal, no rádio, na academia, na seara público, na TV”, enumera o jornalista e escritor Fernando Vita.

 

 

Convidado pelo governador Antônio Carlos Magalhães, de quem tornou-se “homem de absoluta confiança”, foi secretário de Comunicação Social do Governo do Estado, entre 1981 e 1983 – nomeação que teve o “dedo” de Paulo Souto, seu antigo companheiro de crônica esportiva. “Ja? escolhido secreta?rio de Minas e Energia, ACM me perguntou: ‘Voce? conhece o Carlos Libo?rio?’. Respondi que sim, que fôramos contempora?neos na Ra?dio Sociedade e que a escolha não poderia ter sido melhor. Confesso que fiquei um tanto preocupado: Libo?rio que se acautelasse, pois ACM se achava, da Comunicac?a?o, especialista”, relembra, em risos, o governador Paulo Souto.

 

Deixou a Secretaria de Estado e foi para TV Bahia – inaugurada em 10 de março de 1985 – para ocupar a Diretoria de Jornalismo, permanecendo lá por 25 anos.

 

Conheceu Nely, como sua aluna, no segundo ano de Comunicação da UFBA, em 1973. Casou-se em 12 de dezembro de 1980. Dois anos depois nasceu Leonardo; e, em 1983, Mariana. É avô de Mila, Maitê e Gabriel – este último súdito real, nascido em Londres. “É o amor da minha vida. A convivência de quatro décadas me fez conhecê-lo tão profundamente que, muitas vezes, já adivinhava os seus pensamentos”, declara Nely.

 

Católico fervoroso – certamente por causas de suas origens canônicas do Piauí - fazia suas preces todos os dias, incluindo as súplicas para que o Vitória triunfasse sobre o Bahia. O jornalista Alberto Freitas relembra de uma conversa de ACM com os jornalistas, depois de uma coletiva de Imprensa: “Sou Vito?ria, mas se o Bahia estiver representando a Bahia, sou Bahia”. Ao que Libório reagiu, sem pestanejar: “O senhor! Eu, na?o! Na?o tenho dois times!”.

 

“Apaixonado por futebol, e inspirado no Fla-Flu imortalizado pelo jornalista Ma?rio Rodrigues Filho, o termo Ba-Vi foi criado por Libo?rio para resolver um dilema do editor Luiz Carlos Alcoforado, que na?o conseguia um ti?tulo curto para anunciar o ‘cla?ssico’ baiano no Jornal da Bahia”, rememora o jornalista Demóstenes Teixeira.

 

“Mister Charles era de um bom humor permanente. Por exemplo, imitava à perfeição os locutores Nilton Moura Costa, com voz de tenor, baixa rotac?a?o; e Pedro Souza, voz de soprano, alta rotac?a?o, nas noites de domingo, na apresentação do “Placar da Ra?dio Cultura”, diverte-se Virgílio Elísio da Costa Neto, cronista esportivo e ex-presidente da Federação Bahiana de Futebol.

 

Avesso a elogios e a rapapapés, o jornalista Paolo Marconi é contundente: “Tive a ventura de ser chefiado por Libório na sucursal da Veja e minha admirac?a?o e? enorme pela pacie?ncia com que me aturou e pela sua maneira de ser. Um resumo deste que foi meu chefe? Um homem de bem como poucos: correto, confia?vel, decente, digno, escrupuloso, honesto, honrado e i?ntegro”, elogia Marconi.

 

Na sucursal baiana de Veja ou na Faculdade de Comunicação, a jornalista Nadja Miranda passou por perrengues e teve vários atritos com o “chefe Liba”. “Tivemos paus homéricos, porque, para ele, eu era a ‘grevista, petista, comunista’, mas a nossa amizade foi muito ale?m, por isso homenageio esse cara a quem queria um bem danado e a quem muito admirava”, relata Nadja.

 

“Libo?rio era um homem raro. Eu na?o conheci nenhum nem parecido: cara?ter i?ntegro, reto, justo. E ainda conservava a alegria e pureza de uma crianc?a, a generosidade crista?, seu amor absoluto pela fami?lia e seu zelo pelos amigos”, depõe a comadre Marilourdes de Carvalho.

 

Bateu asas, nesta sexta-feira, 19 de dezembro, o passarinheiro do Rio Almada que amava o canto dos passarinhos, amado por todos que tiveram o prazer de trabalhar, viver e conviver com ele.

 

*Nestor Mendes Jr. é jornalista, teve a honra de ser chefiado, mas, sobretudo, de ter se tornado amigo de Carlos Libório

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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